A carta como forma literária e filosófica em Sêneca: uma leitura do livro XX e dos fragmentos do livro XXII das Epístulas Morais a Lucílio
Elayne Barbosa da Silva
Jucélia de Oliveira Borges Ribeiro
Lea Antônia Corrêa da Silva Costa
Mariclei Soares
RESUMO
Este artigo analisa as Epistulae Morales ad Lucilium, de Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C.–65 d.C.), com foco no Livro XX (Cartas 118–124) e nos fragmentos do Livro XXII, transmitidos por Aulo Gélio. O objetivo é compreender a carta como forma literária e filosófica no contexto da Antiguidade romana, identificando o narrador-escrevente da obra o próprio Sêneca e os temas centrais do corpus epistolar. A pesquisa apoia-se em textos primários (2ª edição, ano de 2004, da Fundação Calouste Gulbenkian, traduzida por J. A. Segurado e Campos, e o prefácio da tradução do Satyricon de Petrônio, por Sandra Braga Bianchet) e em referenciais teóricos como Michel Foucault ("A escrita de si"), além de periódicos acadêmicos que tratam do gênero epistolar na literatura. Conclui-se que as cartas senequianas são simultaneamente correspondência real e exercício filosófico, e que Sêneca constrói, como escrevente-narrador, uma voz ética que ultrapassa os limites do tempo e do destinatário imediato.
Palavras-chave: Gênero epistolar. Sêneca. Epístolas Morais. Narrador.
INTRODUÇÃO
O gênero epistolar ocupa lugar singular na história da literatura. A carta é um espaço privilegiado de comunicação entre sujeitos separados pela distância física qual transforma-se, ao longo dos séculos, em veículo de reflexão filosófica, confissão íntima, diretriz moral e projeto literário. No mundo antigo romano, as cartas de Cícero, as de Plínio, o Jovem, e, sobretudo, as de Lúcio Aneu Sêneca a Lucílio representam o mais alto desenvolvimento dessa forma.
As Epistulae Morales ad Lucilium de Sêneca constituem, segundo o próprio prefácio da edição aqui utilizada, "a obra mais importante de quantas subsistem da autoria" do filósofo (SEGURADO E CAMPOS, 2004, p. V). Escritas nos últimos anos de vida do autor entre 63 e 65 d. C, as 124 cartas que chegaram até nós são endereçadas a Lucílio Júnior, procurador imperial na Sicília e discípulo de Sêneca no caminho da filosofia estoica.
Este trabalho propõe-se a: (a) discutir definições teóricas do gênero carta na literatura, com apoio em autores da área de epistolografia e crítica literária; (b) destacar fragmentos da Introdução da obra e dos Fragmentos do Livro XXII, que iluminam a recepção das cartas senequianas na Antiguidade; (c) apresentar o tema e os trechos centrais do Livro XX, que concentra as Cartas 118–124; e (d) analisar a figura do narrador-escrevente o próprio Sêneca que se constrói ao longo do corpus epistolar.
Para tanto, recorre-se ao prefácio do Satyricon de Petrônio (tradução de Sandra Braga Bianchet), que oferece um panorama da escrita literária no século I d.C. e ajuda a contextualizar o ambiente intelectual em que Sêneca produziu sua obra.
A CARTA NA LITERATURA: DEFINIÇÕES E TEORIAS
O que é uma carta? A pergunta, aparentemente simples, revela-se complexa quando o texto em questão pertence simultaneamente ao domínio da comunicação cotidiana e ao da elaboração literária. A dificuldade de definição reside precisamente na natureza ambígua da carta, que, como observa a Enciclopédia de Teoria da Literatura (2009), oscila entre relato pessoal de fatos de natureza pessoal e objeto elaborado com intenção artística em que a atividade de escrita epistolar de assuntos considerados comuns entre indivíduos é chamada de epistolografia, ao passo que a teorização e a prática de epístolas ficcionais recebem o nome de epistolaridade.
