Da destruição da identidade à emancipação da consciência: o Efeito Cães de Briga e a formação do pensamento crítico
Clebis Domingos dos Santos Sombra[1]
RESUMO
Este artigo analisa os mecanismos institucionais e pedagógicos que operam na modelagem do comportamento humano, investigando como a escola e a religião podem ser instrumentalizadas para a produção de rivalidades e generalizações acríticas. Utilizando como analogia narrativa e estética o filme Cães de Briga (Danny the Dog, 2005), discute-se o processo de desumanização em que sujeitos são reduzidos a instrumentos de agressão a serviço de terceiros. Metodologicamente, a pesquisa apoia-se em uma abordagem qualitativa de revisão teórica, articulando as contribuições internacionais de Louis Althusser (2022), sobre os Aparelhos Ideológicos de Estado; de B. F. Skinner, acerca do condicionamento operante e do adestramento comportamental; e de Hannah Arendt, no tocante à destruição da capacidade de julgamento crítico frente a sistemas fechados. Em contraposição a esse cenário de violência simbólica e exclusão, o trabalho recorre ao pensamento de Paulo Freire (2021) e Rubem Alves (2015) para propor caminhos de emancipação e cura através de uma pedagogia libertadora, pautada no afeto, na arte e na dialogicidade. Evitando o reducionismo teórico e a hipérbole maniqueísta que divide o cenário social em polos purificados, conclui-se que o verdadeiro papel do docente reside na vigilância ética de sua própria prática. O professor deve eximir-se de criar públicos cativos ou “cães de briga” ideológicos, atuando, em vez disso, como um agente facilitador para que o educando desenvolva sua autonomia intelectual e disrompa com as castas morais autoimpostas.
Palavras-chave: Aparelhos Ideológicos de Estado. Condicionamento. Cães de Briga.
ABSTRACT
This article analyzes the institutional and pedagogical mechanisms that shape human behavior, investigating how schools and religion can be instrumentalized to foster rivalries and uncritical generalizations. Using the film *Danny the Dog* (2005) as a narrative and aesthetic analogy, the study discusses the process of dehumanization in which individuals are reduced to instruments of aggression serving others. Methodologically, the research employs a qualitative approach based on a theoretical review, integrating international contributions from Louis Althusser (2022) on Ideological State Apparatuses; B. F. Skinner regarding operant conditioning and behavioral training; and Hannah Arendt concerning the destruction of critical judgment within closed systems. In contrast to this scenario of symbolic violence and exclusion, the work draws upon the ideas of Paulo Freire (2021) and Rubem Alves (2015) to propose paths toward emancipation and healing through a liberating pedagogy grounded in affection, art, and dialogicity. Avoiding theoretical reductionism and the Manichaean hyperbole that divides the social landscape into purified poles, the article concludes that the true role of the educator lies in the ethical scrutiny of their own practice. Teachers must refrain from creating captive audiences or ideological "fighting dogs," acting instead as facilitators who enable students to develop intellectual autonomy and break free from self-imposed moral castes.
Keywords: Ideological State Apparatuses. Conditioning. Fighting Dogs.
INTRODUÇÃO:
O cenário social e educacional do século XXI impõe aos educadores um desafio que ultrapassa a simples transmissão do conhecimento. Em uma sociedade caracterizada pela intensa circulação de informações, pela crescente polarização dos debates públicos e pela fragmentação das relações sociais, a escola passou a ser convocada não apenas como espaço de aprendizagem, mas também como ambiente de convivência, diálogo e formação ética. Nesse contexto, ensinar significa igualmente mediar conflitos, estimular a escuta ativa e desenvolver a capacidade de julgamento crítico diante da complexidade da vida social.
Essa preocupação não decorre apenas da experiência cotidiana dos docentes, mas encontra respaldo em pesquisas recentes. Conforme observam Sandra Gonçalves, Oksana Tymoshchuk e Isabel Martins (2025), apesar dos esforços empreendidos por diferentes países para promover respostas educacionais compatíveis com a crescente diversidade dos estudantes, persistem obstáculos significativos à construção de ambientes verdadeiramente inclusivos e dialógicos. O desafio contemporâneo consiste, portanto, em transformar a escola em um espaço capaz de acolher a pluralidade sem abrir mão do rigor intelectual e da convivência democrática.
