Mediar para educar: ações diante das práticas de bullying na Educação Infantil

Daniela Cristina de Godoy Rangel

Gustavo Henrique Barbieri Bueno

Ivana Stival

Rodolfo Faita Dias

Thalita Finisguerra Garlizoni Marques Barcellos

 

DOI: 10.5281/zenodo.22400306

 

 

RESUMO

Este artigo analisa o papel da mediação docente frente às manifestações de bullying e comportamentos agressivos na Educação Infantil, compreendendo essa etapa como um período crucial para o desenvolvimento da sociabilidade e da empatia. O objetivo do estudo é identificar e discutir as ações pedagógicas e de gestão escolar que contribuem para a prevenção e mitigação de conflitos entre crianças pequenas. Por meio de uma pesquisa de abordagem qualitativa com base em revisão bibliográfica e documental, o trabalho examina como o acolhimento, a escuta ativa e o diálogo direcionado podem transformar episódios de hostilidade em oportunidades de aprendizado social. Os resultados indicam que, embora o termo "bullying" seja frequentemente associado a etapas escolares posteriores, comportamentos de exclusão, intimidação e agressão física ou verbal já se manifestam na primeira infância e exigem intervenção imediata. Conclui-se que uma mediação assertiva, aliada à parceria contínua com as famílias e à implementação de projetos voltados à educação socioemocional, é indispensável para a construção de um ambiente escolar seguro, inclusivo e promotor de uma cultura de paz.

 

Palavras-chave: Mediação Pedagógica; Bullying; Educação Infantil; Resolução de Conflitos; Desenvolvimento Socioemocional.

 

 

INTRODUÇÃO

 

Iniciamos a partir da definição de bullying como sendo “um comportamento cruel intrínseco nas relações interpessoais, em que os mais fortes convertem os mais frágeis em objeto de diversão e prazer, através de ‘brincadeiras’ que disfarçam o propósito de maltratar e intimidar” (FANTE, 2005, p. 29).

Não é um fenômeno novo dentro da escola, mas de uns tempos para cá, vem se apresentando não somente entre alunos maiores, como também entre os menores; o que tem sido sinal de preocupação para os pais e de intervenção dos profissionais da Educação Infantil.

Os alunos menores também acabam tendo a influência do meio e dos outros alunos para a construção de relações negativas que geram preconceitos, agressões e desrespeitos para com o próximo que deixam marcas ao longo da escolaridade.

Neste sentido, a reflexão ora desenvolvida tem por objetivo levantar questões relevantes a respeito do bullying fenômeno que pode vir a ocorrer desde a educação infantil.

É de conhecimento de todos que o bullying vem se tornando cada vez mais comum dentro e fora da escola e, quando se trata dos pequenos há uma necessidade urgente de se adequar práticas e atividades escolares que venham extinguir tal fenômeno.

Esse artigo busca refletir sobre o conhecimento acerca do bullying, mas especificamente sobre o bullying na Educação Infantil. Buscamos entender como pode ocorrer e de que forma a escola pode colaborar para seu combate.

As sessões a seguir mostram, com base em pesquisa bibliográfica realizada sobre o tema, questões relacionadas ao bullying entre alunos da educação infantil. 

 

 

BULLYING: O QUE É E QUAL MOMENTO SE INICIA

 

É possível que qualquer pessoa, quando criança, já possa ter se sentido constrangida ou perseguida na escola, seja por ter ganhado um apelido, ou por não estar fisicamente dentro dos padrões ideais impostos pela sociedade, ou mesmo por apresentar um jeito específico de ser, ou até mesmo por pertencer a um nível social visto como “inferior”.

O modo como lidamos com as diferenças é um dos principais elementos para entendermos a existência do fenômeno bullying. Desse modo, pode-se dizer que o bullying é um comportamento que já existe há muito tempo, sendo uma relação prejudicial para todos os envolvidos, mas com particular ênfase para a vítima que sofre as agressões (físicas e psicológicas).