Essa distinção conceitual epistolografia como prática; epistolaridade como teoria e ficção é central para compreender as Cartas a Lucílio de Sêneca, obra que habita o espaço fronteiriço entre correspondência real e construção literária.
Na revista acadêmica Letrônica (PUCRS), o dossiê "Gênero epistolar: a carta na literatura, a literatura na carta, rede de sociabilidade, escrita de si" (Kohlrausch e Zucchi, 2015) aponta que a carta, "validada como documento expressivo, é vista à margem da literatura, uma vez que se produziu longe do intuito primeiro, o literário". No entanto, as cartas de grandes escritores não podem ser reduzidas ao estatuto de documento marginal: elas são parte constitutiva de sua obra, "um rico material para a compreensão do universo literário do autor" (ALSELMI apud LETRÔNICA, 2015, p. 149).
Michel Foucault, em A escrita de si (1992), oferece uma das leituras mais iluminadoras da carta como prática filosófica e subjetiva. Para Foucault, a correspondência epistolar opera simultaneamente sobre quem escreve e sobre quem recebe:
O trabalho que a carta opera no destinatário, mas que também é efetuado naquele que escreve pela própria carta que ele envia, implica portanto uma 'introspecção'; mas é preciso compreendê-la menos como um deciframento de si por si mesmo do que como uma abertura que se dá ao outro sobre si mesmo. (FOUCAULT, 1992, p. 150.
Essa perspectiva é especialmente válida para as epístolas senequianas. A carta, nesse contexto, não é apenas mensagem enviada: é exercício de formação do sujeito. Ao escrever para Lucílio sobre a liberdade, a morte, a riqueza ou o bem moral, Sêneca também se examina, se constitui, se expõe.
Assim também Leandro Garcia Rodrigues, em Cartas que falam (Relicário Edições. 2017), defende a necessidade de ampliar as fronteiras da teoria literária, para que esta possa também abarcar as cartas, atentando à complexa reversibilidade vida-obra, para além dos biografismos ingênuos. A carta, assim compreendida, não é simples paratexto da obra de um autor: ela é obra.
No domínio da latinidade, é o próprio Sêneca quem formula com precisão a função da carta: ela traz verdadeiros vestígios do amigo ausente (uera amici absentis vestigia, Ep. 40,1). Como analisa Fernanda Lemos de Lima (2017), esse vestígio não é apenas registro biográfico é convite à filosofia, é modelagem do leitor. Sêneca constrói, em sua carta, um Lucílio que é imagem de todo leitor que aspira à sabedoria.
A INTRODUÇÃO DAS CARTAS A LUCÍLIO E OS FRAGMENTOS DO LIVRO XXII
Sobre a introdução da carta como meio-termo filosófico, Segurado e Campos, na sua introdução à edição Gulbenkian das Cartas a Lucílio (2004), propõe uma leitura precisa do estatuto literário da obra.
As Epistulae Morales, escreve ele, não devem ser consideradas como uma obra exclusivamente filosófica, uma correspondência fictícia dirigida a um destinatário fictício apenas para fugir à técnica da exposição teórica, em suma, “um artifício meramente literário" (p. X). Ao mesmo tempo, elas não são simples correspondência privada. Situam-se, nas palavras do tradutor:
[...] a meio caminho entre o primeiro e o segundo dos tipos de cartas referidos: são uma correspondência real entre dois amigos em que, na quase totalidade dos casos, são desenvolvidos por Sêneca diversos problemas de índole filosófica." (SEGURADO E CAMPOS, 2004, p. X)
A Introdução também descreve com acuidade o método de Sêneca: partir sempre de um evento ou observação concreta a chegada de uma carta, um incêndio em Lyon, uma tempestade no mar, a vista de um velho escravo para desenvolver uma reflexão filosófica de alcance universal. Assim, "a carta é o veículo por excelência" da filosofia senequiana, porque "Sêneca parte sempre para a sua exposição de um pormenor de natureza muito concreta" (p. XIII).