Tal desafio torna-se ainda mais complexo diante das profundas transformações promovidas pelas tecnologias digitais. Embora tenham democratizado o acesso à informação, as redes sociais e os novos ambientes virtuais também favoreceram a formação de bolhas informacionais e ecossistemas de intolerância, nos quais algoritmos tendem a reforçar crenças preexistentes e a reduzir a exposição ao contraditório (Faria Filho; Gonçalves, 2021). Em vez de ampliar o diálogo, tais dinâmicas frequentemente intensificam a polarização, convertendo o dissenso em hostilidade e o debate público em um espaço marcado pela desconfiança e pela desumanização do adversário.
Nesse ambiente, caracterizado pelo excesso de informações e pela crescente distância entre as pessoas (Souza et al., 2026), observa-se a reemergência de práticas segregacionistas nas quais o debate de ideias cede lugar ao linchamento moral e à rotulação sistemática. O indivíduo que diverge da narrativa predominante deixa de ser percebido como interlocutor legítimo e passa a ser reduzido a um estereótipo, frequentemente privado de sua dignidade moral e de sua legitimidade discursiva.
Esse processo aproxima-se do fenômeno que, em estudos anteriores, denominamos inclusão excludente (Sombra, 2026): um mecanismo discursivo por meio do qual determinadas linguagens de reconhecimento, pertencimento e justiça podem ser instrumentalizadas para reorganizar novas formas de exclusão simbólica. Em tais circunstâncias, estabelecem-se hierarquias de legitimidade que favorecem determinados grupos enquanto outros são progressivamente deslocados para posições de suspeição, marginalidade ou invisibilidade social.
Tal dinâmica aproxima-se da categoria sociológica dos “refugos humanos”, proposta por Zygmunt Bauman (2013), segundo a qual indivíduos considerados incompatíveis com as expectativas do sistema passam a ser tratados como vidas descartáveis ou moralmente irrelevantes, gerando contra o excluído um agressivo ambiente de intolerância e assédio moral constante.
É justamente nesse ponto que a linguagem cinematográfica oferece uma metáfora particularmente esclarecedora. No filme Cães de Briga (Danny the Dog, 2005), dirigido por Louis Leterrier e protagonizado por Jet Li, Danny é sequestrado ainda na infância e criado pelo gângster Bart como um instrumento de violência. Privado de afeto, de educação formal e de qualquer processo saudável de socialização, o protagonista é submetido a um rigoroso processo de condicionamento destinado a transformá-lo não em um sujeito autônomo, mas em uma arma viva a serviço dos interesses de seu captor.
A coleira metálica utilizada ao longo da narrativa ultrapassa sua função de simples instrumento de contenção física e assume profundo significado simbólico. Ela representa o condicionamento psicológico e moral do personagem. Enquanto permanece presa ao pescoço de Danny, sua personalidade é anulada; quando retirada por seu controlador, desencadeia automaticamente uma resposta de agressividade extrema, dirigida contra qualquer alvo previamente determinado, sem espaço para reflexão, empatia ou julgamento ético.
Embora construída no campo da ficção, a trajetória de Danny estabelece um notável paralelo com processos históricos de instrumentalização humana. Ao longo da história, governantes, regimes políticos e instituições recorreram a estruturas educacionais, religiosas e culturais para moldar indivíduos desde a infância, convertendo-os em agentes de hostilidade contra inimigos previamente definidos. O objetivo nem sempre consistiu apenas em controlar comportamentos, mas em formar sujeitos incapazes de questionar a legitimidade das ordens recebidas, reproduzindo automaticamente preconceitos, rivalidades e mecanismos de exclusão.
Longe de constituir uma característica exclusiva dos regimes totalitários do passado, essa vulnerabilidade ao condicionamento permanece presente na contemporaneidade. Mesmo quando motivadas por propósitos legítimos de conscientização, determinadas práticas pedagógicas podem, inadvertidamente, substituir a formação do pensamento crítico pela construção de públicos cativos, condicionados a responder de forma automática e emocional diante de determinados grupos sociais, políticos ou culturais.
