Buscar artigo ou registro:

 

 

 

Castas morais e inclusão excludente: um modelo analítico da reorganização da exclusão

Clebis Domingos dos Santos Sombra[1]

 

DOI: 10.5281/zenodo.19455373

 

 

RESUMO

Este estudo analisa o fenômeno da “inclusão excludente” como um processo discursivo e político por meio do qual linguagens de reconhecimento, justiça e inclusão podem ser instrumentalizadas para excluir. Parte-se da hipótese de que determinados discursos, sob condições específicas de seletividade narrativa, moralização das relações e distribuição desigual da legitimidade pública, contribuem para a formação do que este trabalho denomina como castas morais. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza teórico-analítica, fundamentada em revisão bibliográfica e na construção de um modelo interpretativo próprio. O estudo articula contribuições de Pierre Bourdieu e Michel Foucault no campo do poder e do discurso, de Hannah Arendt quanto à responsabilidade, ao julgamento e à crise do pensamento, além das análises de Louis Althusser, Zygmunt Bauman, Herbert Marcuse e Arthur Schopenhauer, com vistas à formulação de um modelo analítico estruturado em cinco etapas: seleção parcial da realidade, amplificação moral e emocional, culpabilização coletiva, hierarquização da legitimidade discursiva e exclusão simbólica sob linguagem inclusiva. Argumenta-se que, nesse processo, o debate público tende a deslocar-se da avaliação argumentativa para a classificação moral dos sujeitos, produzindo formas sofisticadas de interdição discursiva, desigualdade de reconhecimento e seletividade ética. Conclui-se que a inclusão excludente não constitui uma anomalia periférica, mas um padrão recorrente de reorganização simbólica da exclusão, cuja compreensão exige uma abordagem crítica das relações entre linguagem, poder, moralidade e pertencimento no espaço público contemporâneo.

 

Palavras-chave: Inclusão excludente. Gramática dominante. Castas morais. Violência simbólica.

 

 

ABSTRACT

This study analyzes the phenomenon of “exclusionary inclusion” as a discursive and political process through which languages ​​of recognition, justice and inclusion can be instrumentalized to exclude. It is based on the hypothesis that certain discourses, under specific conditions of narrative selectivity, moralization of relationships and unequal distribution of public legitimacy, contribute to the formation of what this work calls moral castes. Methodologically, this is a qualitative research of a theoretical-analytical nature, based on a bibliographical review and the construction of its own interpretative model. The study articulates contributions from Pierre Bourdieu and Michel Foucault in the field of power and discourse, from Hannah Arendt regarding responsibility, judgment and the crisis of thought, in addition to the analyzes of Louis Althusser, Zygmunt Bauman, Herbert Marcuse and Arthur Schopenhauer, with a view to formulating an analytical model structured in five stages: partial selection of reality, moral and emotional amplification, collective blame, hierarchization of discursive legitimacy and symbolic exclusion under language inclusive. It is argued that, in this process, public debate tends to shift from argumentative evaluation to the moral classification of subjects, producing sophisticated forms of discursive interdiction, inequality of recognition and ethical selectivity. It is concluded that exclusionary inclusion does not constitute a peripheral anomaly, but a recurring pattern of symbolic reorganization of exclusion, whose understanding requires a critical approach to the relationships between language, power, morality and belonging in contemporary public space.

 

Keywords: Exclusionary inclusion. Dominant grammar. Moral castes. Symbolic violence.

 

 

1.       INTRODUÇÃO

 

Nas últimas décadas, o discurso da inclusão tem ocupado posição central nos debates sociais, políticos e educacionais, sendo amplamente associado à promoção da justiça, da equidade e do reconhecimento de direitos. Em diferentes contextos, a inclusão é apresentada como resposta a desigualdades históricas e como instrumento de integração de grupos socialmente marginalizados (Garcia, 2025).

No entanto, autores e pesquisadores como Hannah Arendt (2013), Herbert Marcuse (2013), Louis Althusser (1985), entre outros, apontam para o fato de que a centralidade desse discurso não impede que ele seja, em determinadas circunstâncias, apropriado e instrumentalizado por estruturas de poder, produzindo efeitos que contradizem seus próprios pressupostos normativos.

O ponto relevante apontado pelos autores citados é que a associação quase automática entre inclusão e emancipação nem sempre se sustenta na prática social. Em determinados contextos, discursos inclusivos podem ser apropriados por estruturas de poder, resultando em contradições nas quais a prática de incluir acaba por normalizar, vigiar ou marginalizar os indivíduos que deveria acolher.

Essa instrumentalização das massas, a partir dos espaços controlados pelo sistema, mormente denominados por Louis Althusser (1985) de Aparelhos Ideológicos do Estado – AIE, transforma o discurso inclusivo em um mecanismo de governamentalidade, muitas vezes associado a um controle biopolítico que atende a interesses de um determinado grupo, uma oligarquia, em vez da emancipação real dos sujeitos (Pagni, 2017).