Outro aspecto fundamental assinalado na Introdução é a influência da diatribe cínico-estoica sobre o estilo epistolar de Sêneca. O interlocutor fictício aquele que Sêneca imagina e cuja objeção ele mesmo cria para refutar é o mecanismo retórico central das cartas, tornando-as vivas, dialógicas, dramáticas. Abundam ainda os exempla (personagens históricas e anônimas propostas como modelo ou contraexemplo) e as máximas, que Sêneca funde "sob uma forma poeticamente marcante e, portanto facilmente conservável na memória" (p. XVII).
Os Fragmentos do Livro XXII: a recepção crítica da Antiguidade
O corpus das Cartas a Lucílio chegou até nós em vinte livros. No entanto, os Fragmentos do chamado Livro XXII transmitidos por Aulo Gélio em seu Noctes Atticae (XII, 2) demonstram que a obra original de Sêneca era "consideravelmente mais amplo do que aquele que nós possuímos" (nota do tradutor, p. 704). Isso é historicamente relevante: perdemos parte da correspondência senequiana.
Os fragmentos preservados pelo erudito Aulo Gélio revelam um Sêneca crítico literário: no Livro XXII original, ele teria censurado os versos arcaicos de Ênio, questionado a qualidade de alguns passos de Cícero e comentado a técnica métrica de Virgílio. Gélio transcreve, com alguma ironia, a apreciação senequiana:
Espanta-me como homens tão eloquentes apreciavam Ênio a ponto de achar excelentes as suas frases ridículas. Até mesmo um Cícero cita estes versos como sendo dos bons que ele escreveu!" (SÊNECA apud GÉLIO, XII, 2. Fragmentos do Livro XXII, p. 705).
O próprio Gélio não poupa críticas a Sêneca, refletindo o debate literário de sua época entre arcaísmo e modernidade. Mais importante para nosso trabalho, porém, é a citação que Quintiliano faz de Sêneca nos fragmentos transcritos no final do corpus. O retórico latino, embora crítico do estilo senequiano, reconhece:
Na filosofia, mostrou-se pouco rigoroso teoricamente, mas foi um implacável perseguidor dos vícios. Na sua obra abundam as sentenças bem cunhadas e as dissertações úteis à formação moral." (QUINTILIANO, Inst. Orat. X, 1, 125–131 apud Fragmentos do Livro XXII, p. 708).
Esse depoimento de Quintiliano, preservado nos fragmentos finais da edição, é precioso: ele permite compreender o lugar de Sêneca na história da prosa latina, entre a tradição clássica ciceroniana e a nova sensibilidade do século I d.C.
O PREFÁCIO DO SATYRICON E A ESCRITA LITERÁRIA NO SÉCULO I D.C.
Contemporâneo de Sêneca ou praticamente seu contemporâneo, Petrônio (séc. I d.C.), autor do Satyricon, permite uma leitura complementar do universo literário em que as Epístolas Morais foram produzidas. O prefácio à tradução brasileira de Sandra Braga Bianchet (UFMG) situa a obra de Petrônio no contexto de uma literatura romana que debatia, acaloradamente, questões de estilo, decadência retórica e autenticidade da expressão.
O Satyricon é uma obra de ficção em prosa que satiriza, entre outros alvos, a afetação da retórica escolar e a decadência dos costumes. Esse ambiente literário é o mesmo em que Sêneca escreve suas cartas e em que ele posiciona sua escrita como alternativa à eloquência vazia, ao discurso ornamentado sem conteúdo moral.
A crítica de Sêneca à retórica tradicional, visível em várias cartas, ecoa o diagnóstico que a ficção petroniana faz da cultura romana do mesmo período: a palavra perdeu sua força de verdade; o ornamento prevaleceu sobre a substância. Frente a isso, Sêneca propõe, em suas cartas, uma escrita direta, nervosa, sentenciosa, "frases curtas e marcantes" (SEGURADO E CAMPOS, 2004, p. XV) que não cedem à beleza formal pela beleza em si, mas a colocam a serviço da transmissão moral.