É nesse contexto que o presente artigo se justifica. Dando continuidade às categorias analíticas desenvolvidas em pesquisas anteriores — especialmente os conceitos de hipérbole maniqueísta, castas morais e inclusão excludente (Sombra, 2026) —, busca-se aprofundar a reflexão acerca da responsabilidade ética do educador diante dos processos contemporâneos de formação da consciência. O problema central consiste em investigar de que maneira instituições educacionais podem atuar como laboratórios de “adestramento comportamental” e, em contrapartida, como a atuação docente pode converter-se em instrumento de emancipação intelectual e reconstrução da autonomia moral dos estudantes?
O objetivo geral consiste em analisar os mecanismos institucionais de condicionamento do comportamento humano e propor caminhos pedagógicos voltados para a emancipação intelectual, o fortalecimento do pensamento crítico e a reconstrução dos vínculos de alteridade por meio da educação.
Para tanto, o presente estudo rejeita explicitamente a hipérbole maniqueísta que divide a realidade entre polos moralmente puros e absolutamente perversos. Parte-se do pressuposto de que a tentação do controle ideológico constitui uma vulnerabilidade permanente da condição humana, manifestando-se sob diferentes tradições políticas, religiosas ou culturais. Educar, nessa perspectiva, significa auxiliar o estudante a reconhecer e remover suas próprias “coleiras” simbólicas, recuperando sua capacidade de pensar, julgar e reconhecer, naqueles que divergem de suas convicções, seres humanos igualmente dotados de dignidade.
O Efeito Antíoco Epifânio: a conquista pela destruição da identidade
A tentativa de controlar a subjetividade humana e direcionar o comportamento coletivo por meio de estruturas institucionais não constitui um fenômeno recente, mas uma constante da história política. Desde a Antiguidade, governantes compreenderam que a força militar, embora eficaz para conquistar territórios, era insuficiente para garantir a submissão duradoura das populações conquistadas. A estabilidade de um império dependia menos da ocupação física e mais da transformação da consciência de seus súditos.
É nesse contexto que se insere aquilo que, neste estudo, denominamos “Efeito Antíoco Epifânio”. A expressão designa o processo sistemático de destruição da identidade cultural, estabelecido como estratégia de dominação política, tomando como paradigma o governo de Antíoco IV Epifânio sobre a Judeia, cuja principal referência religiosa, cultural e política era a cidade de Jerusalém, especialmente seu Templo.
Conforme narrado nos livros dos Macabeus, o monarca selêucida compreendeu que a resistência judaica não estava fundamentada apenas em sua capacidade militar, mas sobretudo em sua memória coletiva, em sua tradição religiosa, em sua língua, em suas práticas culturais e em sua compreensão de pertencimento.
Sua estratégia, portanto, ultrapassou a ocupação territorial. Procurou substituir a identidade judaica pela cultura helenística mediante a proibição de costumes religiosos, da circuncisão, da observância do sábado e da leitura da Torá, ao mesmo tempo em que impunha novos referenciais culturais e religiosos. O objetivo não era apenas modificar comportamentos, mas reconfigurar a própria percepção que aquele povo possuía de si mesmo.
Sob essa perspectiva, o Efeito Antíoco Epifânio designa um padrão histórico recorrente no qual sistemas de poder procuram dominar indivíduos ou coletividades mediante a substituição de sua gramática normativa, de seus referenciais culturais e de seus mecanismos de interpretação da realidade. Antes de controlar ações, busca-se controlar significados; antes de conquistar corpos, procura-se conquistar consciências.
Embora situado na Antiguidade, esse mecanismo reaparece sob diferentes formas ao longo da história. Regimes totalitários do século XX, processos de doutrinação ideológica e determinadas práticas contemporâneas de manipulação simbólica compartilham a compreensão de que controlar a formação moral e intelectual das novas gerações constitui um instrumento de poder mais eficaz do que a coerção física permanente.
É justamente nesse ponto que o Efeito Antíoco Epifânio estabelece sua conexão com a metáfora desenvolvida em Cães de Briga. Assim como Danny é privado de sua identidade para ser reconstruído segundo os interesses de seu captor, sistemas ideológicos procuram, antes de tudo, romper os vínculos que ligam o indivíduo à sua memória, à sua cultura e à sua capacidade autônoma de julgamento. A violência física torna-se apenas a manifestação visível de um processo muito mais profundo de condicionamento da consciência.