Ana Beatriz Barbosa Silva (2010, p. 111) nos ensina sobre esse fenômeno:

 

O bullying é um fenômeno tão antigo quanto a própria instituição denominada escola. No entanto, o tema só passou a ser objeto de estudo científico no início dos anos 70. Tudo começou na Suécia, onde grande parte da sociedade demonstrou preocupação com a violência entre estudantes e suas consequências no âmbito escolar. Em pouco tempo, a mesma onda de interesse contagiou todos os demais países escandinavos. Um exemplo que lembra essas definições é a criança negra, gordinha, surda, cega, estrangeira, ou que tem partes do corpo maiores que o padrão pré-estabelecido, como um nariz maior, uma orelha que chame mais a atenção, ou pelo fato de ser pobre. Estes passam por brincadeiras covardes, onde o mais fortes abusam dos mais fracos, uma vez que a maioria dessas pessoas é mais calada e se isola do meio social, fazendo com que sofram nas relações estabelecidas em sala de aula. Os apelidos pejorativos ferem a integridade dessas pessoas enquanto seres humanos. 

 

Podemos entender haver também uma relação de poder mediada pela opressão dos mais “fracos” (aqueles que estão em desvantagem em termos de poder) pelos mais “fortes” (geralmente aqueles que apresentam alguma característica valorizada pelos demais).

Assim, o bullying fere a alma da vítima, o que o torna um ato de covardia que ocorre de forma repetida contra uma criança ou até mesmo adultos.

Segundo Silva (2010) a palavra bullying ainda é pouco conhecida das pessoas, em geral, sendo esta de origem inglesa e sem tradução ainda no Brasil. Tem como significado qualificar comportamentos violentos que ocorrem dentro e fora do âmbito escolar. Dentre esses comportamentos encontram-se agressões (físicas e psicológicas), assédios e ações desrespeitosas, que são realizados de maneira recorrente e intencional por parte dos que agridem.

Desta forma, se faz fundamental explicar que as atitudes de um ou mais agressores contra estudantes, ou pessoas, em geral, não apresentam motivos justificáveis. Ou seja, os mais fortes acabam utilizando dos mais frágeis para se divertir e se satisfazer, com a intenção de maltratar, humilhar e colocar medo nestas pessoas.

A mesma autora alerta para o fato dessas atitudes serem sistemáticas: 

 

Algumas atitudes podem se configurar em forma diretas ou indiretas de praticar o bullying. Porém, dificilmente a vítima recebe apenas um tipo de maus-tratos; normalmente, os comportamentos desrespeitosos dos bullies costumam vir em bando. Essa versatilidade de atitudes maldosas contribui não somente para a exclusão social da vítima, como também para muitos casos de evasão escolar, e pode se expressar das mais variadas formas (SILVA, 2010, p. 22).

 

 

Identificar a ocorrência desse fenômeno nem sempre é algo fácil já que a vítima tende a não dizer que está sofrendo bullying, até mesmo por ser ameaçada.

Camargo (2009, p. 45) afirma que o “bullying é manifestado em caráter sigiloso. As agressões ocorrem de forma secreta, escondida daqueles que poderiam intermediar a situação”.

Nesse sentido a família, além dos professores, por estarem em contato mais freqüente com as vítimas devem estar atentas às mudanças de comportamentos do(a)s filho(a)s e estudantes.

Algumas observações podem ser feitas para se saber se a criança está sendo vítima de bullying. Características como, por exemplo, contusões freqüentes, perda de dinheiro com frequência, roupas rasgadas, atitude quieta e/ou retraída, agressividade, medo de sair de casa, mudança em relação à dedicação aos estudos e, até mesmo insônia.  

No dicionário, a palavra bullying aparece com o significado de um conjunto de atitudes violentas, sejam elas físicas ou psicológicas, e de fundo repetitivo, que é praticado por um bully (agressor) contra vítimas que são consideradas indefesas, e que se encontram em situações vulneráveis.

Em se tratando do bullying no âmbito escolar Fante (2005, p. 28) ressalta que:  

 

Por definição universal bullying é um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado por um ou mais alunos contra outro(s), causando dor, angústia e sofrimento. Insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações que magoam profundamente, acusações injustas, atuações de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de outros alunos levando-os à exclusão além de danos físicos, morais e matérias, são algumas das manifestações do comportamento bullying. 

 

O bullying é um fenômeno que tem se expandido cada vez mais que compromete o desenvolvimento de quem é agredido, devido às suas consequências psicológicas, emocionais, sociais e cognitivas que, podem ir do período de alfabetização até a faculdade. Mas também apresenta consequências sociais para os agressores como destaca Fante:

 

Admite-se que os que praticam o bullying têm grande probabilidade de se tornarem adultos com comportamentos antissociais e/ou violentos, podendo vir a adotar, inclusive, atitudes delinquentes e criminosas (FANTE, 2002, p.81).