Esse paralelo entre a prosa epistolar de Sêneca e a prosa satírico-ficcional de Petrônio ilumina um traço comum da literatura do século I d.C.: o olhar crítico sobre os valores da sociedade romana, a desconfiança em relação às aparências e a busca de uma autenticidade seja ela filosófica (Sêneca) ou satírica (Petrônio).
O LIVRO XX DAS EPÍSTOLAS MORAIS: TEMA E TRECHOS
As Cartas 118–124: o bem, a riqueza e a liberdade interior. O Livro XX das Epístolas Morais (Cartas 118 a 124) é um dos mais densos do corpus senequiano. Nele, Sêneca desenvolve, com crescente radicalidade filosófica, a questão central de toda a sua ética estoica: o que é o bem? E, como corolário: o que é a verdadeira riqueza? Ambas as perguntas convergem para o mesmo ponto, a liberdade interior do sábio frente à Fortuna. A Carta 118 abre o livro com um gesto característico de Sêneca: a alusão à correspondência e ao ritmo das trocas epistolares, transformada imediatamente em reflexão filosófica. Sêneca recusa escrever cartas circunstanciais como Cícero escrevia a Ático e afirma que seu assunto é sempre a virtude:
Já sem falar daqueles temas que preenchem as cartas de Cícero: qual o candidato em campanha eleitoral; quem se apresenta como candidato de um grupo [...] Comigo nunca haverá falta de matéria a desenvolver." (SÊNECA, Ep. 118, 1–2, p. 659)
A comparação com Cícero é reveladora. Enquanto as cartas ciceronianas são documentos da vida política e social de Roma, as de Sêneca recusam deliberadamente esse universo. O filósofo volta-se para dentro. Seu tema é a alma humana, sua virtude, seus vícios, sua busca do bem.
Na sequência da Carta 118, Sêneca desenvolve uma meditação sobre os comícios da Fortuna a imagem da praça política romana como metáfora para os desejos humanos. Todos os homens concorrem à riqueza, ao poder, à saúde, ao casamento, como candidatos que disputam votos da Fortuna. O sábio, porém, é aquele que se retira desse jogo:
Nada me interessas, Fortuna! Estou fora do teu alcance. Sei bem como tu repeles os Catões e exaltas os Vatínios! Nada peço para mim. Chama-se a isto cortar pela base o poder da Fortuna. (SÊNECA, Ep. 118, 4, p. 661).
A Carta 119, por sua vez, trata da riqueza segundo a natureza. Com ironia característica, Sêneca anuncia que vai revelar ao amigo "como poderás tornar-te rico num abrir e fechar de olhos" e a revelação é esta: a verdadeira riqueza está em limitar os desejos ao necessário. O credor que Sêneca recomenda é interno: "nunca peça emprestado senão a ti próprio" (Ep. 119, 1, p. 665).
Não há qualquer diferença, Lucílio amigo, entre carecer de desejos ou ter muitas posses: em ambos os casos o essencial da questão está em não sentirmos angústias. (SÊNECA, Ep. 119, 2, p. 665).
Essa sentença condensa o núcleo ético do Livro XX: o problema não é a quantidade de bens, mas a qualidade do desejo. Quem deseja pouco, quem se ajusta à natureza é rico. Quem deseja muito; Alexandre, Crasso, todos os que buscam sempre mais permanece pobre na abundância.
A máxima final da Carta 119 é lapidar: "O sábio é o mais enérgico pesquisador das riquezas naturais" (Ep. 119, 5, p. 666). O sábio estoico não rejeita os bens do mundo; ele os avalia com discernimento, distinguindo o que é necessário do que é supérfluo.
