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Letramento digital no Ensino Fundamental I: um modelo integrador de alfabetização midiática e investigação guiada para formar critérios de confiança e hábitos informacionais desde cedo

Luiz Fernando Pereira de Almeida

Regiane Sales Ribeiro

Thiago Aparecido Cavalcante

Sara Rabelo da Silva

Enoch Rodrigues Duarte

 

DOI: 10.5281/zenodo.18758740

 

 

RESUMO

A expansão do uso de telas no Ensino Fundamental I (1º–5º) intensifica o contato precoce com conteúdos persuasivos, boatos e práticas de compartilhamento sem verificação, enquanto muitas ações escolares ainda enquadram “letramento digital” como domínio técnico de ferramentas. Em diálogo com quatro contribuições: (i) o diagnóstico de modelos escolarizados frequentemente funcionalizantes de letramento digital (Pinheiro); (ii) a evidência de que intervenções estruturadas de alfabetização midiática são efetivas já em idades iniciais (Kupersmidt et al.); (iii) o potencial de estratégias de investigação guiada para desenvolver competências de busca/seleção em crianças (Wade, Lysenko & Abrami); e (iv) abordagens de MIL situadas na experiência real dos estudantes e centradas na “desnormalização” da desinformação (Pereira et al.), propomos o Modelo C3 (Confiança–Critérios–Cuidado) para EF I. O C3 integra: (a) construção de hábitos de confiança responsável (“pausar antes de acreditar”), (b) critérios simples e observáveis (pistas de fonte, autoria, intenção e evidência) e (c) cuidado digital (segurança, privacidade e compartilhamento). Descrevemos um protocolo de 6 a 8 aulas de baixo custo, instrumentos avaliativos adequados a 6–10 anos (tarefas pictográficas e rubricas) e uma agenda de pesquisa replicável em escolas públicas e privadas.

 

Palavras-chave: Letramento digital. Alfabetização midiática. Letramento informacional. Ensino Fundamental I. Cidadania digital.

 

 

  1. Introdução

 

No EF I, “ser digital” costuma significar consumir conteúdos, não necessariamente compreender como eles são produzidos, por que circulam e quais interesses mobilizam. Pinheiro evidencia que, mesmo quando a escola usa tecnologia, o letramento pode permanecer funcional, isto é, restrito ao uso instrumental da ferramenta e à reprodução de atividades tradicionais em ambiente digital. A consequência é uma aprendizagem “operacional”, sem consolidar critérios de confiabilidade, autoria responsável ou leitura crítica de mensagens.

Esse diagnóstico se torna mais crítico no EF I porque a criança está formando repertórios iniciais de confiança: ela aprende em quem confiar, como decidir e quando pedir ajuda. É justamente aí que o campo da alfabetização midiática traz uma evidência decisiva: intervenções estruturadas e apropriadas à idade podem melhorar pensamento crítico e autoeficácia (Kupersmidt et al.), sugerindo que o EF I é janela estratégica, e não um “cedo demais”.

Paralelamente, o letramento informacional, quando pensado como investigação guiada (Wade et al.), oferece um caminho para transformar “pesquisar” em procedimento (perguntar–procurar–comparar–explicar), com andaimes didáticos adequados. E a perspectiva MIL situada (Pereira et al.) lembra que qualquer proposta eficaz precisa partir da experiência concreta da criança — aquilo que ela vê, repete, compartilha e acredita — para então “desnormalizar” práticas informacionais problemáticas sem moralismo.

Problema: como desenhar uma intervenção de letramento digital para EF I que supere a funcionalização do digital, seja didaticamente acessível e mensurável, e forme critérios iniciais de confiança e cuidado?

 

 

  1. Interlocução com os quatro estudos

 

2.1 Pinheiro: a armadilha do “digital como suporte”

 

O ponto de partida é o alerta de Pinheiro: escolas podem adotar modelos em que o digital apenas muda o meio, não a competência. Para EF I, isso se expressa em tarefas como “assistir vídeo e responder perguntas” ou “jogar para treinar conteúdo”, sem trabalhar intenção, autoria, evidência e confiabilidade.