Nesse sentido, observa-se que determinados processos maniqueístas[2], ao mobilizarem narrativas seletivas de sofrimento e mecanismos de responsabilização coletiva, podem contribuir para a intensificação de antagonismos sociais, mediante a formação e mobilização de sujeitos que operam, a partir dos aparelhos ideológicos do Estado, a divisão entre “nós” e “eles”. Tal lógica, recorrente em contextos de polarização política, é frequentemente utilizada para mobilizar apoio, deslegitimar opositores e enquadrá-los como ameaças morais ou inimigos públicos, fragmentando a alteridade e corroendo as bases do debate democrático.

Tais dinâmicas frequentemente se apoiam, seletivamente, em determinados recortes parciais da realidade, amplificados por apelos emocionais e moralizantes, que tendem a simplificar a complexidade histórica e social em esquemas binários de vítimas e culpados. Como resultado, emergem formas de hierarquização moral e simbólica entre grupos, nas quais a legitimidade social passa a ser distribuída de maneira desigual, com base em critérios identitários, enquadramentos históricos seletivos e regimes diferenciados de reconhecimento (Foucault, 2014; Bourdieu, 1998).

A hipótese, aqui apresentada, de que processos discursivos, ainda que abordem temas relevantes, ao mobilizarem narrativas seletivas de sofrimento e mecanismos de responsabilização coletiva, intensificam antagonismos sociais, encontra respaldo em estudos sobre análise do discurso, polarização política e conflitos sociais (Arendt, 1989). Tais abordagens indicam que a linguagem não apenas expressa tensões já existentes, mas, participa ativamente da produção de identidades antagônicas, da delimitação de fronteiras simbólicas e da legitimação de formas seletivas de reconhecimento e exclusão.

          A articulação entre o discurso manipulador e a ascensão de regimes autoritários reside, para Arendt (1989), na criação de narrativas seletivas que suplantam a verdade dos fatos por ficções políticas divisivas. Ao instrumentalizar apenas os sofrimentos úteis à sua causa, esse mecanismo impõe uma opressão que transcende a esfera pública. Sob a ótica de Fanon (2008), essa dinâmica gera uma alienação psíquica em que o excluído, ao introjetar a perspectiva do opressor, padece de uma identidade fragmentada e desumanizada.

Nesse cenário, torna-se imperativo recorrer a Axel Honneth (2009), cujas pesquisas apontam que a autêntica inclusão social exige o reconhecimento mútuo nas dimensões do direito e da solidariedade. Sob essa perspectiva, a criação de hierarquias discursivas que determinam quem detém a legitimidade da fala configura, em última análise, uma forma de desrespeito moral que fragmenta o tecido social e inviabiliza a paz comum.

Essa fragmentação é agravada pelo que Hannah Arendt (2013) observou em Eichmann em Jerusalém, o maior perigo para a inclusão não é a maldade inerente, mas a incapacidade de pensar. Ao abdicar do pensamento crítico, o indivíduo deixa de julgar a situação concreta e passa, como ilustrado por Schopenhauer (2017) em A Arte de Ter Razão, a utilizar estratégias ad personam. Nesse estágio, o debate abandona o objeto em questão para atacar o interlocutor, de modo que o 'outro' deixa de ser um par e converte-se em um mero rótulo.

O efeito desse método é – caso o desejo de inclusão seja autêntico – diametralmente oposto ao pretendido. Tal dinâmica gera fenômenos complexos, como a “Identificação com o Agressor”, conceito da psicanálise de Sándor Ferenczi (1992) e Anna Freud (2006), ou a “Hospedagem do Opressor” descrita por Paulo Freire (2011). Nesse processo, o indivíduo supostamente “liberto” por uma ideologia acaba por introjetar as práticas autoritárias que combatia, tornando-se um vigilante rigoroso da ortodoxia discursiva e atacando qualquer interlocutor que não se submeta às normas gramaticais ou ideológicas do grupo.

          É por essa razão que Hannah Arendt (1989), em sua análise rigorosa e contextualizada, critica a noção de responsabilidade coletiva. Para a autora, a tendência de culpar um grupo inteiro acaba por anular o julgamento individual, diluindo a agência do sujeito. Arendt defende que a responsabilidade é estritamente pessoal, alertando que o “não-pensar” – a renúncia à capacidade de julgar por si mesmo – é o que permite que indivíduos cumpram ordens ou aceitem narrativas que culminam na maldade coletiva.

          Neste contexto, o regime oferece respostas prontas, o indivíduo para de confrontar a realidade e passa a repetir fórmulas. Para não ser a vítima, assume a mentalidade dominante. Ele passa a ver o mundo com os olhos do “líder”. Como ele não está mais “pensando” (no sentido arendtiano), ele não consegue debater ideias. Resta-lhe apenas o ataque ad personam, passando a rotular o outro como “inimigo do povo”, “traidor” ou “inferior”, para desumanizá-lo.

