Ouvindo minha própria voz: o sussurrofone como recurso pedagógico para o desenvolvimento da leitura e da consciência fonológica
Ana Paula da Fonseca Silva
Aparecida Damazio de Oliveira
Kézia dos Santos
RESUMO
Este artigo apresenta uma experiência pedagógica desenvolvida por meio do projeto “Ouvindo Minha Própria Voz”, realizado com estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental e com alunos da Sala de Recomposição da Aprendizagem da EMEB Professora Alcídia Divanir Simões Sales Pavan, localizada no município de Sinop-MT. O projeto teve como objetivo promover o desenvolvimento da consciência fonológica, da oralidade, da leitura fluente, da compreensão textual e da autonomia leitora, utilizando o Sussurrofone e o Alfabeto das Onomatopeias como recursos pedagógicos. A proposta surgiu a partir da observação de dificuldades apresentadas por estudantes no processo de alfabetização e no desenvolvimento da leitura, especialmente quanto à percepção dos sons da fala, à relação entre fonemas e grafemas, à fluência e à insegurança para realizar leituras oralmente. A metodologia adotada possui abordagem qualitativa, fundamentada na observação do cotidiano escolar, na intervenção pedagógica e no acompanhamento contínuo dos estudantes. Foram desenvolvidas atividades de leitura individual e coletiva, jogos fonológicos, identificação de sons, formação e segmentação de palavras, rimas, aliterações, leitura compartilhada, reconto, dramatização e produção oral e escrita. O uso do Sussurrofone possibilitou aos estudantes ouvir a própria voz durante a leitura, favorecendo a percepção sonora, a autocorreção e a confiança. As experiências realizadas indicaram maior participação, interesse e envolvimento dos alunos nas atividades de leitura, evidenciando o potencial de recursos lúdicos e acessíveis para favorecer práticas pedagógicas inclusivas e significativas.
Palavras-chave: Alfabetização. Consciência fonológica. Leitura. Sussurrofone. Educação inclusiva.
1 INTRODUÇÃO
A alfabetização constitui uma etapa essencial da escolarização, pois possibilita ao estudante apropriar-se do sistema de escrita e ampliar suas possibilidades de participação nas diferentes práticas sociais de leitura e escrita. Entretanto, o processo de aprendizagem não acontece de maneira uniforme entre os estudantes, sendo necessário considerar diferentes ritmos, necessidades e formas de aprender.
No cotidiano escolar, especialmente no contexto da recomposição das aprendizagens, são observadas dificuldades relacionadas à leitura, à compreensão textual, à consciência fonológica e à fluência leitora. Alguns estudantes apresentam resistência ou insegurança diante de situações de leitura oral, principalmente quando precisam ler diante dos colegas. Essas dificuldades podem interferir na participação e no desenvolvimento da autonomia leitora.
A Base Nacional Comum Curricular destaca a importância de desenvolver, no processo de alfabetização, conhecimentos relacionados às relações entre os sons da fala e as letras da escrita. O documento ressalta que a apropriação do sistema de escrita alfabética envolve o desenvolvimento da consciência fonológica e das relações grafofônicas (BRASIL, 2018).
Diante dessa realidade, o projeto “Ouvindo Minha Própria Voz” foi elaborado como uma proposta pedagógica destinada a utilizar recursos simples e lúdicos para auxiliar os estudantes em seu processo de aprendizagem. O Sussurrofone foi escolhido por possibilitar que o aluno escute a própria voz enquanto realiza a leitura, criando uma experiência de escuta individual que pode favorecer a percepção dos sons, da pronúncia, do ritmo e da entonação.
Como recurso complementar, foi utilizado o Alfabeto das Onomatopeias, possibilitando explorar sons presentes no cotidiano, relacionando imagens, sons, letras e palavras. Dessa forma, as atividades foram planejadas para favorecer a aprendizagem por meio de experiências que envolvem escuta, fala, leitura, escrita e interação.
O projeto foi desenvolvido tanto na Sala Regular quanto na Sala de Recomposição da Aprendizagem, buscando respeitar as especificidades dos estudantes e proporcionar diferentes oportunidades de participação.
O objetivo deste artigo é apresentar a experiência desenvolvida por meio do projeto “Ouvindo Minha Própria Voz”, analisando as contribuições do uso do Sussurrofone e do Alfabeto das Onomatopeias para o desenvolvimento da consciência fonológica, da leitura, da oralidade, da autonomia e da confiança dos estudantes.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Alfabetização e consciência fonológica
A alfabetização envolve a apropriação do sistema de escrita alfabética e o desenvolvimento de conhecimentos que permitem ao estudante compreender as relações estabelecidas entre a linguagem oral e a linguagem escrita.