 

Daí a necessidade do acompanhamento atento realizado pelos responsáveis e/ou professores.  

 

Os agressores possuem em sua personalidade traços de desrespeito e maldade e, na maioria das vezes, essas características estão associadas a um perigoso poder de liderança que, em geral, é obtido ou legitimado através da força física ou de intenso assédio psicológico. O agressor pode agir sozinho ou em grupo. Quando ele está acompanhado de seus seguidores, seu poder de destruição ganha reforço exponencial, o que amplia seu território de ação e sua capacidade de produzir mais e novas vítimas (SILVA, 2010, p. 43).

 

Como destaca Zagury (2015), o homem é um ser social que não cresce isolado, mas sob a influência dos demais e em constante interação com eles. O papel da educação também é o de regular e configurar moralmente as gerações mais jovens, dando-lhes conteúdo moral e espiritual.

Assim, pode-se dizer que as relações sociais são inevitáveis para o ser humano. Mesmo na infância essas relações podem ser marcadas por disputas e/ou afirmação de poder. Nesse contexto o bullying pode se manifestar de forma real. Brincadeiras e ofensas podem se confundir e, aos poucos, tomarem uma dimensão preocupante, pois prejudicial.

 

A criança é um ser social que nasce com capacidades afetivas, emocionais e cognitivas. Tem desejo de estar próxima às pessoas e é capaz de interagir e aprender com elas de forma que possa compreender e influenciar seu ambiente. Ampliando suas relações sociais, interações e formas de comunicação, as crianças sentem-se cada vez mais seguras para se expressar, podendo aprender, nas trocas sociais, com diferentes crianças e adultos cujas percepções e compreensões da realidade também são diversas. Para se desenvolver, portanto, as crianças precisam aprender com os outros, por meio dos vínculos que estabelece. Se as aprendizagens acontecem na interação com as outras pessoas, sejam elas adultos ou crianças, elas também dependem dos recursos de cada criança. Dentre os recursos que as crianças utilizam, destacam-se a imitação, o faz-de-conta, a oposição, a linguagem e a apropriação da imagem corporal (BRASIL, 1998b, p. 21)

 

O papel da escola é importante por ser essa instituição aquela que acompanhará, durante muito tempo, a criança. Nesse sentido, o “trabalho educativo pode, assim, criar condições para as crianças conhecerem, descobrirem e ressignificarem novos sentimentos, valores, ideias, costumes e papéis sociais” (BRASIL, 1998b, p.11).

Toda construção social estabelecida, seja na escola ou fora dela, tende a gerar conflitos e a desenvolver certos pensamentos com relação ao outro, que nem sempre são considerados próprios para a convivência em sociedade, mas que podem vir a ser entendidos se trabalhados de forma dinâmica e diferenciada, afinal cada pessoa é única e isto por si só já a torna diferente das demais.

Como afirma Silva (2010), se pararmos para pensar, todos nós já fomos vítimas de um bully em algum momento de nossa vida. Os “valentões” não estão somente nas escolas, eles podem ser encontrados em qualquer segmento da sociedade. Os bullies juvenis também crescem e serão encontrados em versões adultas.

Daí a importância de se intervir juntos às crianças desde a fase infantil, onde elas estabelecem o primeiro contato social com os demais alunos e, partindo disso, pode-se interferir e construir perspectivas positivas, que não levem à prática do bullying no futuro ou qualquer outra prática que seja prejudicial à sociedade.

Como procuramos demonstrar o bullying pode vir a se manifestar desde a infância, no ambiente escolar, pois nela também se encontram alunos com tendências maldosas, no sentido de machucar, maltratar e zombar de outros alunos, seja por qual motivo for. Assim, na Educação Infantil também são necessárias observações importantes neste sentido, como pode ser visto a seguir.

 

 

ASPECTOS DO BULLYING NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 

A criança que morde ou empurra algum colega, tem como pressuposto mostrar que sua defesa é realizada desta maneira, mesmo porque o que está em jogo neste caso é o possível objeto desejado, pois ela não consegue expressar de forma correta o que ela quer. Diante desta situação o adulto não pode somente observar, ele deve intervir quando preciso, explicando que esta ação é errada deve mostrar o correto.