A Engrenagem da Dominação: Das Práticas Históricas aos Aparelhos Ideológicos
Para desvelar o funcionamento dessa engrenagem na modernidade, a teoria de Louis Althusser oferece o suporte sociológico fundamental através do conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE). Althusser diferencia os aparelhos estatais em duas categorias operacionais: o Aparelho Repressivo de Estado (ARE), que abrange o exército, a polícia e o sistema penitenciário, funcionando primordialmente por meio da violência física ou da coerção legal; e os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), compostos por instituições como a mídia, a família, as organizações jurídicas, a religião e a escola, cuja eficácia repousa no consenso e na inculcação ideológica subtil.
O filósofo francês aponta uma transição crucial na história moderna: se durante o período feudal o AIE dominante era a Igreja, na sociedade contemporânea essa centralidade foi assumida pela Escola. É no ambiente escolar que o Estado estende o seu braço ideológico sobre o indivíduo em seus anos de maior vulnerabilidade formativa, operando o que Althusser denomina de "interpelação" — o processo pelo qual a ideologia transforma indivíduos em sujeitos acríticos, prontos para reproduzir as relações de produção e as hostilidades convenientes aos detentores do poder.
A instrumentalização da escola como um aparelho ideológico voltado para o adestramento de "cães de briga" sociais encontra um complemento filosófico devastador na obra de Hannah Arendt. Ao cobrir o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann em Jerusalém, Arendt formulou o conceito da “Banalidade do Mal”, desconstruindo a ideia de que as maiores atrocidades da história foram cometidas exclusivamente por monstros sádicos ou psicopatas perversos.
A filósofa demonstrou que Eichmann era um homem assustadoramente normal, um burocrata zeloso que não agia por um ódio pessoal profundo, mas sim por uma incapacidade patológica de pensar de forma autônoma. Ele havia sido inserido em uma engrenagem ideológica fechada — um aparelho estatal totalitário — onde a capacidade de julgamento crítico e a empatia foram completamente anestesiadas pelo cumprimento burocrático de regras e metas.
Quando articulamos o pensamento de Arendt à dinâmica dos Aparelhos Ideológicos de Althusser, compreende-se o perigo que ronda a prática pedagógica contemporânea. Se a escola e a fala do professor abdicarem da pluralidade e da dúvida metódica para impor uma única narrativa dogmática, o ambiente educacional converte-se em um laboratório de banalização do mal.
O estudante, destituído de ferramentas analíticas para compreender a complexidade do outro, passa a agir por automatismo ideológico. Assim como o personagem Danny, do filme Cães de Briga, obedece cegamente ao comando do gângster que o adestrou, o indivíduo interpelado pela ideologia institucionalizada perde a singularidade e a capacidade de julgar as consequências de seus atos.
Ele passa a enxergar o dissidente não como um semelhante que possui uma perspectiva diferente, mas como um “refugo humano” que deve ser neutralizado ou excluído para a preservação da pureza moral de sua própria casta.
A Psicologia do Adestramento: Skinner e a “Coleira” Comportamental.
Se a análise sociológica de Louis Althusser desvela a macroestrutura que molda as instituições, a compreensão do mecanismo técnico que opera na modificação do comportamento individual exige um mergulho na psicologia behaviorista radical de B. F. Skinner. Enquanto a ideologia atua no campo das ideias e do consenso, o adestramento comporta-se como uma engenharia prática de estímulos e respostas.
Skinner (1989) demonstrou que o comportamento operante pode ser modelado e mantido através de um sistema preciso de contingências: o reforço positivo (que recompensa a conduta desejada), o reforço negativo (que remove um estímulo aversivo quando o indivíduo obedece) e a punição. Para o behaviorismo clássico, o ambiente e o controle das variáveis são os fatores determinantes na construção das reações de um organismo.
Quando esse arcabouço técnico é transposto para o controle social, o indivíduo é destituído de sua agência interna, sendo rebaixado a um ser puramente reativo, cujas respostas foram cientificamente programadas pelo adestrador do sistema.
A transposição estética dessa psicologia do adestramento ganha contornos hiperbólicos na construção do personagem Danny em Cães de Briga. O vilão Bart não utiliza discursos políticos ou doutrinação teórica para submeter o protagonista; ele utiliza o behaviorismo em sua faceta mais crua e biológica. Danny é privado de contato humano saudável, trancado em um cubículo escuro e submetido ao medo constante — um ambiente controlado que funciona como uma versão ampliada da “Caixa de Skinner”.
