Nome próprio, identidade e letramento na Educação Infantil: práticas pedagógicas para o reconhecimento de si e do outro
Letícia Carvalho Silva Marques
Sâmela Siqueira Oliveira
RESUMO
Este artigo discute a importância do trabalho com o nome próprio na Educação Infantil como prática pedagógica voltada à construção da identidade, da autonomia e à inserção da criança na cultura escrita. Trata-se de um estudo bibliográfico, de abordagem qualitativa, fundamentado em materiais que abordam o nome próprio como referência afetiva, social e linguística no cotidiano da creche e da pré-escola. A análise evidencia que o nome da criança não deve ser compreendido apenas como um recurso para ensinar letras ou antecipar a alfabetização, mas como uma marca de pertencimento, reconhecimento e valorização da história pessoal. Quando trabalhado de forma lúdica, significativa e intencional, o nome próprio favorece a construção de uma autoimagem positiva, amplia as interações entre as crianças e possibilita experiências iniciais com a leitura e a escrita. Conclui-se que as práticas com o nome próprio devem integrar a rotina da Educação Infantil por meio de propostas que respeitem o tempo da criança, sua participação ativa e suas formas de expressão.
Palavras-chave: Educação Infantil. Nome próprio. Identidade. Letramento. Práticas pedagógicas.
1. Introdução
A Educação Infantil é uma etapa fundamental da Educação Básica, pois nela a criança amplia suas experiências sociais, afetivas, corporais, cognitivas e linguísticas. Nesse contexto, as práticas pedagógicas precisam considerar a criança como sujeito ativo, que observa, interage, levanta hipóteses, expressa sentimentos e constrói conhecimentos a partir das relações que estabelece com o meio, com os adultos e com outras crianças.
Entre as diferentes possibilidades de trabalho na creche e na pré-escola, o nome próprio ocupa um lugar especial. Ele não é apenas uma palavra escrita em crachás, fichas ou cartazes. O nome carrega história, afeto, pertencimento familiar e reconhecimento social. Antes mesmo de ingressar na instituição educativa, a criança já escuta seu nome em diferentes situações, identifica objetos marcados com ele e começa a perceber que aquela palavra a representa diante dos outros.
Dessa forma, o trabalho com o nome próprio na Educação Infantil deve ultrapassar a simples repetição de letras ou a cópia mecânica. Ele precisa ser compreendido como uma prática que articula identidade, autonomia, oralidade, convivência e letramento. Ao reconhecer seu nome e o nome dos colegas, a criança começa a perceber a si mesma como parte de um grupo, ao mesmo tempo em que reconhece as diferenças e singularidades dos demais.
O objetivo deste artigo é refletir sobre como o nome próprio pode contribuir para a construção da identidade e para a aproximação da criança com a linguagem escrita na Educação Infantil, considerando práticas pedagógicas significativas, lúdicas e respeitosas ao desenvolvimento infantil.
2. Metodologia
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa. Foram analisados materiais que tratam do trabalho com o nome próprio, da construção da identidade e das práticas de leitura e escrita na Educação Infantil. A escolha dos materiais considerou sua relação direta com o tema e sua contribuição para compreender o nome próprio como elemento pedagógico, social e linguístico.
Os textos analisados dialogam entre si ao defenderem que a criança aprende por meio das interações, das experiências significativas e da mediação intencional do professor. Embora alguns materiais enfatizem mais o processo de alfabetização, a perspectiva adotada neste artigo compreende que, na Educação Infantil, o contato com a escrita deve acontecer de forma lúdica, contextualizada e sem antecipação escolarizante.
3. O nome próprio como marca de identidade
A construção da identidade infantil acontece nas relações que a criança estabelece com o meio social. Na família, na escola e nos grupos de convivência, ela começa a perceber quem é, como é chamada, quais são suas características e como se diferencia dos outros. Nesse processo, o nome próprio tem papel central, pois é uma das primeiras marcas de individualidade e pertencimento.