          Para Arendt (1989), o antagonismo social extremo é fruto da eliminação da pluralidade, a característica de que somos todos diferentes, mas iguais na esfera pública. Ao impor uma narrativa única e culpar um coletivo, elimina-se o espaço para o diálogo e a convivência. O uso de narrativas simplificadas que responsabilizam “inimigos” coletivos permite que indivíduos comuns participem de antagonismos intensos sem pensar nas consequências, um processo descrito pela autora como a banalidade do mal.

É nesse contexto que se insere o problema central deste estudo: em que medida o discurso da inclusão, ao ser instrumentalizado pelos Aparelhos Ideológicos do Estado – AIE (Althusser, 1985), opera por meio da interpelação do sujeito? Nessa dinâmica, a ideologia não apenas se impõe, mas convence o indivíduo de que seu papel é o de vigilante de uma nova norma, funcionando não como ampliação da participação, mas como dispositivo de exclusão simbólica. Parte-se da hipótese de que a inclusão pode assumir um caráter paradoxal, reorganizando a exclusão sob o manto de novas justificativas morais e discursivas.

Nessa dinâmica, observa-se a constituição do que este estudo denomina como castas morais. Trata-se de uma distribuição desigual de capital simbólico (Bourdieu, 1989), que estabelece uma hierarquia de legitimidade ética no espaço social. Nesse arranjo, determinados grupos passam a ocupar posições de superioridade moral presumida, enquanto outros são estigmatizados por meio de categorias pejorativas e convertidos em sujeitos discursivamente culpabilizados ou deslegitimados.

Para investigar essa hipótese, propõe-se um modelo analítico estruturado em etapas que permitem decodificar a transição da construção narrativa aos seus efeitos sociais. O modelo busca evidenciar como a seleção arbitrária de eventos, a imposição de culpabilidade coletiva e a moralização das relações contribuem para a produção de antagonismos, mesmo quando tais práticas estão ancoradas em discursos que se reivindicam inclusivos.

Do ponto de vista teórico, o estudo estabelece um diálogo transversal entre a sociologia e a filosofia social, mobilizando as contribuições de Pierre Bourdieu sobre o poder simbólico e Michel Foucault (2014) acerca da produtividade do discurso; as análises de Louis Althusser e Herbert Marcuse sobre a interpelação ideológica e a tolerância repressiva; e as reflexões de Hannah Arendt e Zygmunt Bauman sobre a crise do pensamento e a produção de 'outsiders'.

Somam-se a este escopo as táticas de deslegitimação discursiva de Arthur Schopenhauer, oferecendo, em conjunto, o suporte conceitual para investigar como sistemas de classificação operam como dispositivos de exclusão, mesmo quando revestidos de uma intencionalidade emancipatória.

A relevância deste trabalho reside na oferta de uma lente crítica sobre o uso contemporâneo das narrativas sociais, iluminando as contradições dos discursos de inclusão. Ao evidenciar que tais dinâmicas não são exclusivas de um espectro ideológico ou período histórico, mas constituem padrões recorrentes na experiência humana, o estudo propõe uma reflexão rigorosa sobre a responsabilidade ética do discurso e seus impactos na produção de pertencimento ou fragmentação social.

Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza teórico-analítica, fundamentada na revisão bibliográfica e na construção de um modelo interpretativo original. Longe de pretender esgotar o tema, o objetivo é consolidar uma estrutura conceitual que permita problematizar os fenômenos de interdição e hierarquização nas dinâmicas sociais contemporâneas.

 

 

2.       FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

2.1.    Discurso e poder: contribuições de Michael Foucault (2014)

A relação entre discurso e poder constitui um dos eixos centrais para a compreensão das dinâmicas sociais contemporâneas. Para Foucault, o discurso não deve ser entendido meramente como um instrumento de comunicação, mas como um elemento constitutivo das próprias relações de poder. Ele participa ativamente da construção do mundo social, definindo o que pode ser dito, pensado e reconhecido como verdade (GARRÉ; VIEIRA, 2021).

Conforme observam Garré e Vieira (2021), em análise à obra “A Ordem do Discurso” de Michael Foucault (2014), a produção discursiva nas sociedades humanas é atravessada por procedimentos de seleção e controle. Tais mecanismos visam domesticar o discurso e selecionar quais sujeitos detêm a legitimidade para pronunciá-lo, sob a égide de uma suposta originalidade ou busca por significações ocultas.

Não é sem causa que Michael Foucault, ao longo de suas pesquisas e obras, aponta para inúmeros mecanismos discursivos de controle, motivo pelo qual Diego Trujillo et al (2021, p. 14), comentando sobre a “rede de instituições de vigilância e de correção que perpassa toda a sociedade”  destacam que “[...] essa sociedade, a que Foucault chama de sociedade disciplinar, vive na idade da ortopedia social, pois essa virtualidade a que se fez referência caminha conjuntamente com determinadas formas de controle”.