O bem moral e a natureza (Carta 118)
Uma das contribuições filosóficas mais originais do Livro XX está na discussão, na Carta 118, das diferentes definições do bem. Sêneca percorre diversas posições filosóficas e as critica metodicamente. A definição que propõe como mais adequada é: “O bem é aquilo que desperta na alma um movimento na sua direção conforme à natureza e que só devemos procurar obter quando começa a tornar-se merecedor desse empenho.” (SÊNECA, Ep. 118, 9, p. 662).
A discussão culmina na distinção entre "bem em geral" e "bem moral": o bem moral é "o bem absoluto, no qual se realiza totalmente a felicidade" (Ep. 118, 10, p. 662). Essa hierarquia é o coração do estoicismo senequiano: todos os outros bens são contingentes; o bem moral e a virtude é o único bem verdadeiro.
O NARRADOR DAS CARTAS: SÊNECA, O ESCREVENTE
Sobre o EU que escreve nas Epístolas Morais a Lucílio, o narrador é o próprio Sêneca. Diferentemente do romance, onde o narrador pode ser ficcional e distinto do autor, na carta o escrevente se apresenta como real, como o mesmo sujeito histórico que viveu, pensou e sofreu os acontecimentos narrados. Esse é o traço mais característico da escrita epistolar: a presença ostensiva da primeira pessoa, que assina, data, responde, aconselha.
Michel Foucault, ao analisar a prática epistolar antiga, sublinha que a carta constitui o sujeito que escreve tanto quanto instrui o sujeito que lê. Para Foucault, na relação epistolar filosófica e as cartas de Sêneca são o exemplo paradigmático, "o exame de consciência foi formulado como um relato escrito de si mesmo: relato da banalidade cotidiana, das ações corretas" (FOUCAULT, 1992, p. 137). Sêneca não apenas aconselha Lucílio: ele se examina publicamente.
Essa dupla função a carta como exame de si e como formação do outro é o que torna Sêneca um narrador singular. Ele não é o narrador onisciente do romance realista, nem o narrador distante do tratado filosófico. Ele é o amigo que escreve, que reconhece fraquezas, que admite contradições, que avança e recua, que cita com entusiasmo autores que discordaria em público.
A persona filosófica do escrevente
O narrador Sêneca constrói ao longo das cartas uma persona coerente: a do sábio em processo não o sábio perfeito do ideal estoico, mas aquele que caminha em direção a ele. Essa honestidade narrativa é estratégia filosófica deliberada. Ao apresentar-se como aprendiz ao lado do discípulo, Sêneca cria uma comunidade de busca o que a Introdução da obra chama de "acompanhar a evolução do discípulo" (SEGURADO E CAMPOS, 2004, p. XIV).
A Introdução descreve bem essa persona: "Sêneca parte sempre para a sua exposição de um pormenor de natureza muito concreta" (p. XIII). O narrador é um observador do cotidiano do barulho da banheira pública, da tempestade no mar, do velho escravo que envelhece junto com o dono e transforma esse cotidiano em matéria de reflexão universal.
No Livro XX, essa persona aparece com clareza na Carta 118, quando Sêneca recusa escrever "o que lhe viesse à ideia", como Cícero fazia com Ático: "Comigo nunca haverá falta de matéria a desenvolver." O escrevente senequiano sempre tem algo a dizer e esse algo é sempre filosófico, ético, urgente.
A relação mestre-discípulo que molda a voz do narrador é também apontada por Fernanda Lemos de Lima em sua pesquisa sobre "Vestígios de Lucílio" (2017): o destinatário das cartas não é apenas Lucílio histórico, mas um Lucílio-leitor que se generaliza em cada novo leitor da obra. O narrador Sêneca, ao dirigir-se a esse leitor, exercita o que a tradição estoica chamava de cura sui o cuidado de si que é também, sempre, cuidado do outro.