O nome identifica a criança, aproxima-a de sua história familiar e permite que ela seja reconhecida no grupo. Ao escutar seu nome na chamada, encontrá-lo em seus pertences, vê-lo em cartazes ou relacioná-lo à sua fotografia, a criança passa a compreender que aquela palavra escrita e falada tem relação direta com sua existência social. Assim, o nome próprio ajuda a construir a ideia de “eu” e, ao mesmo tempo, favorece a percepção do “outro”.
Na Educação Infantil, essa dimensão é muito importante, pois a criança está em processo de ampliação de vínculos. A escola representa um espaço diferente da família, no qual ela encontra outras crianças, outros adultos, outras regras de convivência e novas formas de comunicação. Por isso, trabalhar o nome próprio contribui para o acolhimento, para a segurança emocional e para a valorização da singularidade de cada criança.
As práticas com o nome também favorecem a construção da autoestima. Quando o professor valoriza o nome da criança, pergunta sobre sua história, apresenta-o ao grupo e cria situações em que ele aparece com sentido, a criança se sente vista e reconhecida. Esse reconhecimento fortalece sua autonomia e sua participação nas atividades cotidianas.
4. Nome próprio e letramento na Educação Infantil
As crianças vivem em uma sociedade marcada pela presença da escrita. Mesmo antes de aprenderem convencionalmente a ler e escrever, elas observam placas, embalagens, livros, celulares, listas, cartazes, etiquetas e diversos outros textos presentes no cotidiano. Por isso, a Educação Infantil não deve ignorar a linguagem escrita, mas também não deve reduzi-la a exercícios mecânicos de cópia, repetição de letras ou treino de famílias silábicas.
O nome próprio é uma palavra significativa para a criança e pode funcionar como uma referência inicial no contato com a escrita. Diferentemente de palavras soltas e sem relação com sua vida, o nome possui valor afetivo e social. Ao observar sua escrita, a criança começa a perceber que as letras têm uma ordem, que existem diferenças entre nomes, que alguns nomes começam ou terminam com letras semelhantes e que a escrita serve para identificar pessoas e objetos.
Nesse sentido, o trabalho com o nome próprio pode ser compreendido como prática de letramento. Ele aproxima a criança da função social da escrita, pois mostra que escrever não é apenas desenhar letras, mas registrar algo que tem sentido na vida real. O nome identifica produções, organiza pertences, compõe listas, aparece em crachás e ajuda a criança a participar de situações cotidianas de leitura e escrita.
É importante destacar que essa prática não tem como objetivo obrigar a criança a sair da Educação Infantil alfabetizada. O foco deve estar na vivência significativa com a linguagem escrita, respeitando o ritmo de cada criança. O professor pode propor situações em que os nomes apareçam de forma natural na rotina, como na chamada, na organização dos materiais, em jogos de reconhecimento, em rodas de conversa, em músicas, em histórias e em produções coletivas.
5. A mediação do professor e as práticas pedagógicas
O trabalho com o nome próprio exige intencionalidade pedagógica. Isso significa que o professor precisa planejar situações que tenham sentido para as crianças e que favoreçam interações, descobertas e participação ativa. Não basta expor os nomes nas paredes da sala; é necessário criar experiências em que as crianças possam manusear, observar, comparar, escutar, falar e brincar com os nomes.
Entre as possibilidades de prática, destacam-se o uso de crachás com nome e foto, a chamada diária, a roda de conversa sobre o significado dos nomes, a identificação dos pertences, a construção do cartaz dos nomes da turma, jogos de encontrar o próprio nome, comparação da letra inicial, músicas com os nomes das crianças e produção de um livro da identidade. Essas atividades permitem que a criança se reconheça e reconheça os colegas, fortalecendo vínculos e ampliando sua participação no grupo.
O projeto de identidade também pode incluir propostas com espelho, fotografias, desenho do corpo, observação das diferenças físicas, histórias sobre família, brincadeiras de apresentação e conversas sobre gostos, preferências e características pessoais. Dessa maneira, o nome próprio deixa de ser uma atividade isolada e passa a integrar um percurso mais amplo de construção da identidade e da autonomia.
Outro aspecto importante é a parceria com a família. Como o nome nasce em um contexto familiar e afetivo, é interessante envolver os responsáveis em pesquisas simples sobre a escolha do nome da criança, apelidos carinhosos, histórias familiares e registros fotográficos. Essa aproximação fortalece o vínculo entre escola e família e torna o trabalho mais significativo para a criança.