Suas respostas de agressividade extrema não nascem de uma maldade intrínseca, mas de um sistema de reforçamento operante: lutar e vencer significa receber alimento e o alívio temporário do confinamento. A coleira metálica que Danny carrega no pescoço deixa de ser um mero adereço de contenção física e assume a função de um estímulo condicionado. Sob o controle da coleira, o personagem opera em estado de apatia e submissão; ao sinal de sua retirada, o estímulo neutro transforma-se no gatilho definitivo que desengatilha a agressividade cega.
Danny perdeu a capacidade de escolha: ele foi condicionado a associar a liberdade da coleira ao dever ético de destruir o outro. Na contemporaneidade, a fusão do adestramento skinneriano com os Aparelhos Ideológicos de Estado manifesta-se sutilmente através da criação de castas morais e do paradoxo da inclusão excludente. As plataformas digitais e, por extensão, as salas de aula que mimetizam a lógica dos algoritmos, funcionam hoje como imensas caixas de condicionamento comportamental.
O estudante é constantemente exposto a reforços positivos — a aprovação do grupo, o pertencimento à casta daqueles que detêm a "gramática normativa dominante" — toda vez que reproduz a retórica de hostilidade contra o dissidente. Em contrapartida, a dúvida, o questionamento independente ou a recusa em aderir ao linchamento virtual do "inimigo da vez" são punidos com o isolamento e o rebaixamento à categoria de pária social.
Cria-se, assim, uma divisão social assimétrica em que o grupo considerado moralmente superior arroga para si o direito de aniquilar a reputação e a dignidade daqueles rotulados como inferiores. Contra os párias, todas as formas de violência simbólica tornam-se moralmente justificadas e incentivadas pela comunidade adestrada. O indivíduo condicionado passa a vigiar o seu semelhante não por uma convicção ética genuína, mas pelo pavor de ter a sua própria “coleira” removida pelo grupo e ser exposto como o próximo alvo a ser abatido.
O adestramento skinneriano, quando instrumentalizado pelas estruturas de poder, atinge o seu objetivo mais perverso: faz com que o próprio sujeito colabore ativamente na manutenção de sua própria servidão e na exclusão do seu igual.
O Perigo do Reducionismo: Para Além da Hipérbole Maniqueísta.
A análise dos Aparelhos Ideológicos de Estado e dos mecanismos de condicionamento comportamental revela estruturas profundas de controle social, porém a sua aplicação teórica exige do pesquisador um rigor que evite o reducionismo mecânico. No clássico cinematográfico Tempos Modernos (1936), Charles Chaplin constrói uma crítica satírica e visualmente brilhante da sociedade industrial ao interpretar um operário de linha de montagem.
Após exaustivas horas apertando parafusos em um ritmo frenético ditado pelas máquinas, o personagem desenvolve uma neurose ocupacional: ele passa a enxergar porcas e parafusos em absolutamente tudo o que está ao seu redor, tentando apertar os botões dos casacos das pessoas e as maçanetas das portas na rua. O “Efeito Chaplin” serve como uma advertência epistemológica vital para as ciências humanas; se o analista se deixar obcecar pela engrenagem da opressão, ele corre o risco de sofrer uma cegueira analítica, enxergando “aparelhos ideológicos”, “coleiras” e “condicionamentos” em cada manifestação da cultura e da espontaneidade humana, esvaziando a realidade de sua complexidade intrínseca.
Para evitar esse determinismo sociológico que anula a subjetividade, o presente artigo recusa terminantemente a adoção de uma hipérbole maniqueísta. O maniqueísmo acadêmico e político tende a simplificar o tecido social através de uma divisão binária e assimétrica, estabelecendo a existência de um grupo ou “Lado A” detentor de uma pureza moral absoluta e um “Lado B” que encarna a totalidade do mal e da opressão.
Essa simplificação mitológica é a base de todas as propagandas ideológicas, pois desonera o indivíduo de pensar criticamente sobre as contradições do seu próprio grupo. O exame factual da história demonstra que a vulnerabilidade ao adestramento e a tentação de instrumentalizar a escola ou o aparato civil para o silenciamento do outro não constituem apanágios de uma vertente ideológica específica; tratam-se, antes, de patologias do poder que habitam o cerne da natureza humana quando esta é inserida em ambientes de assimetria institucional.