Sêneca no espelho da época: o Satyricon como contraponto
O prefácio do Satyricon de Petrônio, na tradução de Sandra Braga Bianchet, oferece um pano de fundo útil para compreender a posição de Sêneca como escrevente. No mesmo século em que Petrônio satirizava a decadência da retórica e dos costumes, Sêneca erguia uma voz filosófica que recusava os ornamentos do discurso em nome da eficácia moral. Os dois autores, em gêneros opostos, diagnosticam o mesmo mal da sociedade romana do século I: a dissociação entre aparência e verdade.
Quintiliano, citado nos Fragmentos do Livro XXII, reconhece que o estilo de Sêneca era imitado pela juventude romana o que revela o alcance de sua voz de escrevente. Ao mesmo tempo, critica o estilo decadente e a fragmentação das ideias em frases diminutas. Essa tensão entre a força moral do conteúdo e as limitações formais do estilo é constitutiva da identidade narrativa de Sêneca. Ele escreve para ser útil, não belo; para salvar almas, não para ganhar prêmios retóricos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As Epístolas Morais a Lucílio de Sêneca são, ao mesmo tempo, um monumento da epistolografia antiga e uma obra de filosofia prática. A carta, como forma literária, é o veículo ideal para o projeto senequiano: ela permite partir do cotidiano para o universal, dirigir-se a um destinatário específico e alcançar todos os leitores, construir uma voz filosófica que seja também voz humana, sujeita a dúvidas e contradições.
O Livro XX, com suas Cartas 118–124, concentra o esforço de Sêneca para definir o bem e a riqueza segundo a natureza. A liberdade interior estar fora do alcance da Fortuna é o ideal que atravessa cada epístola do livro. Os Fragmentos do Livro XXII, por sua vez, documentam uma recepção crítica já na Antiguidade: Aulo Gélio e Quintiliano reconhecem, com críticas e elogios, a singularidade do projeto senequiano.
O narrador-escrevente que emerge dessas cartas é um sujeito filosófico em construção: um mestre que aprende enquanto ensina, um homem que examina sua vida enquanto orienta a do discípulo. Essa figura iluminada pela leitura de Foucault sobre a escrita de si e contextualizada pelo ambiente literário do século I d.C, em que também Petrônio escrevia, ou seja, uma das vozes mais vivas que a Antiguidade nos legou.
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. A escrita de si. In: . O que é um autor. Lisboa: Vega, 1992. p. 129–160.
KOHLRAUSCH, Regina; ZUCCHI, Vanessa. Apresentação: Gênero epistolar — a carta na literatura, a literatura na carta, rede de sociabilidade, escrita de si. Letrônica, Porto Alegre, PUCRS, v. 8, n. 1, p. 148–155, jan.-jun. 2015.
LIMA, Fernanda Lemos de. Vestígios de Lucílio: a imagem do leitor nas seis primeiras cartas do livro I das Epístolas Morais de Sêneca. Monografia. São Paulo, 2017.
PETRONIUS ARBITER. Satyricon. Tradução, introdução e notas de Sandra Braga Bianchet. Belo Horizonte: Crisálida, 2004.
RODRIGUES, Leandro Garcia. Cartas que falam: ensaios sobre epistolografia. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2017.
SEGURADO E CAMPOS, J. A. Introdução. In: SÊNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. Tradução, prefácio e notas de J. A. Segurado e Campos. 2.ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. p. V–L.
SÊNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. Tradução, prefácio e notas de J. A. Segurado e Campos. 2.ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. (Epistulae Morales ad Lucilium, Livro XX — Cartas 118–124; Livro XXII — Fragmentos).
SILVEIRA, F. L. (2011). Imagens da preceptiva e da dogmática na epístola 95 de Sêneca. Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000938900. Acesso em: 20 de abril de 2026.
VASCONCELLOS, Paulo Sérgio de. Sobre o epistolário de Sêneca. Letras Clássicas, São Paulo, n. 3, p. 45–93, 1999.