Complementando essa perspectiva, Ketzer (2020) indica que, para Foucault, o poder se exerce de maneira difusa, atravessando práticas, saberes e linguagens. Esse fenômeno manifesta-se na criação de “tabus” e no silenciamento de vozes, estabelecendo segredos estratégicos com a finalidade de controle social. Assim, determinados discursos, ao se legitimarem como regimes de verdade, passam a exercer uma função normativa que orienta comportamentos e delimita identidades.

Como advertem Carvalho, Silva e Oliveira (2023), essa necessidade de hierarquizar o valor e as capacidades dos indivíduos expandiu-se para além das instituições disciplinares tradicionais, mantendo o foco no controle e na vigilância. No contexto deste estudo, a abordagem foucaultiana permite analisar como discursos de inclusão podem ser mobilizados como dispositivos de poder, produzindo efeitos que vão além da integração e contribuindo para a cristalização de antagonismos e hierarquias simbólicas.

 

2.2.    Violência simbólica e legitimação da exclusão em Pierre Bourdieu

A noção de violência simbólica, desenvolvida por Pierre Bourdieu, oferece uma contribuição essencial para a compreensão dos mecanismos sutis de reprodução das desigualdades. Diferentemente da coerção física, a violência simbólica opera de maneira invisível e naturalizada, exercida por meio de sistemas de significação e práticas culturais que legitimam hierarquias sociais (Duhau; Brandão, 2017).

Conforme apontam Duhau e Brandão (2017), essa forma de poder caracteriza-se pela capacidade de impor classificações que são reconhecidas como legítimas tanto por dominantes quanto por dominados. Assim, as estruturas de dominação mantêm-se pela internalização de categorias que organizam a percepção da realidade social. Para Bourdieu, o poder simbólico atua como um instrumento de construção da realidade.

          Para Pierre Bourdieu (1989):

 

Esses [sistemas simbólicos] impõem ou legitimam uma dominação, além de contribuírem para assegurar a influência de uma classe sobre a outra (violência simbólica), contribuindo assim para aquilo que Max Weber (1999) chamou de “domesticação dos dominados” (apud Duhau; Brandão, 2017).

 

A construção da realidade, apontada por Pierre Bourdieu (1989) e citada na pesquisa de Duhau e Brandão (2017), é estabelecida no discurso que norteia o poder simbólico, e divide a sociedade por meio de uma hierarquização moral dos atores. Frequentemente, esse processo de formação de castas morais – decorrente de estratégias de inclusão excludente – parte de instituições que deveriam, em tese, mediar o conflito social.

Conforme aponta Silva (2024), o sistema pedagógico muitas vezes exerce uma violência simbólica que subjuga o estudante a padrões éticos arbitrários da classe dominante. Ao introjetar essa “gramática moral” de forma compulsória, o indivíduo passa a atuar como um vigilante da ortodoxia vigente, reagindo com hostilidade a qualquer perspectiva que desvie da verdade imposta pela estrutura de poder.

Aplicado ao fenômeno apontado por Pierre Bourdieu aqui estudado, o conceito de violência simbólica permite compreender como discursos que se reivindicam inclusivos podem, simultaneamente, reforçar hierarquias ao estabelecer critérios implícitos de legitimidade que apenas alguns grupos conseguem atender, produzindo novas formas de exclusão sob o manto do reconhecimento.

 

2.3.    Modernidade e produção de “outsiders” em Zygmunt Bauman (1999)

As reflexões de Zygmunt Bauman (1999) sobre a modernidade oferecem elementos cruciais para a compreensão da produção social da exclusão. Para o autor, os processos modernos de organização não apenas integram indivíduos, mas produzem sistematicamente categorias de rejeição, criando o que ele denomina como “refugo humano” – grupos sentenciados à superfluidade funcional e moral.

          Conforme observam Vieira e Mesquita (2026), essa produção de resíduos humanos alcança sujeitos que, por não atenderem aos imperativos de consumo, acabam “inimaginados” e excluídos. No entanto, contraditoriamente, são esses mesmos indivíduos que suportam os maiores impactos sistêmicos, ou seja:

 

[...] sofrem com os impactos ocasionados pelos resíduos e/ou rejeitos gerados. Seja como um refugo e/ou hospedeiro desse sistema parasitário, os sujeitos que não pertencem a classe mais abastada da sociedade tendem a ser culpabilizados pelos fracassos e dilemas enfrentados na atualidade [...] (Vieira; Mesquita, 2026, p. 7).

 

          Essa fabricação de outsiders opera por meio de uma hierarquização moral. Através de uma gramática que define o “puro” e o “impuro”, os refugos humanos são empurrados para uma casta moral inferior, tornando-se figuras cuja exclusão é apresentada como necessária para a manutenção da ordem. Convertem-se, assim, em “hilotas modernos”, sujeitos destituídos de direitos simbólicos, cujas injustiças sofridas são frequentemente justificadas em nome do bem comum.

Bauman (1999) argumenta que a modernidade, em sua busca obsessiva por classificação e controle, gera inevitavelmente fronteiras. Para Almeida e Vaz (2025), eventos extremos como o Holocausto não foram rupturas da ordem, mas o resultado do “impecável e indiscutível império” desta, uma tentativa radical de eliminar a ambivalência da vida humana em prol de uma perfeição artificial.

