Compreensão leitora no 5º ano do Ensino Fundamental: desafios e possibilidades da mediação docente

Valquíria Mariano Tavares Barroso[1]

 

DOI: 10.5281/zenodo.22775837

 

 

RESUMO

A compreensão leitora constitui uma habilidade fundamental para a aprendizagem escolar e permanece como um desafio relevante no 5º ano do Ensino Fundamental, etapa em que se ampliam as exigências de autonomia diante dos textos. Este artigo tem como objetivo analisar dificuldades relacionadas à compreensão leitora e discutir possibilidades de mediação docente que favoreçam a construção de sentidos. Trata-se de pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, fundamentada em estudos sobre leitura, estratégias de compreensão, inferência e intervenções realizadas com estudantes do 5º ano, além de documentos educacionais brasileiros. A discussão diferencia decodificação, fluência e compreensão; examina situações em que o estudante lê, mas não consegue explicar o que leu; e propõe que o erro seja observado como pista para a intervenção pedagógica. Também são apresentadas possibilidades de mediação antes, durante e depois da leitura, com atenção ao ensino explícito de inferências, ao monitoramento da compreensão e à sustentação textual das respostas. Conclui-se que avaliar a compreensão não equivale a ensiná-la e que intervenções intencionais, articuladas às necessidades dos estudantes, podem favorecer a formação de leitores progressivamente mais autônomos.

 

Palavras-chave: Compreensão leitora. Leitura. Mediação docente. Ensino Fundamental. 5º ano.

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

A leitura ocupa lugar central no processo de escolarização e está diretamente relacionada às possibilidades de participação do estudante nas diferentes situações de aprendizagem. Ler é necessário para compreender um problema matemático, interpretar informações históricas e geográficas, acompanhar explicações científicas e participar das diversas práticas sociais que envolvem a linguagem escrita. Nessa perspectiva, Koch e Elias (2006) compreendem a leitura como uma atividade interativa de produção de sentidos, na qual o leitor mobiliza conhecimentos e estratégias para interagir com o texto.

Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o desenvolvimento da leitura ocorre de maneira progressiva. A apropriação do sistema de escrita alfabética é indispensável, mas não encerra o processo de formação do leitor. Kleiman (2013) destaca que a compreensão envolve processos cognitivos como atenção, memória e inferência, o que evidencia a complexidade da atividade leitora e a necessidade de ultrapassar uma concepção centrada apenas na decodificação.

Essa questão assume especial relevância no 5º ano do Ensino Fundamental. A Base Nacional Comum Curricular prevê, entre as habilidades de Língua Portuguesa para o bloco do 3º ao 5º ano, identificar a ideia central de um texto, inferir informações implícitas e inferir o sentido de palavras ou expressões desconhecidas com apoio do contexto (Brasil, 2018). Tais habilidades mostram que a leitura esperada nessa etapa envolve construção de sentidos e não somente reconhecimento de palavras.

Ler em voz alta com relativa fluência não garante, por si só, que o texto tenha sido compreendido. Há estudantes que oralizam com segurança, mas encontram dificuldade para reconstruir a ideia central, relacionar informações ou explicar o que acabaram de ler. A revisão sistemática de Santos, Santos e Alliprandini (2026) mostra que estratégias cognitivas e metacognitivas se complementam no desenvolvimento da leitura, alcançando dimensões de fluência e de compreensão literal, inferencial e global.

Se a dificuldade aparece apenas na correção da atividade, a interpretação pode acabar tratada como algo que o aluno deveria saber fazer sozinho. Solé (1998), ao discutir o ensino de estratégias de leitura, desloca essa compreensão: procedimentos como antecipar, formular perguntas, verificar hipóteses, inferir e reler também podem ser ensinados. É nesse espaço que a mediação docente ganha importância.

A relevância do tema também se expressa nas avaliações educacionais de larga escala. O Saeb dispõe de uma escala de proficiência em Língua Portuguesa para o 5º ano organizada por habilidades de leitura de complexidade crescente (Brasil, 2025). Esse indicador não substitui o olhar cotidiano do professor sobre sua turma, mas ajuda a situar a compreensão leitora como uma questão educacional mais ampla.