Nesse processo, a consciência fonológica assume papel relevante, uma vez que permite ao estudante perceber e manipular diferentes unidades sonoras da língua, como palavras, sílabas, rimas e fonemas.
A BNCC destaca que o processo de alfabetização envolve a compreensão das relações entre fonemas e grafemas, bem como a percepção dos sons da fala e sua organização em segmentos sonoros maiores, como sílabas e palavras (BRASIL, 2018).
As atividades desenvolvidas no projeto foram organizadas considerando essa perspectiva. A exploração de sons, rimas, aliterações, segmentação silábica e associação entre sons e letras foi utilizada como estratégia para ampliar a percepção dos estudantes sobre a estrutura sonora das palavras.
Soares (2003) compreende alfabetização e letramento como processos que precisam estar articulados. Nessa perspectiva, aprender a ler e escrever não significa apenas dominar o código escrito, mas também participar de práticas sociais de leitura e escrita.
Assim, as atividades propostas buscaram ultrapassar o exercício mecânico da leitura, utilizando textos, histórias, parlendas, poemas, brincadeiras e situações de comunicação significativas.
2.2 A leitura como prática de aprendizagem
A leitura constitui uma prática fundamental para o desenvolvimento escolar e social dos estudantes. Entretanto, para que o aluno desenvolva autonomia leitora, é necessário que tenha contato frequente com diferentes textos e situações de leitura.
O trabalho com leitura precisa considerar aspectos como fluência, compreensão, entonação e construção de sentidos. Dessa forma, as práticas de leitura realizadas no projeto foram organizadas de maneira progressiva, considerando o nível de aprendizagem dos estudantes.
O Sussurrofone foi utilizado como recurso de mediação. Ao realizar a leitura e ouvir sua própria voz, o estudante pode perceber aspectos de sua produção oral e realizar novas tentativas.
Esse processo favorece uma postura mais ativa diante da aprendizagem, pois o aluno passa a participar da identificação e correção de suas próprias dificuldades.
2.3 Educação inclusiva e diferentes formas de aprender
A educação inclusiva pressupõe a construção de práticas pedagógicas que reconheçam a diversidade dos estudantes e possibilitem sua participação no processo educativo.
Nesse contexto, a utilização de diferentes recursos e estratégias pode contribuir para ampliar as possibilidades de aprendizagem. O professor, enquanto mediador, precisa observar as necessidades dos alunos e organizar situações que favoreçam sua participação.
Vygotsky (1998) destaca a importância das interações sociais e da mediação no desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. A aprendizagem, nessa perspectiva, não ocorre de maneira isolada, mas é construída nas relações estabelecidas entre o sujeito, o outro e o ambiente.
O projeto “Ouvindo Minha Própria Voz” aproxima-se dessa concepção ao propor situações nas quais os estudantes podem aprender por meio da interação, da experimentação, da escuta e da colaboração.
A utilização do Sussurrofone também permite diminuir a exposição do estudante durante algumas atividades de leitura, criando uma possibilidade de participação que pode ser especialmente relevante para alunos que apresentam insegurança ou receio de errar.
3 METODOLOGIA
O projeto “Ouvindo Minha Própria Voz” foi desenvolvido na EMEB Professora Alcídia Divanir Simões Sales Pavan, localizada no município de Sinop-MT, envolvendo estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental e alunos atendidos na Sala de Recomposição da Aprendizagem.
A proposta foi desenvolvida durante os quatro bimestres letivos, articulando principalmente as áreas de Língua Portuguesa e Arte.
A pesquisa caracteriza-se por uma abordagem qualitativa, desenvolvida a partir da observação do cotidiano escolar, identificação das necessidades de aprendizagem, planejamento das intervenções pedagógicas, realização das atividades e acompanhamento dos avanços apresentados pelos estudantes.
O principal recurso utilizado foi o Sussurrofone, confeccionado para possibilitar que o estudante escutasse sua própria voz durante as práticas de leitura. O recurso foi utilizado em atividades individuais, coletivas e em pequenos grupos.
Também foi utilizado o Alfabeto das Onomatopeias, elaborado como recurso para exploração dos sons e sua relação com letras, imagens e palavras.
As atividades foram organizadas de acordo com os diferentes níveis de aprendizagem dos estudantes.
Foram desenvolvidas propostas envolvendo:
· identificação de sons;
· relação entre fonemas e grafemas;
· identificação de sons iniciais, mediais e finais;
· segmentação silábica;
· formação de palavras;
· rimas;
· aliterações;
· jogos fonológicos;
· leitura de palavras;
· leitura de frases;
· leitura de pequenos textos;
· leitura compartilhada;
· leitura dramatizada;
· reconto oral;
· interpretação textual;
· produção oral;
· produção escrita.