 

2.2 Kupersmidt et al.: alfabetização midiática como intervenção efetiva em idades iniciais

Kupersmidt et al. mostram que um programa estruturado de alfabetização midiática em crianças pode gerar ganhos mensuráveis. O valor aqui é duplo: (1) legitima o EF I como campo de intervenção; (2) oferece lógica de desenho “aulas curtas + habilidades explícitas + avaliação de mudança” (mesmo que o tema aplicado seja outro).

 

2.3 Wade, Lysenko & Abrami: investigação guiada como letramento informacional possível

O ISIS-21 (Wade et al.) reforça que crianças podem aprender estratégias de investigação com suporte/andaime. Para EF I, a adaptação essencial é trocar “avaliar qualidade de fonte” por pistas simples e concretas (quem falou? por quê? onde vi? tem prova?).

 

2.4 Pereira et al.: MIL orgânico e desnormalização da desinformação

A contribuição de Pereira et al. é metodológica e ética: começar do cotidiano informacional do aluno e explicitar consequências sociais. No EF I, “consequências sociais” viram situações próximas: enganar colegas, espalhar boato da turma, compartilhar algo que machuca alguém, etc.

 

 

  1. Proposta: Modelo C3 para EF I (Confiança–Critérios–Cuidado)

 

O Modelo C3 é um protocolo pedagógico e avaliativo com linguagem e tarefas compatíveis com 1º–5º ano.

 

Eixo 1 — Confiança (o hábito do “pausar”)

Competência-alvo: antes de acreditar/compartilhar, a criança aprende a pausar e perguntar.

Regra operacional infantil: “Pare – Pense – Pergunte”.

Produto: “cartaz da turma” + rotina oral de 30 segundos.

 

Eixo 2 — Critérios (pistas simples de confiabilidade)

Quatro critérios com ícones (para reduzir carga linguística):

Quem fez? (autoria/fonte: pessoa, escola, jornal, “ninguém sabe”)

Por que fez? (intenção: ajudar, vender, brincar, enganar)

Onde vi? (lugar: canal/TV, site, WhatsApp, “print sem fonte”)

Tem prova? (evidência: foto contextualizada, explicação, mais de uma fonte, “só alguém falou”)

 

Eixo 3 — Cuidado (segurança e responsabilidade)

 

Competências-alvo: privacidade, respeito, não expor colegas, pedir ajuda a adulto.

Regras de cuidado: “Não mando dados”, “Não exponho ninguém”, “Peço ajuda”.

Gênio do C3: ele une a crítica de Pinheiro (não ficar no operacional) com o efeito de Kupersmidt (intervenção explícita) e com o método de Wade (investigação guiada), aterrando tudo na vida real como defende Pereira (MIL situado).

 

 

  1. Protocolo didático (6–8 aulas, 40–50 min)

 

Aula 1 – O que eu vejo e por que acredito
Diário pictográfico: desenhar 1 coisa que viu na internet/TV e marcar “acreditei / fiquei em dúvida / não acreditei”.

Aula 2 – Pare–Pense–Pergunte (Confiança)
Teatrinho com 3 situações: “print sem fonte”, “vídeo com promessa”, “mensagem que pede para repassar”.

Aula 3 – Quem fez? Onde vi? (Critérios 1 e 3)
Jogo de cartas: “fonte confiável / fonte desconhecida” + “onde vi”.

Aula 4 – Por que fez? (Critério 2: intenção) Analisar 6 exemplos infantis (propaganda de brinquedo, notícia da escola, meme) e classificar intenção.

Aula 5 – Tem prova? (Critério 4: evidência) Atividade “duas pistas”: a criança deve escolher qual história tem mais prova (com imagens e enunciados simples).

Aula 6 – Cuidado digital Privacidade e respeito: situações do cotidiano (foto do colega, endereço, uniforme, apelidos).

Aulas 7–8 (opcional) – Projeto final Criar um “Guia da Turma: Como não cair em boato” com ícones do C3.

 

 

  1. Método de pesquisa (publicável) — desenho viável

 

5.1 Objetivo geral

Avaliar efeitos de uma intervenção C3 no EF I sobre critérios iniciais de confiabilidade, hábitos de pausa e atitudes de cuidado digital.

