A literatura infantil na educação dos surdos: desafios em sala de aula

Cláudia Regina Delarcos

Taysa Delarcos de Oliveira

 

DOI: 10.5281/zenodo.22711503

 

 

Educação Infantil é uma etapa de grande importância para o processo de formação do indivíduo. É na relação íntima da criança com uma obra literária que há a possibilidade de formar-se um leitor (BERNARDINELLI & CARVALHO,2011). Segundo os autores é nessa exploração da imaginação e fantasia que há um crescimento na criatividade.

Assim, nas etapas iniciais de educação, os livros infantis, com suas histórias clássicas mergulhadas em fantasias, se configuram como um método fundamental para o incentivo e desenvolvimento da criatividade (BERNADINELLI & CARVALHO, 2011). Esse é um ponto relevante e fundamental na educação de crianças surdas, devido à escassez de materiais voltados para esse tipo de ensino (NANTES, 2010), bem como à falta de profissionais que atuem nessa área.

Para ROSA (2011):

 

O livro é importante para todos aprenderem e estudarem, pois tem papel importante no contato da criança com os mesmos. As crianças surdas desenvolvem aprendizagem através da leitura e da experiência visual, porém sozinhas não tem poder de formar e de serem leitores visuais- necessitam de livros, de textos de imagens para que possam desenvolver sua capacidade visual e de leitura. As crianças precisam encontrar significados que ultrapasse o sentido da leitura escolar, preferencialmente, devem trazer de casa uma relação afetiva com livros construída com a família através das Libras (Língua Brasileira de Sinais)( ROSA, 2011).

 

Porém, no contexto escolar percebe-se a escassez de recursos e materiais que promovam a diversidade cultural quando em comparação com comunidades surdas. A leitura de outros textos e imagens que ressignifiquem o ser diferente com abordagens que tragam representações e identidades próprias.

Algumas dificuldades apontadas neste processo são principalmente a tradução de experiências visuais que construam e envolvam o enredo da estória. Com relação aos profissionais envolvidos, as dúvidas pairam sobre se todo o arcabouço linguístico e cultural existente está de fato produzindo significados entre os surdos.

As diferentes produções culturais dependem da criatividade dos respectivos autores e compiladores cujas raízes são os costumes, os idiomas e isto impacta de modo bastante significativo as produções literárias, pois o surdo não está geograficamente em um só lugar e mesmo inserido em uma comunidade escolar será com seus pares que terá melhores resultados, pois as lutas e as reivindicações são as mesmas.

Todavia, uma vez inserido no contexto escolar, o intérprete ou o professor devem procurar literaturas que somem as culturas preexistentes de cada criança surda. Um bom exemplo são os Contos de Fadas que dão contribuições psicológicas positivas ao crescimento da criança e significação a sua vida, quando trazidos à sua identidade promovem nelas a sensação de pertencimento.

A boa tradução destes sentimentos de dualidade presentes, por exemplo nos Contos de Fadas, forma inconscientemente nas crianças surdas grande parte das demandas psico sociais e sócio culturais que ela precisará para a vida adulta. Os signos linguísticos usados na Língua de Sinais devem contemplar toda a atmosfera da estória. Para tanto, o Contador de Estórias deve ter um nível fluente da linguagem de sinais, com um vocabulário amplo, bem como expressão corporal e facial que traduzam a ambientação e os sentimentos dos personagens. Ou seja, o papel do Contador de Estórias é antes de tudo emocionar.

Nos últimos anos têm surgido materiais que trazem as tradições em Língua de Sinais em forma de escrita, a chamada Literatura Surda. São clássicos da Literatura Infantil que aproximam as estórias de vida, cultura e identidade surda. Como a Cinderela Surda (Hessel; Rosa; Karnopp, 2003).

No clássico da Cinderela Surda a narrativa é a mesma; apenas são inseridos elementos significativos na comunidade surda, em que os personagens principais são surdos, como o príncipe, a Cinderela e a fada.

 

O príncipe e a Cinderela estudaram no Instituto de educação dos surdos de Paris,com o Abade de L’ Epeé, isto é, há uma alusão à primeira escola de surdos no mundo, fundada em 1778, que é relembrada por ser conhecida como a primeira comunidade de surdos mundial, com referência ao surgimento de língua de sinais. L’ Epeé é o religioso que se dedica a defender a língua de sinais e o ensino do francês escrito, o germe das experiências bilíngues que hoje defendemos. (MONTANHER et al., 2010).

 

Com a utilização de materiais e formação pedagógica específica e assertiva dos professores e intérpretes é possível obter resultados que irão promover a inclusão da Literatura Surda nas escolas, valorizando seus aspectos e integrando uma cultura diferente. Torna-se relevante a sociedade ouvinte compreender que o indivíduo surdo é capaz de sonhar, de sentir, de criar e de compreender o mundo mesmo que seja de forma diferente que é através da leitura visual.

 

 

REFERÊNCIA

 

BERNARDINELLI, L.L; CARVALHO, V.M.G. A importância da Literatura Infantil. III Encontro Científico e Simpósio de Educação Uniram salesiano, Outubro, 2011.

 

HESSEL, C; ROSA, F; KARNOPP, L.B. Cinderela Surda. Canoas, ULBRA, 2003.

 

KARNOPP, L.B. Literatura Surda. Vol. 7, no 2, p.98-109, Campinas, 2006.

 

MONTANHER, H; JESUS, J.D. FERNANDES, S. Letramento em Libras. Curitiba: IESDE Brasil S.A. 2010. (Volume II – livro do Professor).

 

NANTES, J.M. A Linguística e a Língua Brasileira de Sinais I. São Paulo, p.141, 2010.

 

ROSA, F.S. Literatura Surda: Criação e Produção de Imagens e textos. Vol. 7, no 2, p.58-64, Campinas, 2006.

 

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