Diante dessas considerações, este estudo apresenta como problema de pesquisa: de que maneira a mediação docente pode contribuir para o desenvolvimento da compreensão leitora de estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental? O objetivo geral consiste em analisar os principais desafios relacionados à compreensão leitora nessa etapa de escolarização e discutir possibilidades de mediação docente que favoreçam a construção de sentidos durante a leitura.

 

 

2 METODOLOGIA

 

Este artigo apresenta uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, voltada à discussão de estudos sobre leitura, compreensão e mediação docente em diálogo com as demandas do 5º ano do Ensino Fundamental. A opção por esse percurso metodológico permite reunir contribuições teóricas e resultados de pesquisas que ajudam a compreender tanto os processos envolvidos na leitura quanto as possibilidades de intervenção pedagógica.

O corpus teórico foi composto por obras de referência disponíveis em português e por artigos científicos brasileiros relacionados diretamente aos eixos do estudo. Foram priorizados trabalhos sobre estratégias de leitura, inferências, fluência, compreensão e atuação docente, além de documentos oficiais. A discussão mobiliza Solé (1998), Koch e Elias (2006), Kleiman (2013) e Boruchovitch (2001), estudos brasileiros sobre ensino da compreensão e inferências (Braz; Guimarães, 2019; Oliveira; Minatel; Guimarães, 2019; Silva; Guimarães, 2024; Santos; Santos; Alliprandini, 2026) e documentos da Base Nacional Comum Curricular e do Saeb (Brasil, 2018, 2025).

A leitura e a análise das fontes foram organizadas em cinco eixos: concepções de leitura e compreensão; dificuldades que se tornam mais visíveis no 5º ano; mediação docente; estratégias mobilizadas antes, durante e depois da leitura; e desafios da prática pedagógica. Não se trata de pesquisa empírica com uma turma específica. Por essa razão, as situações de sala de aula apresentadas ao longo do texto são exemplos pedagógicos construídos a partir da discussão teórica, e não dados de observação ou resultados de intervenção.

 

 

3 LEITURA E COMPREENSÃO LEITORA NOS ANOS INICIAIS

 

Reduzir a leitura à transformação de sinais gráficos em sons não dá conta da complexidade dessa atividade. Para Koch e Elias (2006), o sentido se constrói na interação entre autor, texto e leitor. Essa concepção é particularmente importante na escola porque desloca o estudante da posição de mero decodificador: compreender requer participação, mobilização de conhecimentos e tomada de decisões ao longo da leitura.

Durante a leitura, o estudante mobiliza conhecimentos prévios, relaciona informações, antecipa possibilidades, confirma ou modifica hipóteses e procura coerência para aquilo que está lendo. Kleiman (2013) ressalta a importância de processos como percepção, atenção, memória e inferência para a compreensão, indicando que o desempenho leitor resulta da articulação de diferentes operações cognitivas.

Decodificação, fluência e compreensão são dimensões relacionadas, mas não equivalentes. A leitura de palavras com precisão e fluência oferece suporte importante à compreensão, mas não a assegura. Santos, Santos e Alliprandini (2026) mostram que estratégias cognitivas, como ler e reler, e estratégias metacognitivas, relacionadas ao monitoramento e ao controle da compreensão, podem atuar de forma articulada no desenvolvimento leitor.

As inferências assumem papel particularmente relevante porque muitos sentidos não estão expressos literalmente. A própria BNCC inclui como habilidade EF35LP04 a capacidade de inferir informações implícitas nos textos lidos e, na EF35LP05, inferir o sentido de palavras ou expressões desconhecidas a partir do contexto (Brasil, 2018). Isso reforça a necessidade de ensinar o estudante a utilizar pistas textuais e conhecimentos prévios na construção de sentidos.

Por isso, a formação do leitor nos anos iniciais precisa ir além da localização de respostas. Há situações em que o aluno deve recuperar uma informação explícita; em outras, precisa relacionar trechos, perceber uma intenção, formular uma hipótese ou justificar por que determinada interpretação é possível. É nesse movimento que a compreensão deixa de ser apenas resultado esperado e passa a constituir objeto de ensino.

 

 

4 OS DESAFIOS DA COMPREENSÃO LEITORA NO 5º ANO

 

No 5º ano, a dificuldade de compreensão não aparece de uma única forma. Um estudante pode ter problemas para localizar uma informação claramente apresentada, enquanto outro encontra o dado solicitado, mas não consegue relacioná-lo ao restante do texto. Há ainda aqueles que compreendem o sentido geral, porém se perdem quando a questão exige uma inferência ou a articulação entre partes mais distantes do texto.