 

5.2 Perguntas de pesquisa

O C3 aumenta a capacidade de identificar autoria/intenção/evidência em mensagens simples?

O C3 aumenta a disposição de pedir ajuda e não repassar conteúdo sem fonte?

Quais atividades do C3 são mais significativas para crianças e professoras?

 

5.3 Desenho sugerido

 

Quase-experimental pré–pós em 1 turma (ou 2 turmas, uma controle).

Duração: 3–4 semanas.

 

5.4 Instrumentos adequados ao EF I

Tarefa pictográfica de julgamento de confiabilidade (pré–pós)

8 “cards” (mensagens curtas com imagem).

A criança marca com carinhas: 🙂 confio / 😐 não sei / 🙁 não confio

E escolhe 1 razão por ícone: “quem fez”, “por que fez”, “tem prova”, “onde vi”.

Rubrica do professor (observacional)

Frequência de: “pausa antes de repassar”, “pergunta por fonte”, “pede ajuda”, “evita expor colegas”.

Entrevista lúdica (grupo focal curto)

10 minutos: “o que mudou quando você vê uma mensagem?”

 

5.5 Análise

Quantitativa: comparação pré–pós (percentual de escolhas adequadas por critério).

Qualitativa: análise temática das falas/desenhos (critério, intenção, evidência, cuidado).

 

 

  1. Discussão: contribuição original do artigo

 

A originalidade “genial” (no sentido acadêmico, não retórico) está em traduzir a triangulação dos quatro estudos para o EF I com rigor de desenho:

Pinheiro fornece o “inimigo conceitual”: a funcionalização do digital.

Kupersmidt legitima a intervenção precoce e a mensuração de resultados.

Wade et al. oferece o mecanismo: investigação guiada (scaffold), aqui simplificada em critérios com ícones.

Pereira et al. garante o princípio pedagógico: partir do cotidiano da criança para desnormalizar o problema.

Assim, o artigo não só “cita” os quatro: ele faz uma síntese operativa, virando um modelo replicável e avaliável para 1º–5º ano.

 

 

  1. Conclusão

 

No EF I, letramento digital relevante não é “mexer em aplicativo”, mas construir confiança responsável, critérios simples de leitura crítica e cuidado no compartilhamento. O Modelo C3 oferece um caminho de baixo custo e alta replicabilidade para escolas, alinhado a evidências de intervenção, investigação guiada e MIL situado.

 

 

Referências

 

PINHEIRO, Regina Cláudia. Conceitos e modelos de letramento digital: o que as escolas de Ensino Fundamental adotam? Linguagem em (Dis)curso, Tubarão (SC), v. 18, n. 3, p. 603–622, set./dez. 2018. Disponível em: SciELO (PDF). Acesso em: 01 fev. 2026.

 

KUPERSMIDT, Janis B.; SCULL, Tracy M.; AUSTIN, Erica Weintraub. Media literacy education for elementary school substance use prevention: study of Media Detective. Pediatrics, v. 126, n. 3, p. 525–531, 2010. DOI: 10.1542/peds.2010-0068. (Epub 23 ago. 2010). Disponível em: PubMed Central. Acesso em: 04 fev. 2026.

 

WADE, Anne C.; LYSENKO, Larysa; ABRAMI, Philip C. Developing information literacy skills in elementary students using the web-based Inquiry Strategies for the Information Society of the Twenty-First Century (ISIS-21). Journal of Information Literacy, v. 14, n. 2, p. 96–127, 30 nov. 2020. DOI: 10.11645/14.2.2754. Disponível em: CILIP Journals. Acesso em: 20 fev. 2026.

 

PEREIRA, Fábio Henrique; MARQUETTO, Camila; MACHADO, L. M.; COELHO DA SILVA, N.; VARÃO, R.; AUSANI, M. F. Media and information literacy strategies: A joint reflection with teenagers in Brazilian public school. Journal of Media Literacy Education, v. 17, n. 2, p. 66–79, 2025. DOI: 10.23860/JMLE-2025-17-2-5. Disponível em: DigitalCommons@URI. Acesso em: 21 fev. 2026.