A quebra definitiva desse binarismo reducionista manifesta-se na biografia de sujeitos históricos complexos que subverteram as estruturas de condicionamento de sua própria época e origem social. O industrial alemão Oskar Schindler, membro do Partido Nazista, inserido em uma estrutura estatal moldada para a espoliação e o extermínio, operou uma disrupção em sua própria trajetória. Inicialmente movido pelo lucro e pelo pragmatismo do sistema vigente.
Neste contexto, Schindler utilizou sua riqueza e influência não para alimentar a máquina totalitária, mas para subvertê-la por dentro, salvando mais de um milhar de vidas da engrenagem dos campos de concentração. Ele provou que o pertencimento formal a uma instituição ou a um rótulo político não anula de forma absoluta a capacidade de escolha ética e a responsabilidade moral individual.
De maneira análoga, o pastor e teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer ilustra a capacidade humana de romper com a gramática normativa dominante de seu próprio ambiente de formação. Criado sob a forte herança da teologia alemã — que historicamente preconizava uma estrita obediência civil às autoridades governamentais —, Bonhoeffer percebeu o perigo da cumplicidade da igreja oficial com a barbárie do nacional-socialismo.
Em vez de se submeter à passividade institucional ou aderir à retórica de exclusão legitimada pelo Estado, Dietrich Bonhoeffer fundou a Igreja Confessional, participou ativamente da resistência e pagou com a própria vida o preço de sua fidelidade aos princípios de alteridade e justiça.
Figuras como as do membro do Partido do Trabalhadores Alemães Oscar Schindler e o pastor da Igreja Confessional Bonhoeffer, neste contexto, funcionam como contraexemplos indispensáveis à teoria do controle absoluto. Eles demonstram que, mesmo sob o peso esmagador de Aparelhos Ideológicos altamente sofisticados, o ser humano preserva uma zona de autonomia moral e livre-arbítrio.
A história da humanidade não é um roteiro pré-determinado de forças mecânicas; ela é tecida pelas escolhas éticas de indivíduos que, frente ao imperativo do sistema para agirem como “cães de briga”, optam pelo risco da emancipação e pelo reconhecimento da dignidade do semelhante.
A Quebra da Coleira: O Afeto e a Emancipação em Freire e Rubem Alves
Se a articulação entre o pensamento de Althusser, Skinner e Arendt nos permite diagnosticar a anatomia do adestramento institucional, a superação dessa lógica de controle exige um paradigma educacional que devolva ao indivíduo a sua condição de sujeito. Na narrativa cinematográfica de Cães de Briga, a ruptura com a engrenagem de violência não ocorre por meio de um novo condicionamento físico ou de uma contraideologia igualmente agressiva.
A transformação profunda do personagem Danny inicia-se no momento em que ele é acolhido por Sam, um afinador de pianos cego interpretado por Morgan Freeman. Sam introduz Danny a um universo esquecido de afeto, dignidade e expressão artística por meio da música clássica. É através do som do piano e da convivência familiar genuína que as respostas condicionadas de agressividade do protagonista começam a ser desarmadas.
Essa transição ficcional da barbárie para a humanização encontra respaldo teórico e metodológico direto nas formulações dos pensadores brasileiros Paulo Freire e Rubem Alves. O processo pelo qual Danny toma consciência de sua condição de objeto e decide romper com o jugo de seu opressor traduz com precisão a pedagogia libertadora e a teoria da conscientização de Paulo Freire.
Em sua crítica fundamental às estruturas tradicionais de ensino, Freire cunhou o conceito de “Educação Bancária”, um modelo opressor no qual o estudante é tratado como um receptáculo passivo, um “banco” onde o educador deposita conteúdos e ideologias formatadas. A educação bancária assemelha-se estruturalmente ao adestramento skinneriano e à interpelação althusseriana, pois anula a capacidade de agência do educando, transformando-o em um autômato adaptado aos interesses do sistema vigente.