 

As crianças possuem uma natureza singular, que as caracteriza como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. Nas interações que estabelecem desde cedo com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que as circunda, as crianças revelam seu esforço para compreender o mundo em que vivem, as relações contraditórias que presenciam e, por meio das brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas e seus anseios e desejos. No processo de construção do conhecimento, as crianças se utilizam das mais diferentes linguagens e exercem a capacidade que possuem de terem ideias e hipóteses originais sobre aquilo que buscam desvendar. Nessa perspectiva as crianças constroem o conhecimento a partir das interações que estabelecem com as outras pessoas e com o meio em que vivem. O conhecimento não se constitui em cópia da realidade, mas sim, fruto de um intenso trabalho de criação, significação e ressignificação (BRASIL, 1998a, p.21-22).

 

A observação das interações infantis sugere que são diversos os temas de oposição, os quais tendem a mudar com a idade, são exemplos: disputa por um mesmo brinquedo ou por um lugar específico, desentendimento por causa de uma ideia ou sugestão, etc. É importante entender que esses momentos desempenham um papel importante na diferenciação e afirmação do “eu” da criança (BRASIL, 1998b).

Apesar disso, Silva (2010, p. 13) afirma que nem todas as brincadeiras são puras e inocentes:

 

As brincadeiras acontecem de forma natural e espontânea entre os alunos. Eles brincam, ‘Zoam’, colocam apelidos uns nos outros, tiram ‘sarros’ dos demais e de si mesmo, dão muitas risadas e se divertem. No entanto, quando as ‘brincadeiras’ são realizadas repletas de ‘segundas intenções’ e de perversidade, elas se tornam verdadeiros atos de violência que ultrapassam os limites suportáveis de qualquer um. 

 

É na infância, com mais ou menos três anos de idade, que a criança passa a apresentar um vocabulário mais desenvolvido, onde começa a descobrir o prazer em brincar e em se comunicar com as outras crianças. É nesta hora que aparece o egocentrismo, fazendo com que desapareça e a socialização passa a ser iniciada com mais segurança. Já aos quatro, cinco e seis anos podem ser notados comportamentos de discriminação e, que podem ser realizados de maneira repetida.

A instituição de educação infantil é um dos espaços de inserção das crianças nas relações éticas e morais que permeiam a sociedade na qual estão inseridas (BRASIL, 1998b, p.11).

Como a brincadeira se faz muito presente na Educação Infantil, é possível perceber manifestações voltadas para o bullying durante estas atividades, já que as crianças reproduzem aquilo que veem e que sentem.

 

A brincadeira favorece a autoestima das crianças, auxiliando-as a superar progressivamente suas aquisições de forma criativa. Brincar contribui, assim, para a interiorização de determinados modelos de adulto, no âmbito de grupos sociais diversos. Essas significações atribuídas ao brincar transformam-no em um espaço singular de constituição infantil (BRASIL, 1998a, p.27).

 

Nas escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, é preciso que os professores fiquem atentos aos alunos, quando estiverem realizando atividades ao ar livre e fora da sala de aula para ter certeza de que nenhuma criança está sendo excluída ou humilhada. Caso os professores ou a direção da escola passe a observar algum aluno que esteja praticando ações ofensivas ou preconceituosas será preciso chamá-lo para conversar além de comunicar seus responsáveis.

Ainda segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1998a), pela oportunidade de vivenciar brincadeiras imaginativas e criadas por elas mesmas, as crianças podem acionar seus pensamentos para a resolução de problemas que lhe são importantes e significativos. Propiciando a brincadeira, portanto, cria-se um espaço no qual as crianças podem experimentar o mundo e internalizar uma compreensão particular sobre as pessoas, os sentimentos e os diversos conhecimentos.

Camargo (2009) afirma que a criança somente a partir de cinco anos poderá ser capaz de colocar apelidos, xingar, humilhar com intenção, pois é a partir dessa fase que elas começam a compreender determinadas situações e se socializar, passando a distinguir o certo do errado, e o bom do ruim.

Assim, segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998b), o ingresso na instituição de educação infantil pode alargar o universo inicial das crianças, ao conviverem com outras crianças e com adultos de origens e hábitos culturais diversos, de aprender novas brincadeiras, de adquirir conhecimentos sobre realidades distantes da sua.