Na Sala de Recomposição da Aprendizagem, as atividades foram adaptadas e realizadas de maneira mais individualizada, considerando as dificuldades específicas de cada estudante.
Foram utilizadas estratégias como leitura guiada, repetição, atividades de curta duração, manipulação de letras e sílabas, escuta da própria leitura e autocorreção.
A avaliação ocorreu de maneira contínua, considerando os avanços individuais apresentados pelos estudantes ao longo do desenvolvimento do projeto.
4 DESENVOLVIMENTO DO PROJETO
O projeto foi desenvolvido a partir da proposta denominada “Missão dos Sons e das Palavras”, organizada em etapas progressivas.
4.1 Primeira etapa: descobrindo sons e letras
Na primeira etapa, os estudantes foram apresentados ao Alfabeto das Onomatopeias.
Foram utilizadas imagens de animais, objetos e situações que produzem sons conhecidos pelas crianças. Os estudantes eram convidados a identificar os sons, reproduzi-los oralmente e relacioná-los às letras correspondentes.
Por exemplo, foram exploradas palavras como “miau”, “bum”, “piu-piu” e “tic-tac”.
A atividade permitiu trabalhar escuta, oralidade, identificação de sons e relação entre linguagem oral e escrita.
4.2 Segunda etapa: brincando com as sílabas
Na segunda etapa, foram desenvolvidas atividades voltadas à percepção da estrutura das palavras.
Os estudantes participaram de jogos de formação de palavras, separação silábica, bingo fonológico, dominó de sílabas, caça-rimas e atividades de identificação de aliterações.
Essas propostas foram realizadas de maneira lúdica, possibilitando que os estudantes manipulassem sons, sílabas e letras.
4.3 Terceira etapa: minha voz lê
A terceira etapa concentrou-se na leitura.
Os estudantes utilizaram o Sussurrofone para realizar leituras de palavras, frases e pequenos textos.
Durante as atividades, foram trabalhados ritmo, fluência, pronúncia, pausas e entonação.
Um dos objetivos foi possibilitar que os próprios estudantes percebessem sua leitura e realizassem novas tentativas quando identificassem alguma dificuldade.
4.4 Quarta etapa: contando e recontando
Na última etapa, foram desenvolvidas atividades de reconto, dramatização e produção oral.
Após a leitura de histórias, os estudantes eram convidados a recontar os acontecimentos, identificar personagens, ambientes e acontecimentos principais.
Também foram realizadas dramatizações simples, utilizando diferentes formas de expressão corporal e oral.
Essa etapa possibilitou integrar leitura, oralidade, criatividade e interação.
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A observação realizada durante o desenvolvimento do projeto permitiu identificar mudanças positivas na participação dos estudantes nas atividades propostas.
Inicialmente, alguns alunos apresentavam resistência ou insegurança em situações de leitura oral. Com a utilização do Sussurrofone, observou-se maior curiosidade e disposição para participar das atividades.
O recurso tornou a leitura mais atrativa e possibilitou que os estudantes tivessem uma experiência diferenciada com sua própria voz.
Também foram observados avanços relacionados à percepção sonora das palavras. As atividades com o Alfabeto das Onomatopeias possibilitaram explorar sons de maneira concreta e divertida, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades relacionadas à consciência fonológica.
Outro aspecto observado foi a possibilidade de autocorreção. Ao ouvir a própria voz, os estudantes conseguiam perceber algumas dificuldades e repetir a leitura, buscando melhorar sua produção.
Na Sala de Recomposição da Aprendizagem, o uso do recurso mostrou-se relevante por possibilitar atividades individualizadas e adequadas ao nível de cada aluno.
A participação dos estudantes também foi favorecida pelas características lúdicas das propostas. Os jogos, as onomatopeias, as histórias e as dramatizações contribuíram para tornar o ambiente de aprendizagem mais dinâmico.
Embora os resultados observados sejam predominantemente qualitativos, os registros realizados durante as atividades indicaram maior envolvimento dos estudantes e maior disposição para participar das práticas de leitura.
Esses resultados reforçam a importância de utilizar estratégias diversificadas no processo de alfabetização, especialmente em contextos nos quais os estudantes apresentam diferentes níveis de aprendizagem.
6 CONTRIBUIÇÕES DO PROJETO PARA A EDUCAÇÃO INCLUSIVA
A proposta desenvolvida apresenta contribuições para a educação inclusiva ao considerar que os estudantes possuem diferentes ritmos, necessidades e formas de aprender.