Boruchovitch (2001), ao investigar estratégias de compreensão relatadas por estudantes do Ensino Fundamental, identificou uma variedade pouco diversificada de estratégias de leitura entre os participantes. O resultado chama atenção para a necessidade de um trabalho pedagógico que ensine procedimentos de compreensão, em vez de pressupor que todos os estudantes os desenvolverão espontaneamente.

Uma questão importante envolve as informações implícitas. Quando uma atividade pode ser respondida pela cópia de uma frase, o estudante pode acertar sem demonstrar compreensão mais aprofundada. A exigência muda quando precisa perceber intenções, estabelecer relações de causa e consequência ou justificar uma conclusão com base em pistas distribuídas pelo texto. A BNCC reconhece essa progressão ao prever tanto a compreensão global quanto a inferência de informações implícitas (Brasil, 2018).

O vocabulário e os conhecimentos prévios também interferem nesse processo. Kleiman (2013) ressalta que a compreensão mobiliza conhecimentos que o leitor traz para a interação com o texto, enquanto Koch e Elias (2006) destacam o caráter ativo dessa construção de sentidos. Isso não significa limitar as leituras ao universo já conhecido pela criança, mas oferecer condições para que novos textos ampliem seu repertório.

Essas dificuldades tendem a ganhar visibilidade no 5º ano porque as demandas de leitura se ampliam. Os textos se tornam mais extensos, as questões exigem maior elaboração e a leitura passa a funcionar, cada vez mais, como meio para aprender conteúdos de diferentes áreas. Nesse cenário, atribuir o problema apenas à falta de atenção ou de esforço pouco ajuda a decidir o que ensinar. É necessário observar em que ponto a compreensão se rompe.

 

4.1 O ALUNO LÊ, MAS NÃO COMPREENDE: IDENTIFICANDO A ORIGEM DA DIFICULDADE

 

Uma cena recorrente nas turmas de 5º ano ajuda a tornar o problema mais concreto: o estudante lê um texto em voz alta com aparente segurança e, logo depois, não consegue dizer o que entendeu. Chamar essa situação simplesmente de “falta de interpretação” é insuficiente. A dificuldade pode envolver vocabulário, recuperação de informações, compreensão do enunciado, integração entre trechos, produção de inferências ou até o monitoramento do próprio entendimento.

A diferença não é apenas conceitual; ela muda a intervenção. Braz e Guimarães (2019), ao analisarem práticas de ensino da compreensão no Ensino Fundamental, observaram a necessidade de ampliar o trabalho para além das informações literais, contemplando também a reorganização das informações e a compreensão inferencial e crítica. Para o professor, isso significa olhar menos para o simples acerto ou erro e mais para o percurso que levou à resposta.

Uma maneira de investigar esse percurso é pedir ao aluno que explique, com suas palavras, o que compreendeu e mostre quais partes do texto sustentam sua resposta. Se ele localiza informações, mas não consegue relacioná-las, a intervenção pode se concentrar na integração entre trechos. Se responde apenas a partir de sua opinião, talvez precise aprender a buscar sustentação textual. Se continua lendo mesmo depois de perder o sentido, o trabalho pode voltar-se ao monitoramento da compreensão.

Esse olhar evita duas simplificações frequentes: concluir que todo estudante que lê devagar não compreende ou presumir que todo estudante que lê fluentemente compreende bem. A compreensão precisa ser analisada a partir de diferentes evidências produzidas durante a leitura, considerando tanto os procedimentos utilizados pelo aluno quanto sua capacidade de monitorar o próprio entendimento (Santos; Santos; Alliprandini, 2026).

 

 

5 A MEDIAÇÃO DOCENTE NA FORMAÇÃO DO LEITOR

 

Quando a leitura é entendida como construção de sentidos, a mediação docente não consiste em antecipar a interpretação correta. Seu papel é criar condições para que o estudante observe pistas, formule perguntas, confronte hipóteses, justifique respostas e retome o texto quando necessário.

Solé (1998) propõe que estratégias de leitura sejam ensinadas de modo a favorecer leitores autônomos, capazes de enfrentar textos de diferentes naturezas. Nessa perspectiva, o professor atua como alguém que explicita procedimentos, orienta a reflexão e, gradualmente, transfere ao estudante maior responsabilidade sobre a própria leitura.