No âmbito deste estudo, a perspectiva de Bauman (1999) evidencia que a produção de outsiders não é um erro de percurso, mas uma engrenagem constitutiva das dinâmicas sociais. Essa lógica é intensificada por discursos que, sob o manto da inclusão, operam uma seletividade perversa, reforçando mecanismos de exclusão contra aqueles que não se enquadram no design projetado pela ortodoxia vigente.

 

2.4.    Tolerância repressiva e seletividade moral em Herbert Marcuse

A crítica de Herbert Marcuse à noção de tolerância liberal oferece uma chave interpretativa fundamental para compreender a seletividade dos discursos contemporâneos. Marcuse (1965) argumenta que, em sociedades industriais avançadas, a tolerância pode assumir um caráter repressivo ao proteger o status quo sob o manto de uma falsa neutralidade, permitindo a hegemonia de certas ideias enquanto deslegitima vozes dissonantes.

Segundo Marcuse, a tolerância ilimitada acaba por servir à dominação, pois não distingue entre discursos emancipatórios e discursos de opressão. Nesse cenário, a liberdade de expressão é instrumentalizada para a manutenção da alienação, mediada pelos mecanismos da Indústria Cultural. Conforme destaca Ceará (2018), há uma simbiose entre manipulação e o estabelecimento de uma falsa tolerância:

 

[...] as forças que cooptam o esforço humano para a propagação cada vez mais hegemônica da técnica e tecnologia se encontram tanto no trabalho alienado que o indivíduo estabelece como seu ofício, como também nos mais diversos componentes da indústria cultural” (Ceará, Matheus, 2018, p. 35).

 

Em sua pesquisa, Ceará (2018) aponta para o mecanismo pelo qual a tolerância repressiva, descrita por Herbert Marcuse (1965), estabelece-se e é assimilada, gerando alienação. A Indústria Cultural – um conceito forjado por Adorno e Horkheimer – atua como o braço logístico dessa tolerância, padronizando as representações artísticas e políticas em prol da produção em massa.

Todavia, essa dinâmica estende-se a toda a sociedade por meio de outros poderosos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), como a mídia e a escola, não promovendo o pluralismo real, mas estabelecendo limites implícitos sobre o que é considerado “aceitável” no debate público. O resultado é a marginalização de grupos não por coerção direta, mas por meio de uma interdição simbólica de suas vozes.

No contexto da “inclusão excludente”, a noção de tolerância repressiva revela o paradoxo central deste estudo: discursos que se apresentam como inclusivos operam de maneira seletiva, silenciando perspectivas rotuladas como “inadequadas”. Assim, a tolerância deixa de ser um valor ético de acolhimento para tornar-se um filtro ideológico que reforça hierarquias morais e valida a exclusão de quem não se submete à gramática dominante.

 

2.5.    Dialética erística e deslegitimação ad personam em Arthur Schopenhauer

A dinâmica de exclusão discursiva encontra em Schopenhauer um instrumental técnico relevante para a compreensão do embate retórico em sua dimensão pragmática, bem como para a análise do estabelecimento de uma gramática dominante. Em sua obra A Arte de Ter Razão, Schopenhauer descreve a dialética erística não como a busca pela verdade, mas como a técnica de vencer uma disputa independentemente da validade objetiva dos argumentos (Oliveira, 2023).

Neste estudo, a erística é interpretada como mecanismo compatível com os AIE, na medida em que contribui para a estabilização de uma gramática dominante que condiciona quem detém legitimidade discursiva. Nesse cenário, a exclusão tende a operar por meio das “regras do jogo” discursivo às quais os sujeitos são pressionados a aderir para obter reconhecimento e aceitabilidade social. Aqueles que não dominam essa gramática, ou que a ela resistem, podem ser progressivamente estigmatizados como sujeitos morais ou simbolicamente inadequados.

No processo de constituição de castas morais, o recurso ao estratagema ad personam ocupa papel relevante, na medida em que desloca o foco do debate do conteúdo argumentativo para a desqualificação ética do interlocutor. Essa dinâmica pode ser reforçada por fórmulas simbólicas e slogans historicamente legitimados, como Liberté, Égalité, Fraternité ou “Ordem e Progresso”, que, embora portadores de forte densidade normativa, também podem ser reapropriados em contextos específicos como dispositivos de neutralização do dissenso.

Diferentemente do argumento ad hominem, que busca contradições nas afirmações do adversário, o ataque ad personam abandona o objeto do debate para desqualificar o interlocutor enquanto sujeito ético. Essa transição do debate de ideias para a “interdição do sujeito” constitui um mecanismo prático de produção de rótulos, no qual a legitimidade da fala passa a ser condicionada à pureza presumida do emissor, e não à consistência de seu argumento.