Dependendo da maneira como é tratada a questão da diversidade, a instituição pode auxiliar as crianças a valorizarem suas características étnicas e culturais, ou pelo contrário, favorecer a discriminação quando é conivente com preconceitos.

 

A criança que, desde cedo, tem contato com outras é sabidamente mais sociável, menos egocêntrica e mais tolerante. Viver em grupo é altamente positivo. O ser humano é gregário por natureza e – especialmente a criança – adora conviver e se relacionar com gente do seu tamanho (ZAGURY, 2015, p. 33).

 

Essa ideia de estar junto com os outros é muito importante, mas precisa ser acompanhada, pelo professor no dia a dia na Educação Infantil, já que, como já foi dito, os pequenos também podem desenvolver estruturas cognitivas que são representadas por meio de ações que não condizem com a fantasia e à imaginação das crianças.

Segundo Silva (2010), cada um de nós possui uma personalidade, e são os traços dela que definem, em grande parte, nossos interesses, gostos, nossas aversões, reações perante os acontecimentos da vida e, sobretudo, o modo como nos relacionamos com as demais pessoas.

É preciso estar atento para evitar que a rotina da Educação Infantil se torne um espaço para que alunos perversos prejudiquem o desenvolvimento de outras crianças, que muitas vezes, nem têm certeza do que estão aprendendo e por isso acabam por repetirem gestos e comportamentos. Uma estratégia recomendável é desenvolver o aprendizado em grupo.

 

A criação de um clima favorável para o trabalho em grupo possibilita ricos intercâmbios comunicativos de enorme valor social e educativo. Para que a interação grupal cumpra seu papel, é preciso que as crianças aprendam a trabalhar juntas. Para que desenvolvam essa capacidade, é necessário um trabalho intencional e sistemático do professor para organizar as situações de interação considerando a heterogeneidade dos conhecimentos das crianças. Além disso, é importante que o professor escolha as crianças que possam se informar mutuamente, favoreça os intercâmbios (BRASIL, 1998c, p. 149).

 

Sendo assim, é parte do ensino em Educação Infantil considerar as particularidades e cada aluno. A intervenção intencional do(a) educador(a) no sentido de construir grupos a partir da diversidade pode contribuir para desenvolver a capacidade de lidar com as diferenças de maneira positiva. Ação que pode, ainda, desconstruir situações propícias para o início de ações voltadas para o bullying, mas que com a devida intervenção não tendem a ir tão longe.

Como afirma Silva (2010, p. 65):

 

Pais e professores não podem esquecer que, no grupo de colegas e amigos de seus filhos e alunos, existem fortes ‘rivais’ que podem influenciar, de forma positiva ou negativa, toda a sua estrutura emocional. Por essa razão, é preciso ter flexibilidade e humildade para aprender o ‘funcionamento’ desses grupos de indivíduos: como pensam, que linguagem utiliza, que roupas vestem, que músicas ouvem e que ideologias fazem suas cabeças. Somente assim poderemos interferir, objetivamente, nessa engrenagem tão sólida e influente que rege o comportamento de muitas crianças.

 

Mesmo que a influência de determinados alunos comece de maneira sutil na Educação Infantil, esta precisa ser observada a fundo para que este tipo de ação não se estenda durante o ano letivo e, principalmente com crianças que acabaram de chegar, que vieram da creche por exemplo, e que pelo mínimo de discernimento que possuem sabem que podem exercer esse papel de dominar o espaço, junto a outros alunos. É nessa hora que a criatividade do professor precisa ser aflorada e ele de estratégias infantis que venham a resgatar estes alunos.

No que diz respeito ao Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1998c), enquanto documento orientador da Educação Infantil, destaca-se o pensamento como uma das características fundamentais do desenvolvimento infantil nessa etapa. A criança tende a selecionar determinados elementos presentes em cada situação e, a partir deles, elaborar formas próprias de compreender e interpretar a realidade. As hipóteses formuladas pelas crianças e as estratégias utilizadas para solucionar problemas revelam uma organização particular do pensamento, na qual associações e relações são construídas de maneira subjetiva, influenciadas pelas experiências, percepções e aspectos afetivos.