Esse acompanhamento pede atenção ao percurso, e não somente à resposta final. Duas respostas igualmente inadequadas podem ter origens muito diferentes: uma palavra desconhecida, uma leitura apressada, uma informação não localizada, uma relação não percebida ou uma inferência mal construída. Saber onde ocorreu a dificuldade torna a intervenção mais precisa.

Também é produtivo tornar visíveis procedimentos que leitores mais experientes realizam quase sem perceber. Ao pensar em voz alta diante de um trecho - retomando uma hipótese, procurando uma pista contextual ou decidindo reler -, o professor mostra que compreender não é um ato instantâneo. Solé (1998) destaca justamente o ensino de estratégias como caminho para uma atuação progressivamente mais autônoma diante do texto.

 

 

6 ESTRATÉGIAS DE MEDIAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA COMPREENSÃO LEITORA

 

Uma forma de organizar esse ensino é considerar o que pode ser feito antes, durante e depois da leitura. Solé (1998) utiliza essa organização para discutir estratégias de compreensão. Na prática escolar, ela funciona melhor como referência para o planejamento do que como roteiro rígido: o texto, o objetivo da leitura e as necessidades da turma é que devem orientar as intervenções.

 

6.1 ANTES DA LEITURA

 

Antes de iniciar a leitura, a exploração do título, das imagens, da autoria, do gênero e de outros elementos pode contribuir para a formulação de hipóteses. A ativação de conhecimentos prévios ajuda o estudante a estabelecer relações entre aquilo que já sabe e as novas informações. A BNCC também prevê o estabelecimento de expectativas e a confirmação de antecipações e inferências ao longo da leitura (Brasil, 2018).

A intenção não é explicar previamente o texto nem retirar dele o elemento de descoberta. Trata-se de oferecer pontos de apoio para que o estudante entre na leitura com perguntas, expectativas e algum repertório a partir do qual possa construir novas relações.

 

6.2 DURANTE A LEITURA

 

Durante a leitura, a mediação pode concentrar-se na confirmação das hipóteses, na identificação de informações relevantes e na resolução de dificuldades. Perguntas como “Que informação do texto fez você pensar isso?” ou “Qual pista ajuda a compreender essa palavra?” direcionam a atenção para o próprio texto e incentivam a justificativa das interpretações.

As inferências merecem atenção porque costumam marcar uma passagem importante entre localizar e construir uma resposta. Inferir não é adivinhar. É reunir pistas fornecidas pelo texto e articulá-las aos conhecimentos do leitor para chegar a uma conclusão possível. Quando esse raciocínio é discutido em sala, o estudante começa a perceber que uma resposta inferencial também precisa de fundamento.

Também é necessário ensiná-lo a perceber quando deixou de compreender. Parar, reler, diminuir a velocidade, retomar uma informação anterior ou buscar esclarecimento são ações de monitoramento da compreensão. Santos, Santos e Alliprandini (2026) destacam que estratégias metacognitivas relacionadas ao monitoramento, à avaliação e ao controle durante a leitura podem contribuir para a compreensão leitora.

 

6.3 DEPOIS DA LEITURA

 

Após a leitura, as atividades podem favorecer a reorganização e o aprofundamento daquilo que foi compreendido. Retomar hipóteses iniciais, discutir o tema, identificar ideias principais, produzir sínteses e justificar interpretações são possibilidades coerentes com uma concepção ativa de leitura.

As perguntas propostas nesse momento podem combinar diferentes níveis de exigência. Localizar informações continua sendo necessário, mas não basta. Comparar trechos, explicar relações, justificar conclusões e sustentar respostas com elementos do texto permite trabalhar a compreensão de modo mais amplo e evita que interpretar se reduza a copiar uma frase semelhante ao enunciado.

 

6.4 DA RESPOSTA ERRADA À INTERVENÇÃO: O ERRO COMO INDICADOR DO PROCESSO DE COMPREENSÃO

 

Na compreensão leitora, o erro pode ser mais informativo do que uma simples marcação de certo ou errado. Uma resposta inadequada pode revelar em que ponto a construção de sentido se interrompeu. Vista dessa forma, a correção deixa de encerrar a atividade e passa a oferecer elementos para a próxima intervenção.