Nesse sentido, a contribuição de Schopenhauer revela-se essencial para compreender como o estabelecimento de hierarquias e castas morais determina quem detém o direito de fala e quem é progressivamente silenciado no espaço público. Tal dinâmica permite identificar como a incapacidade de pensar e a interpelação ideológica podem materializar-se em táticas de interdição discursiva. Nesses contextos, o discurso supostamente inclusivo passa a mobilizar expedientes erísticos para operar a exclusão simbólica, convertendo o outro em um rótulo pejorativo e desumanizando-o antes mesmo que sua fala seja efetivamente considerada.

A articulação desses aportes teóricos revela que a “inclusão excludente” não constitui apenas uma contradição prática, mas um mecanismo sofisticado de reorganização simbólica da exclusão. Contudo, para que essa hipótese não seja interpretada de forma genérica ou impressionista, torna-se necessário delimitar com maior precisão as categorias analíticas mobilizadas neste estudo, bem como explicitar as cautelas metodológicas que orientam sua utilização.

 

 

3.       DELIMITAÇÃO CONCEITUAL E NOTA METODOLÓGICA

 

3.1.    O que se entende por “castas morais”?

O conceito de castas morais, proposto neste estudo, não se refere a castas no sentido clássico, jurídico ou hereditário, tal como encontrado em determinadas formações histórico-sociais. Trata-se, antes de tudo, de uma categoria analítica de natureza simbólico-discursiva, destinada a descrever processos de hierarquização moral que se estabelecem no interior do espaço público contemporâneo.

Nesse sentido, “castas morais” designa a constituição de posições assimétricas de legitimidade ética e discursiva, nas quais certos sujeitos ou grupos passam a ser percebidos como intrinsecamente mais autorizados a falar, interpretar, acusar ou representar a verdade moral de determinado contexto social. Em contrapartida, outros grupos são progressivamente deslocados para zonas de suspeição, inferiorização simbólica ou desqualificação prévia.

Essa hierarquização não se funda, necessariamente, em critérios jurídicos ou formais, mas em mecanismos difusos de reconhecimento seletivo, nos quais atributos identitários, narrativas históricas parciais, performances discursivas e adesões ideológicas passam a operar como marcadores de “pureza”, “consciência” ou “legitimidade”. Nessas circunstâncias, a posição ocupada pelo sujeito no debate público tende a preceder a avaliação objetiva de seus argumentos.

A expressão, portanto, busca nomear um fenômeno em que o valor da fala é deslocado do conteúdo argumentativo para a posição moral presumida do enunciador. Tal deslocamento produz uma ordem simbólica na qual a escuta pública se torna seletiva, e a crítica dirigida a determinados grupos é aceita como legítima, enquanto a mesma crítica, quando emitida por outros sujeitos, é imediatamente desqualificada como ilegítima, ofensiva ou estruturalmente suspeita.

A utilidade heurística do conceito reside justamente em permitir a leitura de formas contemporâneas de exclusão que já não operam, predominantemente, pela interdição explícita, mas por meio da estratificação moral da legitimidade discursiva. Assim, as “castas morais” não são entendidas como entidades fixas, mas como efeitos dinâmicos de regimes de classificação, continuamente produzidos, reforçados e disputados no interior das relações sociais.

 

3.2.    Nota metodológica: entre crítica social e generalização indevida.

A abordagem parte do pressuposto de que categorias críticas, ao serem mobilizadas na análise de fenômenos sociais, exigem delimitação rigorosa de escopo, sob pena de se converterem em generalizações indevidas ou em fórmulas de denúncia indiscriminada. Por essa razão, este estudo não sustenta que todo discurso de inclusão seja, em si, excludente, nem que toda política de reconhecimento implique, necessariamente, reorganização simbólica da exclusão.

O objetivo analítico consiste, mais modestamente e com maior rigor, em identificar condições específicas sob as quais discursos inclusivos podem ser instrumentalizados por estruturas de poder, instituições ou coletivos sociais, produzindo efeitos contrários à ampliação do pluralismo e do reconhecimento mútuo. Em outras palavras, o foco não está na negação da inclusão como valor normativo, mas na investigação de suas possíveis distorções operacionais.

Nesse sentido, o presente artigo trabalha com categorias como “gramática dominante”, “castas morais” e “inclusão excludente” não como descrições totalizantes da realidade social, mas como ferramentas interpretativas de caráter crítico, úteis para a análise de contextos nos quais a linguagem passa a funcionar menos como mediação democrática e mais como filtro moral de pertencimento e exclusão.

Essa precaução metodológica é particularmente relevante em um cenário marcado por elevada polarização política e por disputas simbólicas intensas, nas quais a crítica a determinados dispositivos de poder pode ser apressadamente interpretada como rejeição ao valor ético da justiça social ou da inclusão. Ao contrário, o que se busca aqui é justamente preservar a densidade ética da inclusão, distinguindo-a de suas apropriações instrumentais, seletivas ou performáticas.