Pautados em todas estas concepções de construção, de conhecimento e de socialização é que professores, pais e orientadores podem evitar situações que determinem o bullying com agente transformador negativo, dentro da Instituição de Educação Infantil, que no caso é a escola, e que pode vir a ter o seu papel valorizado neste processo, como se pode encontrar na sessão seguinte.

 

 

A INTERVENÇÃO DA ESCOLA DIANTE DO BULLYING

 

Para a maioria das pessoas a escola é o local onde passamos a maior parte do tempo e da vida. É nela que se forma também o cidadão, onde se aprende, se ensina e onde se vivencia as diversidades. Por isso é uma instituição que deve ensinar e dar destaque para o respeito entre as “diferenças”, incentivando a construção de um ambiente onde não haja discriminação e violência, e que seja um lugar democrático e aberto às discussões. 

 

Embora as crianças desenvolvam suas capacidades de maneira heterogênea, a educação tem por função criar condições para o desenvolvimento integral de todas as crianças, considerando, também, as possibilidades de aprendizagem que apresentam nas diferentes faixas etárias. Para que isso ocorra, faz-se necessário uma atuação que propicia o desenvolvimento de capacidades envolvendo aquelas de ordem física, afetiva, cognitiva, ética, estética, de relação interpessoal e inserção social (BRASIL, 1998a, p.47).

 

A escola enquanto espaço transformador da sociedade, também tem o seu papel, no que diz respeito à não entrada do bullying nesta, promovendo através de seu corpo docente e funcionários a busca por um espaço sem discriminação ou retalhação de alunos, estejam estes fora dos padrões normais que a sociedade impõe ou não. Afinal, todos têm direito ao estudo deforma clara e participativa.

 

Os alunos vitimados podem sofrer por muito tempo no ambiente escolar, sem que os educadores, funcionários, pais e comunidades percebam o que está acontecendo. Portanto a escola deve ter consciência de que este fenômeno existe e que devem ser tomadas medidas urgentes, para evitar e tratar essas manifestações, as quais são também responsáveis pelo comportamento agressivo existente entre os alunos (FANTE, 2005, p. 190).

 

É fundamental que a comunidade escolar entenda as diferentes formas de manifestação do bullying. Assim poderão identificar e agir quando este for identificado.

As consequências do bullying podem gerar traumas que abalam até a estrutura da família, bem como os aspectos psicológicos destas que podem fazer com que a criança nunca supere e se torne, no futuro, um adulto vitimado e revoltado.

A vítima de bullying na infância pode crescer e levar para sua vida adulta a insegurança, a baixa autoestima os sentimentos negativos e a ansiedade. Muitas crianças de acordo com seus aspectos físicos e desempenho recebem apelidos, tais como: gordinho, vara pau, zarolho, burro, chato, neguinho, etc. Assim, é papel do professor identificar e trabalhar nestes casos, combatendo, desde cede, apelidos e brincadeiras ofensivas. Para tanto o professor deve criar regras, juntamente com os alunos, e trabalhar valores morais e éticos.

 

As instituições educativas têm uma função básica de socialização e, por esse motivo, têm sido sempre um contexto gerador de atitudes. Isso significa dizer que os valores impregnam toda a prática educativa e são aprendidos pelas crianças, ainda que não sejam considerados como conteúdos a serem trabalhados explicitamente, isto é, ainda que não sejam trabalhados de forma consciente e intencional (BRASIL,1998a, p. 51).

 

Em seu livro “Pedagogia da Autonomia Saberes Necessários à Prática Educativa”, Paulo Freire (2008), afirma que para se ensinar é preciso ter humildade e saber escutar. Para isso, o educador deve demonstrar para seus alunos que é responsável e está disposto a mudanças, aceitando as diferenças, dando ao aluno um exemplo a ser seguido e transmitindo confiança, demonstrando que é amigo e que irá ajudá-lo e ouvi-lo, garantindo ao aluno que ele é importante e considerado. 

Pereira (2002, p. 26) citando as pesquisas de Olweus (1978), menciona que as crianças vítimas de bullying possuem dificuldades para se autodefenderem e que, normalmente, são ansiosas, têm medo e falta de confiança, e ainda, na maioria das vezes, se isolam por não conseguirem se socializar. Como se observou nas pesquisas, estas são, geralmente, as características das pessoas que sofrem o bullying.