Um aluno que copia um trecho sem responder ao que foi perguntado talvez esteja procurando apenas palavras semelhantes entre o enunciado e o texto. Outro pode produzir uma resposta coerente com seu conhecimento de mundo, mas sem sustentação no que leu. Há ainda o estudante que afirma que “a resposta não está no texto” quando a questão exige inferência. Embora as três respostas estejam inadequadas, elas não pedem a mesma ajuda.

A inferência merece atenção especial porque permite ao leitor construir sentidos que não estão inteiramente explicitados no texto. Silva e Guimarães (2024), ao investigarem o conhecimento de professores de 4º e 5º ano sobre o ensino de inferências, ressaltam que essa habilidade é necessária à produção de sentidos e que falar em ensino da compreensão implica também considerar o ensino de inferências. Assim, inferir não deve ser tratado como simples adivinhação, mas como um processo que pode ser mediado e desenvolvido no trabalho pedagógico.

Diante dessas situações, perguntas curtas podem revelar muito: “O que a questão está pedindo?”, “Que informação já temos?”, “Onde está a pista?” ou “O que podemos concluir juntando essas informações?”. A finalidade não é conduzir o aluno passo a passo até uma resposta previamente esperada, mas ajudá-lo a reconhecer procedimentos que poderá reutilizar quando estiver lendo sozinho.

 

 

7 PARA ALÉM DAS PERGUNTAS DE INTERPRETAÇÃO: ENSINAR O ALUNO A COMPREENDER

 

Uma prática muito comum no ensino de leitura é apresentar o texto e, em seguida, uma sequência de perguntas. Esse formato pode ser útil, mas se torna limitado quando ocupa quase todo o trabalho com compreensão. Nesse caso, a atividade tende a mostrar o que o aluno conseguiu compreender sem necessariamente ensiná-lo a agir quando não compreende.

Há, portanto, uma diferença decisiva entre avaliar a compreensão e ensiná-la. A resposta final informa algo sobre o resultado da leitura; já a intervenção durante o processo permite discutir como o leitor chegou - ou não chegou - a determinado sentido. Quando o aluno erra e recebe apenas a resposta correta, perde-se uma oportunidade de trabalhar justamente o procedimento de que ele necessita.

Solé (1998) sustenta que as estratégias de leitura precisam ser ensinadas para que o aluno possa utilizá-las de forma progressivamente autônoma. No contexto brasileiro, Braz e Guimarães (2019) observaram que práticas de ensino da compreensão frequentemente se concentram em atividades posteriores à leitura e em informações literais, apontando a necessidade de intervenções que também promovam compreensão inferencial e crítica.

As perguntas de interpretação ganham outra potência quando ajudam a reconstruir o raciocínio. “Como você chegou a essa conclusão?”, “Que trecho oferece essa pista?” e “Quais informações precisam ser relacionadas?” são questões que deslocam a atenção do gabarito para o processo de compreensão.

Essa mudança é relevante porque compreender não significa adivinhar aquilo que o professor espera. Koch e Elias (2006) mostram que o leitor participa ativamente da construção dos sentidos. No espaço escolar, essa participação precisa ser acompanhada da aprendizagem de como fundamentar interpretações nas possibilidades oferecidas pelo texto.

Isso não significa abandonar questões literais. Recuperar informações explícitas faz parte da leitura e pode servir de base para operações mais complexas. O problema surge quando toda interpretação se resume a localizar e copiar. Um trabalho mais equilibrado combina recuperação, relação, inferência, justificativa e reflexão sobre os caminhos usados para compreender.

 

7.1 DA TEORIA À SALA DE AULA: POSSIBILIDADES DE MEDIAÇÃO DIANTE DAS DIFICULDADES

 

A passagem da teoria para a sala de aula fica mais nítida quando a mediação começa pelo que o aluno efetivamente faz diante do texto. Em vez de repetir a explicação ou fornecer imediatamente a resposta, o professor pode usar intervenções breves para localizar a dificuldade e devolver ao estudante parte da responsabilidade pela construção do sentido.