Desse modo, a crítica desenvolvida neste estudo não se dirige a sujeitos, grupos ou causas específicas em si mesmas, mas a formas de funcionamento discursivo que podem emergir em diferentes contextos históricos, ideológicos e institucionais. Tal escolha metodológica visa assegurar que a análise permaneça no campo da inteligibilidade crítica, evitando tanto o reducionismo militante quanto a neutralização acrítica dos conflitos sociais.

 

3.3.    Estruturas de poder e seletividade: uma observação sobre o uso do termo “oligarquia”.

No presente estudo, o uso eventual de expressões como “oligarquia”, “grupo dominante” ou “estrutura hegemônica” não deve ser compreendido em sentido conspiratório, personalista ou estritamente institucional. Tais expressões são mobilizadas em seu valor analítico mais amplo, isto é, para designar arranjos relativamente estáveis de concentração de poder simbólico, político, cultural ou discursivo, capazes de influenciar os critérios de visibilidade, legitimidade e aceitabilidade no espaço público.

Sob essa perspectiva, a noção de “oligarquia” não se restringe a elites econômicas ou a agentes formalmente investidos de autoridade, mas pode incluir coalizões difusas de poder, compostas por instituições, discursos legitimados, mediadores culturais, operadores simbólicos e dispositivos normativos que, articulados entre si, condicionam os regimes de reconhecimento social. Trata-se, portanto, menos da identificação de sujeitos específicos e mais da análise de formas de concentração e administração da legitimidade.

A opção por essa linguagem decorre da compreensão de que a exclusão contemporânea frequentemente não se realiza apenas pela força direta ou pela proibição explícita, mas por mecanismos mais sutis de curadoria moral do aceitável. Em tais contextos, certos grupos ou posições conseguem definir quais dores serão reconhecidas, quais memórias serão publicamente autorizadas, quais vozes serão investidas de credibilidade e quais discursos serão previamente marcados como ilegítimos.

Ainda assim, para evitar leituras reducionistas, importa frisar que este artigo não atribui tais processos a uma entidade única, centralizada ou monolítica. Ao contrário, reconhece-se que as dinâmicas de exclusão simbólica tendem a operar de maneira capilar, relacional e institucionalmente distribuída, conforme sugerem as contribuições de Foucault (2014), Bourdieu (1989) e Althusser (1985). Assim, o foco da análise recai menos sobre “quem controla tudo” e mais sobre como determinados regimes de classificação e autoridade se estabilizam e se reproduzem no interior da vida social.

Essa distinção é importante porque permite preservar a densidade crítica da análise sem incorrer em simplificações personalistas. O interesse deste estudo, portanto, não está em imputar causalidade absoluta a um suposto centro oculto de comando, mas em compreender como certas formações discursivas, ao se institucionalizarem, passam a exercer efeitos excludentes, mesmo quando se apresentam sob a linguagem da inclusão, da justiça ou do reconhecimento.

Uma vez delimitadas as categorias centrais e explicitadas as precauções metodológicas que orientam esta análise, torna-se possível deslocar a discussão do plano estritamente conceitual para a formulação de um esquema interpretativo mais sistemático. Nessa direção, o capítulo seguinte apresenta um modelo analítico da inclusão excludente, organizado em etapas, com vistas a demonstrar como processos de seleção narrativa, moralização das relações, distribuição desigual da legitimidade discursiva e interdição simbólica podem articular-se na reorganização contemporânea da exclusão.

 

 

4.       PROPOSIÇÃO DE UM MODELO ANALÍTICO DA INCLUSÃO EXCLUDENTE

 

A partir da articulação teórica desenvolvida nas seções anteriores e das delimitações conceituais e metodológicas já estabelecidas, propõe-se, neste capítulo, um modelo analítico da inclusão excludente. O objetivo não é formular uma tipologia rígida ou universalizante, mas oferecer um esquema interpretativo capaz de auxiliar na leitura de contextos nos quais discursos de reconhecimento, justiça ou inclusão passam a operar como dispositivos de hierarquização moral, seletividade simbólica e exclusão discursiva.

O modelo, aqui sugerido, parte do pressuposto de que a exclusão contemporânea nem sempre se manifesta por meio da proibição explícita, da violência direta ou da marginalização formal. Em muitos casos, ela se reorganiza sob formas mais sofisticadas e legitimadas, funcionando por meio da produção seletiva de visibilidade, da moralização assimétrica das relações, da distribuição desigual da credibilidade pública e da interdição simbólica de sujeitos e argumentos. Nesse sentido, a inclusão excludente pode ser compreendida como um processo em etapas, no qual determinados discursos se apresentam como emancipatórios, mas produzem efeitos de fechamento, vigilância e estratificação moral.

Para fins analíticos, propõe-se a identificação de cinco movimentos articulados, que não precisam ocorrer sempre de forma linear ou isolada, mas que tendem a se reforçar mutuamente no interior das dinâmicas sociais observadas.