O projeto não utilizou uma única estratégia para todos os alunos. As atividades foram adaptadas de acordo com o nível de desenvolvimento e as necessidades observadas.
Na Sala Regular, foram realizadas atividades coletivas, em duplas e individuais. Na Sala de Recomposição da Aprendizagem, foram priorizadas intervenções mais direcionadas e individualizadas.
O Sussurrofone também possibilitou uma forma menos intimidatória de realizar a leitura. O estudante podia ouvir sua voz diretamente, sem depender exclusivamente da exposição diante do grupo.
Essa característica favoreceu um ambiente de maior segurança para a realização das atividades.
A proposta também valorizou o erro como parte do processo de aprendizagem. Em vez de considerar o erro como fracasso, as atividades possibilitaram que o estudante realizasse novas tentativas.
Dessa forma, o projeto contribuiu para desenvolver não apenas habilidades linguísticas, mas também aspectos relacionados à autonomia, participação e confiança.
7 AVALIAÇÃO
A avaliação foi realizada de maneira contínua, diagnóstica e formativa.
Foram considerados os seguintes aspectos:
a) participação nas atividades;
b) reconhecimento de letras e sons;
c) desenvolvimento da consciência fonológica;
d) capacidade de identificar e manipular sílabas e sons;
e) leitura de palavras e frases;
f) fluência leitora;
g) compreensão textual;
h) oralidade;
i) capacidade de reconto;
j) autonomia;
k) interesse e envolvimento;
l) segurança durante as práticas de leitura.
Os registros realizados pelo professor foram utilizados para acompanhar o desenvolvimento individual dos estudantes e planejar novas intervenções pedagógicas.
A avaliação, portanto, não esteve centrada apenas no produto final, mas no percurso de aprendizagem de cada estudante.
8 CULMINÂNCIA
Como culminância do projeto, foi organizada a “Mostra da Leitura e dos Sons”, integrando os estudantes da Sala Regular e da Sala de Recomposição da Aprendizagem.
A mostra foi organizada em diferentes momentos.
Na estação “Escute Minha Voz”, os estudantes realizaram leituras utilizando o Sussurrofone.
Na estação “Sons que Falam”, foram apresentadas atividades envolvendo o Alfabeto das Onomatopeias, associação entre sons e letras e dramatizações sonoras.
Também foram realizados jogos como bingo dos sons, caça-rimas, trilha silábica e formação de palavras.
No “Cantinho do Reconto”, os estudantes apresentaram histórias utilizando fantoches, ilustrações e dramatizações.
Também foram expostos registros das atividades realizadas ao longo do projeto, permitindo visualizar o processo de desenvolvimento dos estudantes.
A culminância teve como finalidade valorizar os avanços individuais e coletivos, possibilitando aos alunos compartilhar suas aprendizagens.
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O projeto “Ouvindo Minha Própria Voz” possibilitou uma experiência pedagógica significativa no trabalho com alfabetização, leitura e consciência fonológica.
A utilização do Sussurrofone mostrou-se uma estratégia simples, acessível e lúdica para favorecer a escuta da própria voz durante a leitura. A possibilidade de ouvir a própria produção oral contribuiu para momentos de percepção, repetição e autocorreção.
O Alfabeto das Onomatopeias também ampliou as possibilidades de exploração dos sons, aproximando os estudantes de atividades de consciência fonológica de maneira divertida e contextualizada.
Durante o desenvolvimento do projeto, foram observados maior interesse, participação e envolvimento dos estudantes nas atividades propostas. Também foram percebidos avanços na disposição para realizar leituras oralmente e na autonomia durante algumas situações de aprendizagem.
No contexto da Sala de Recomposição da Aprendizagem, o projeto possibilitou a realização de intervenções diferenciadas, respeitando os ritmos e as necessidades individuais.
A experiência reforça a importância de práticas pedagógicas que valorizem a diversidade e ofereçam diferentes caminhos para que os estudantes aprendam.
Conclui-se que o Sussurfone, associado a estratégias de consciência fonológica e leitura, pode constituir um recurso pedagógico relevante para tornar as práticas de alfabetização mais participativas, acolhedoras e significativas.
Mais do que ouvir a própria voz, o estudante é incentivado a reconhecer que sua voz tem lugar no processo de aprendizagem. Nesse sentido, “ouvir a própria voz” representa também uma possibilidade de fortalecer a confiança, a autonomia e o sentimento de pertencimento no espaço escolar.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018.
SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. São Paulo: Contexto, 2003.
VYGOTSKY, Lev Semionovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.