Pesquisas brasileiras reforçam essa direção. Rossi, Peres e Silva (2016) destacam o papel do professor na proposição de estratégias e procedimentos que favoreçam a compreensão, enquanto Vagula, Quadros e Balsan (2016) discutem a presença das estratégias de leitura na formação de leitores e chamam atenção para a necessidade de orientações que auxiliem o educador a incorporá-las efetivamente à prática. Em estudo voltado especificamente a professores de 4º e 5º ano, Silva e Guimarães (2024) mostram que o ensino de inferências merece atenção na formação e na prática docente.

Esses estudos não oferecem uma receita única para a aula de leitura - e nem deveriam. O que eles permitem sustentar é a importância de ensinar procedimentos, acompanhar sua utilização e criar oportunidades para que o estudante assuma gradualmente maior autonomia. O quadro a seguir traduz essa ideia em situações frequentes de sala de aula, sem a pretensão de funcionar como protocolo diagnóstico.

Quadro 1 – Possibilidades de mediação diante de dificuldades de compreensão leitora

Quando o aluno...

O professor pode investigar...

Possível mediação

Lê com fluência, mas não consegue explicar o texto

Compreensão global e integração das informações

Pedir que reconte com suas palavras e identifique as informações essenciais.

Copia um trecho sem responder ao que foi perguntado

Relação entre pergunta e informação localizada

Perguntar por que aquele trecho responde à questão e o que ainda falta explicar.

Diz que a resposta “não está no texto”

Produção de inferências

Localizar pistas em dois ou mais trechos e perguntar o que pode ser concluído a partir delas.

Não compreende uma palavra

Vocabulário e uso do contexto

Explorar as palavras e ideias ao redor antes de recorrer imediatamente ao significado pronto.

Esquece informações do início do texto

Integração e monitoramento

Retomar trechos anteriores e explicitar a relação com a informação atual.

Responde apenas com opinião pessoal

Sustentação textual

Perguntar: “Que parte do texto sustenta sua resposta?”

Fonte: elaboração própria, com base na discussão teórica deste estudo.

O quadro deve ser lido como apoio à reflexão pedagógica. A mesma resposta “não sei” pode esconder obstáculos distintos, e a intervenção se torna mais precisa quando o professor procura descobrir o que o estudante fez, o que conseguiu compreender e em que momento perdeu o fio da leitura.

 

 

8 DESAFIOS DA PRÁTICA DOCENTE

 

A heterogeneidade das turmas torna esse trabalho especialmente exigente. No mesmo 5º ano podem conviver estudantes que leem com autonomia, outros que precisam de apoio para compreender textos mais longos e alguns que ainda enfrentam dificuldades importantes de fluência ou decodificação. Planejar para essa diversidade exige escolhas, retomadas e diferentes formas de acompanhamento.

Em determinadas situações, dificuldades acumuladas nos anos anteriores ficam mais visíveis justamente quando as exigências de leitura aumentam. O professor passa a lidar, ao mesmo tempo, com aprendizagens previstas para o 5º ano e com habilidades que ainda precisam ser consolidadas. Isso torna o diagnóstico pedagógico contínuo mais útil do que rótulos genéricos como “não interpreta”.

Há ainda limites concretos. Ensinar compreensão demanda tempo para ler, conversar sobre o texto, observar respostas, retomar trechos e acompanhar diferentes percursos. Turmas numerosas, ritmos muito distintos e pressão pelo cumprimento do planejamento podem reduzir esse espaço. Por isso, dificuldades de leitura não podem ser tratadas como responsabilidade exclusiva do professor que recebe a turma naquele ano.

Outro cuidado consiste em não reduzir o trabalho com leitura ao treinamento para avaliações. Embora seja necessário familiarizar os estudantes com diferentes tipos de questões, a formação do leitor possui objetivos mais amplos. A própria BNCC associa a linguagem escrita à participação na cultura letrada, à construção de conhecimentos e à ampliação da autonomia (Brasil, 2018).

A formação continuada e o trabalho coletivo da escola ajudam a enfrentar esse quadro. Boruchovitch (2001) já chamava atenção para o repertório de estratégias utilizado pelos estudantes. Estudos posteriores mostram que também é necessário ampliar o conhecimento docente sobre os processos de compreensão e fortalecer práticas que não se limitem à localização de informações explícitas (Oliveira; Minatel; Guimarães, 2019; Braz; Guimarães, 2019).