Infelizmente muitas escolas, principalmente de Educação Infantil, ainda acreditam que o bullying faz parte das  brincadeiras  que acontecem todos os dias no ambiente escolar, quando na verdade estas brincadeiras de fato ocorrem quando todos os sujeitos estão envolvidos nela e estão inseridos e se divertindo; o que não ocorre a partir do momento em que uma única criança se sinta incomodada ou deseje parar de brincar, pois se o que a incomoda passa a se repetir por várias vezes, isto deixa de ser uma brincadeira e torna-se um ato de bullying. 

Os educadores e todos aqueles envolvidos nas instituições de ensino precisam se comprometerem e estarem capacitados para que, juntos possam proporcionar um ambiente escolar livre do bullying (FANTE, 2005). 

Assim, para combater e prevenir o bullying os professores devem conhecer o fenômeno, suas características e consequências e se comprometerem em agir frente ao fenômeno. Camargo (2009) foca na importância de garantir meios para se combater este tipo de violência, que se confunde com ações do dia a dia nas escolas, o que não permite a visualização do bullying como uma ação maléfica.

Segundo Camargo (2009, p. 26):

 

Nem todas as brigas são consideradas bullying. Observar as características das agressões torna-se um importante meio para não banalizarmos o termo. Lembrando que para ser bullying, a agressão deve acontecer de forma repetida, intencional e sem motivação e entre pares. 

 

Daí a importância da escola formar e informar seus membros para que estes possam lidar com situações constrangedoras que vão surgir no cotidiano, tanto da sala de aula como fora dela e, partindo disso possam intervir juntamente com a família, sobre este fato.

FALAR DA LEI 13.185/15 que institui o programa de combate à intimidação sistemática bullying.

 

 

CONCLUSÃO

 

O bullying é, antes de tudo, uma forma específica de violência. Sendo assim, deve ser identificado, reconhecido e tratado como um problema social complexo e de reponsabilidade de todos. Nesse sentido, a escola pode e deve representar um papel fundamental na redução deste fenômeno, por meio de programas preventivos e ações combativas nos casos já instalados. Para isso, é necessário que a instituição escolar atue em parceria com as famílias dos alunos e com todos os setores da sociedade que lutam pela redução da violência em nosso dia a dia.

Concluindo pode-se dizer que a prática do bullying hoje, felizmente, é entendida como negativa e considerada inaceitável numa sociedade civilizada, pois este tem sido visto como um ato covarde, sendo que é sempre o mais forte e valentão que faz o mais fraco sofrer, deixando marcas e prejudicando a vida dele para sempre. 

Em se tratando da Educação Infantil essa prática, tem se tornado cada vez mais comum, onde os fatores que rodeiam a criança que pratica bullying são os mais diversos e, entre os mais comuns, estão a falta de afetividade por parte da família e a baixo autoestima.

O fenômeno bullying não pode ser comparado com as brincadeiras realizadas no contexto da Educação infantil, pois estas possuem características que agregam melhorias para o desenvolvimento na criança e, não ao contrário. Desta maneira, a sociedade como um todo e as escolas devem trabalhar juntas para prevenir essa prática, e proporcionar uma aprendizagem saudável aos alunos pequenos.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Secretaria de Educação Fundamental. — Brasília: MEC/SEF, vol. 1, 1998a.

 

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Secretaria de Educação Fundamental. — Brasília: MEC/SEF, vol. 2, 1998b.

 

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Secretaria de Educação Fundamental. — Brasília: MEC/SEF, vol. 3, 1998c.

 

CAMARGO, C. G. ‘Brincadeiras' que fazem chorar! Introdução ao Fenômeno Bullying. 2ª Edição. São Paulo: All Print Editora, 2010.

 

FANTE, Cléo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. São Paulo: Verus, 2005.

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 37. Ed. São Paulo: Paz e terra, 2008.

 

PEREIRA, Beatriz Oliveira. Para uma escola sem violência – estudo e prevenção das práticas agressivas entre crianças. Lisboa: Dinalivro. 2002.

 

REVISTA NOVA ESCOLA. O que é bullying? Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/crianca-e-adolescente/comportamento/bullying escola-494973. shtml>. Acesso em: 23 jul. 2010.

 

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Bullying: mentes perigosas nas escolas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

 

ZAGURY, Tânia. Escola sem conflito: parceria com os pais. 10 ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.

 

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