Em contrapartida, Freire propõe uma pedagogia baseada na dialogicidade, onde educador e educando estabelecem uma relação horizontal de mútua aprendizagem mediada pelo mundo. A conscientização freiriana não consiste na mera substituição de uma cartilha ideológica por outra, mas no desenvolvimento de uma leitura crítica da realidade que permite ao sujeito reconhecer as amarras que o prendem.
No filme, a tomada de consciência faz com que Danny passe a questionar as ordens de seu captor; na sala de aula, a práxis libertadora é aquela que mune o estudante com a dúvida metódica, capacitando-o a recusar o papel de “cão de briga” de facções políticas ou dogmatismos sociais e a assumir-se como arquiteto de sua própria história.
Todavia, para que a emancipação cognitiva se consolide, a racionalidade crítica precisa ser fecundada pela sensibilidade, dimensão magistralmente defendida por Rubem Alves. O educador e escritor mineiro argumentava que a função primordial da educação não é a transmissão burocrática de saberes ou a formatação utilitária de mentes, mas sim o ato de “dar asas” à imaginação e “provocar o espanto”.
Para Rubem Alves, o aprendizado significativo está indissociavelmente ligado ao afeto, à beleza e à fruição estética. Uma escola que se limita à rigidez normativa e à reprodução do dissenso opera um processo de dessecação da alma humana.
No arco dramático de Cães de Briga, a música do piano de Sam não funciona apenas como entretenimento, mas como uma ferramenta terapêutica de cura emocional. A arte e o afeto de uma família que o acolhe sem exigir em troca a submissão a uma gramática normativa dominante cicatriza as feridas deixadas pelas décadas de isolamento e privação sofridas por Danny.
Rubem Alves nos ensina que a humanização do homem passa pelo resgate de sua capacidade de sentir e de se emocionar com a existência do outro. Quando o ambiente pedagógico substitui a retórica da hostilidade e da vigilância mútua pelo acolhimento estético e pelo respeito à singularidade, as “castas morais” perdem sua força de coerção. A introdução do afeto e da arte na educação opera o descondicionamento do sujeito, desarmando os gatilhos da agressividade e abrindo espaço para uma convivência fundamentada na alteridade e na solidariedade genuína.
As reflexões desenvolvidas ao longo deste estudo não constituem um conjunto de teorias independentes, mas etapas complementares de um mesmo processo de formação e reconstrução da consciência humana. A metáfora cinematográfica de Cães de Briga permite visualizar, de forma integrada, como diferentes autores descrevem momentos distintos dessa trajetória, desde a destruição da identidade até sua recuperação pela educação, pelo afeto e pela arte. O quadro a seguir sintetiza essa arquitetura conceitual do artigo:
Quadro 1 – Trajetória da consciência humana: da destruição da identidade à emancipação pelo afeto e pela educação.
|
Etapa do artigo |
Processo humano |
Metáfora em Cães de Briga |
|
Efeito Antíoco |
Destruição da identidade |
Danny é sequestrado quando criança e perde sua história. |
|
Althusser |
Organização institucional do poder |
Bart cria um sistema fechado de controle sobre Danny. |
|
Skinner |
Condicionamento comportamental |
A coleira, os reforços e as lutas moldam suas respostas. |
|
Arendt |
Suspensão do julgamento moral |
Danny deixa de decidir por si mesmo; apenas executa comandos. |
|
Freire |
Tomada de consciência |
Danny começa a questionar quem é e por que vive daquela forma. |
|
Rubem Alves |
Humanização pelo afeto e pela arte |
A música, o piano, Sam e a família devolvem sua humanidade. |
Fonte: Sombra, Clebis, 2026.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A investigação dos mecanismos de controle subjetivo e adestramento institucional, articulada através da análise fílmica de Cães de Briga e do diálogo entre as teorias de Althusser, Skinner, Arendt, Freire e Rubem Alves, joga luz sobre a urgente necessidade de uma profunda reflexão acerca da responsabilidade ética do educador contemporâneo. O percurso teórico deste artigo demonstrou que as instituições de ensino, longe de serem espaços neutros, carregam historicamente a ambivalência de poder atuar tanto como Aparelhos Ideológicos voltados para a reprodução do consenso e a fabricação de hostilidades, quanto como espaços potenciais de emancipação, diálogo e humanização.