 

 

9 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A compreensão leitora não se reduz ao reconhecimento ou à oralização das palavras. Ao longo da leitura, o estudante precisa mobilizar conhecimentos, estabelecer relações, formular hipóteses, produzir inferências e perceber quando o sentido se perdeu. Essas ações ajudam a explicar por que dois alunos capazes de ler o mesmo trecho em voz alta podem apresentar níveis muito diferentes de compreensão.

No 5º ano, essa diferença se torna particularmente relevante porque a leitura passa a sustentar aprendizagens cada vez mais amplas. As habilidades previstas na BNCC para o período incluem identificar a ideia central, inferir informações implícitas e construir sentidos para palavras desconhecidas a partir do contexto (Brasil, 2018). Trabalhá-las de forma sistemática, portanto, não é uma atividade complementar, mas parte do próprio ensino de leitura.

A questão que orientou este estudo permite chegar a uma conclusão central: a mediação docente contribui quando não se limita a conferir respostas, mas intervém nos procedimentos de compreensão. Ativar conhecimentos prévios, formular hipóteses, voltar ao texto, discutir pistas e pedir justificativas são ações simples em sua forma, porém importantes para que o estudante perceba como o sentido é construído.

Talvez o desafio mais importante seja justamente este: ajudar o aluno a saber o que fazer quando o texto deixa de fazer sentido. Encontrar uma resposta correta é parte da aprendizagem; desenvolver recursos para perguntar, relacionar, inferir, reler e revisar a própria compreensão é o que amplia sua autonomia para enfrentar novas leituras. Nesse ponto, ensinar a compreender vai além de preparar para uma atividade de interpretação: significa formar um leitor capaz de agir diante das dificuldades que encontra no texto.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BORUCHOVITCH, Evely. Algumas estratégias de compreensão em leitura de alunos do ensino fundamental. Psicologia Escolar e Educacional, Campinas, v. 5, n. 1, p. 19-25, 2001. DOI: 10.1590/S1413-85572001000100003.

 

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Resultados do Saeb 2023: volume 1: dados de proficiência. Brasília, DF: Inep, 2025.

 

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.

 

BRAZ, Elaine Doroteia Hellwig; GUIMARÃES, Sandra Regina Kirchner. Ensino da compreensão leitora na prática pedagógica de professores do ensino fundamental. Leitura: Teoria & Prática, v. 37, n. 76, p. 89-108, 2019. DOI: 10.34112/2317-0972a2019v37n76p89-108.

 

KLEIMAN, Angela. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura.15. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2013.

 

KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006.

 

OLIVEIRA, Terezinha das Graças Laguardia; MINATEL, Magaly Quintana Pouzo; GUIMARÃES, Sandra Regina Kirchner. Concepções docentes sobre os fatores e processos que envolvem a compreensão leitora. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 54, n. 2, p. 191-201, 2019. DOI: 10.15448/1984-7726.2019.2.32521.

 

ROSSI, Maria Aparecida Lopes; PERES, Selma Martines; SILVA, Fernanda Siqueira da. Estratégias de leitura e mediação do professor: o desafio de formar leitores no terceiro ano do ensino fundamental. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, p. 2414-2429, 2016. DOI: 10.21723/riaee.v11.n.esp4.8906.

 

SANTOS, Mirian Angelita dos; SANTOS, Valéria Hilário dos; ALLIPRANDINI, Paula Mariza Zedu. Eficácia de estratégias autorreguladas na fluência e compreensão leitora no Ensino Fundamental: revisão sistemática. Revista Educação e Linguagens, Campo Mourão, v. 16, p. 1-22, 2026. DOI: 10.33871/22386084.2026.16.11700.

 

SILVA, Cláudia Santos da; GUIMARÃES, Silvia Brilhante. O conhecimento de professores de 4º e 5º ano do ensino fundamental sobre ensino de inferências. Revista do GELNE, v. 26, n. 2, p. e36339, 2024. DOI: 10.21680/1517-7874.2024v26n2ID36339.

 

SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Tradução de Cláudia Schilling. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

 

VAGULA, Vânia Kelen Belão; QUADROS, Marta Campos de; BALSAN, Silvana Ferreira de Souza. Formando leitores: reflexões sobre as práticas de leitura e a mediação do professor no ensino fundamental. Cadernos de Pesquisa em Educação, n. 44, 2016. DOI: 10.22535/cpe.v0i44.15873.

 



[1] Licenciada em Letras e Pedagogia. Professora da Educação Básica.

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