A mediação docente deve evitar práticas que transformem o nome em cópia repetitiva. Pedir que a criança copie o nome várias vezes, sem contexto e sem sentido, pode esvaziar sua potência pedagógica. O mais importante é que o nome apareça em situações reais de uso, nas quais a criança perceba sua função social e possa construir hipóteses sobre a escrita de modo prazeroso.
6. Discussão
Os materiais analisados mostram que o nome próprio reúne três dimensões fundamentais na Educação Infantil: a identitária, a social e a linguística. A dimensão identitária aparece quando o nome possibilita à criança reconhecer-se como sujeito singular. A dimensão social se manifesta nas interações com colegas, professores e familiares. Já a dimensão linguística ocorre quando o nome se torna uma referência para observar letras, sons, tamanhos, semelhanças e diferenças entre palavras.
Essas dimensões não devem ser separadas. O nome próprio não é somente conteúdo de linguagem escrita, assim como também não é apenas um recurso afetivo. Ele é, ao mesmo tempo, uma marca pessoal e um texto significativo. Por isso, seu trabalho pedagógico precisa integrar cuidado e educação, brincadeira e intencionalidade, identidade e letramento.
Também é possível observar que há um ponto de equilíbrio necessário. De um lado, não se deve antecipar práticas rígidas de alfabetização, com cobranças inadequadas para a faixa etária. De outro, não se deve excluir a escrita da Educação Infantil, como se as crianças pequenas não tivessem curiosidade ou capacidade de interagir com ela. O caminho mais adequado é oferecer experiências significativas, nas quais a leitura e a escrita apareçam vinculadas à vida da criança e às suas necessidades de expressão.
Assim, o nome próprio se apresenta como uma excelente possibilidade pedagógica, porque parte de algo conhecido, afetivo e presente na rotina infantil. Ao trabalhar com o próprio nome e com os nomes dos colegas, a criança aprende sobre si, sobre o outro, sobre convivência e sobre a função social da escrita.
7. Considerações finais
O trabalho com o nome próprio na Educação Infantil contribui de forma significativa para a construção da identidade, da autonomia e do letramento das crianças. Quando planejado com intencionalidade, ludicidade e respeito ao desenvolvimento infantil, ele permite que a criança se reconheça como sujeito, valorize sua história e amplie suas relações com o grupo.
O nome próprio deve ser compreendido como uma palavra carregada de sentido. Ele identifica, diferencia, aproxima, acolhe e insere a criança em práticas sociais de leitura e escrita. Por isso, não deve ser tratado apenas como exercício de cópia ou memorização, mas como ponto de partida para experiências ricas de oralidade, expressão, convivência e aprendizagem.
Conclui-se que as práticas com o nome próprio devem fazer parte da rotina da creche e da pré-escola, articuladas a projetos de identidade, rodas de conversa, brincadeiras, músicas, histórias, registros e interações com a família. Desse modo, a Educação Infantil cumpre seu papel de promover o desenvolvimento integral da criança, respeitando sua singularidade e garantindo experiências significativas com a cultura escrita.
Referências
BELUZO, Amanda Ferreira; FARAGO, Alessandra Corrêa. O trabalho com o nome próprio na Educação Infantil. Cadernos de Educação: Ensino e Sociedade, Bebedouro-SP, v. 3, n. 1, p. 100-118, 2016.
BRANDÃO, Ana Carolina Perrusi; LEAL, Telma Ferraz. Alfabetizar e letrar na Educação Infantil: o que isso significa? In: BRANDÃO, Ana Carolina Perrusi; ROSA, Ester Calland de Sousa (org.). Ler e escrever na Educação Infantil: discutindo práticas pedagógicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
SILVA, Bianca Rodrigues; MELO, Claudiana Maria Nogueira de. A letra do meu nome: o trabalho com nome próprio na Educação Infantil como prática de letramento. 2019.
SILVA, Lorena Lisboa da; LISBOA, Rafaela de Santana. Projeto Identidade e Autonomia. São Francisco do Conde: Escola Almir Pinto da Cunha, s.d.