Nesse limiar, a figura do professor emerge como o elemento crítico da engrenagem pedagógica. Diante da assimetria de poder intrínseca à cátedra, o docente encontra-se constantemente sob a tentação de sucumbir à hipérbole maniqueísta de seu tempo. Quando o educador utiliza seu espaço de fala para impor visões de mundo dogmáticas, rebaixar o dissidente à categoria de pária social ou rotular grupos através de construções generalistas, ele abdica de sua função ética. Em vez de promover a autonomia, esse profissional passa a operar como um adestrador skinneriano de conveniência, utilizando a sala de aula para formatar um "público cativo" e produzir novos "cães de briga" dispostos a agirem de maneira reativa em benefício de cartilhas ideológicas ou partidárias.
A superação desse modelo exige o resgate da escola como um espaço genuinamente plural, pautado pelo rigor científico, pela dúvida metódica e pela abertura honesta ao contraditório. Uma prática pedagógica ética é aquela que recusa o "Efeito Chaplin" de reduzir a totalidade da existência a parafusos ideológicos predeterminados. Inspirado na pedagogia do afeto e da dialogicidade, o professor moderno deve atuar como o personagem Sam na narrativa fílmica analisada: um mediador que não substitui uma coleira por outra, mas que oferece as ferramentas da arte, da cultura, da sensibilidade e do pensamento crítico para que os próprios estudantes desenvolvam a capacidade de julgar autonomamente a realidade que os cerca.
Conclui-se, portanto, que educar no século XXI é um ato de resistência contra a barbárie do cancelamento e da fragmentação social. A verdadeira emancipação pedagógica não se consolida pela vitória de um polo político sobre o outro, mas pelo colapso das castas morais autoimpostas e pelo reconhecimento da mútua humanidade. Ao exercer uma estrita vigilância sobre a sua própria fala e postura, desarmando os gatilhos do preconceito e da violência simbólica, o professor cumpre o seu mais nobre imperativo categórico: cooperar ativamente para que cada educando encontre a coragem necessária para desatar suas próprias amarras intelectuais e viver, definitivamente, sem coleiras.
REFERÊNCIAS
ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos de Estado. 14ª Edição. editora Paz & Terra: São Paulo, 2022.
ALVES, Rubem. Entre a Ciência e a Sapiência: o dilema da educação. 23ª edição, Edições Loyola, São Paulo, 2015.
AUSUBEL, David. A aprendizagem significativa: a teoria de David Ausubel. São Paulo: Moraes, 1982.
BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
BAUMAN, Zygmunt. Sobre a educação e a juventude. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013.
BOURDIEU, Pierre. A reprodução. Petrópolis: Vozes, 2014.
FARIA FILHO; GONÇALVES. [2021] Tecnologias e Educação escolar: a Escola pode ser contemporânea do seu tempo? Disponível em: https://www.scielo.br/j/es/a/9R9PBy6R5MnBYbxpJbVW78h/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 08 jun. 2026.
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1992.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 95ª. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2021.
MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
PIAGET, Jean. A Psicologia da Criança. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1970.
GONÇALVES, S.; TYMOSHCHUK, O; e Martins, I. [2025]. Escuta Ativa da Voz dos Alunos: um Caminho para a Inclusão e Inovação Pedagógica. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbee/a/6dZxPYmdHYBkVknGCrsqsRM/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 08 jul. 2026.
SKINNER, B. F. Behaviorism and Logical Positivismde Laurence Smith. In. Questões Recentes na Análise Comportamental. Campinas, SP: Papirus, (1989), 1995c, pp. 145- 150.
SOMBRA, C. [2026]. Castas morais e inclusão excludente: um modelo analítico da reorganização da exclusão. Instituto Saber de Ciências Integradas – Revista Científica, Sinop, v. 13, n. 3, mar. 2026. DOI: 10.5281/zenodo.19455373. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.19455373. Acesso em: 25 abr 2026.
SOUZA; SANTOS; ARAÚJO; TEDESCHI. [2026]. Impactos cognitivos do uso excessivo das redes sociais: atenção, memória e emoção. Disponível em: https://www.scielo.br/j/eb/a/xmNSkzDZ4887VzHKsLQWTkd/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 08 jun. 2026.
VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores. Martins Fontes. São Paulo, 1994.
[1] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Educação da Faculdade Interamericana de Ciências Sociais – FICS.