 

4.1.    Primeira etapa: seleção parcial da realidade

A primeira etapa do modelo consiste na seleção parcial da realidade. Todo discurso social, político ou institucional opera a partir de recortes, enquadramentos e escolhas narrativas. No entanto, em contextos de inclusão excludente, essa seleção deixa de ser apenas uma condição inevitável da linguagem e passa a funcionar como mecanismo estratégico de construção de legitimidade moral.

Nesse processo, certos fatos, memórias, sofrimentos ou experiências históricas são destacados como centrais, enquanto outros são minimizados, silenciados ou excluídos do campo da inteligibilidade pública. Não se trata, portanto, apenas de enfatizar determinados aspectos da realidade, mas de instituir uma economia seletiva da visibilidade, na qual algumas dores adquirem reconhecimento ampliado e outras permanecem socialmente opacas.

Essa seleção narrativa não é neutra. Ela opera como base para a construção de fronteiras simbólicas entre sujeitos reconhecíveis e sujeitos dispensáveis, entre experiências autorizadas e experiências suspeitas. Ao definir quais histórias merecem atenção e quais podem ser ignoradas, o discurso estabelece as condições iniciais para a distribuição desigual da empatia, da credibilidade e da legitimidade pública.

No contexto deste estudo, essa etapa é fundamental porque constitui o ponto de partida da reorganização simbólica da exclusão: antes de interditar diretamente o outro, é preciso primeiro definir quais partes da realidade serão consideradas relevantes e quais serão descartadas como moralmente secundárias, inconvenientes ou politicamente inoportunas.

 

4.2.    Segunda etapa: amplificação moral e emocional

A segunda etapa consiste na amplificação moral e emocional dos recortes narrativos previamente selecionados. Uma vez definidos os acontecimentos, sujeitos ou experiências que serão elevados à centralidade discursiva, opera-se um processo de intensificação simbólica, por meio do qual esses elementos passam a ser investidos de forte carga afetiva e moralizante.

Nesse estágio, a linguagem deixa de apenas descrever a realidade e passa a organizá-la em termos de urgência ética, pureza moral, inocência presumida e indignação legítima. O sofrimento reconhecido é elevado à condição de fundamento absoluto de autoridade simbólica, e a crítica ao enquadramento estabelecido passa a ser facilmente percebida como insensibilidade, cumplicidade ou ameaça moral.

A amplificação moral e emocional não é, em si, ilegítima. Toda vida social envolve afetos, disputas de sentido e mobilização de sensibilidades coletivas. O problema emerge quando essa intensificação simbólica deixa de abrir espaço para a complexidade e passa a funcionar como mecanismo de blindagem interpretativa, dificultando o contraditório e tornando suspeita qualquer tentativa de nuance, ponderação ou recontextualização.

Nesse ponto, a crítica racional tende a ser substituída por uma lógica de adesão afetiva. O que está em jogo já não é apenas a análise do problema, mas a demonstração pública de alinhamento moral com a gramática dominante. Assim, a emoção, em vez de contribuir para a ampliação da sensibilidade ética, pode converter-se em instrumento de pressão conformadora, funcionando como etapa decisiva na consolidação da inclusão excludente.

 

4.3.    Terceira etapa: culpabilização coletiva e simplificação antagonista

A terceira etapa do modelo é a culpabilização coletiva, frequentemente acompanhada pela simplificação antagonista das relações sociais. Uma vez que a realidade foi seletivamente enquadrada e moralmente intensificada, torna-se possível atribuir responsabilidade ampliada a grupos, posições ou identidades inteiras, independentemente da complexidade concreta das trajetórias individuais.

Nesse processo, o debate público tende a abandonar distinções entre responsabilidade individual, participação estrutural, herança histórica e agência moral concreta, substituindo-as por esquemas mais simples e funcionalmente eficazes de identificação entre “culpados” e “inocentes”, “conscientes” e “alienados”, “aliados” e “inimigos”. Trata-se de um movimento que favorece a inteligibilidade imediata do conflito, mas ao custo da redução drástica da complexidade social.

Essa etapa é particularmente perigosa porque permite a consolidação de fronteiras morais rígidas, nas quais a pertença a determinados grupos passa a operar como índice suficiente de legitimidade ou suspeição. Nessa lógica, o indivíduo deixa de ser avaliado prioritariamente por seus atos, argumentos ou escolhas concretas, passando a ser interpretado a partir de sua localização presumida em um mapa moral previamente estruturado.

A culpabilização coletiva, tal como discutido anteriormente a partir de Arendt, representa um ponto de inflexão importante no processo da inclusão excludente. É nesse momento que o reconhecimento deixa de funcionar como ampliação do campo de justiça e passa a operar como instrumento de redistribuição seletiva da culpa, produzindo antagonismos duradouros e tornando mais provável a emergência de mecanismos de exclusão legitimados em nome da reparação, da consciência histórica ou da pureza ética.

 

4.4.    Quarta etapa: hierarquização da legitimidade discursiva

A quarta etapa corresponde à hierarquização da legitimidade discursiva, momento em que o processo deixa de operar apenas no nível dos conteúdos e passa a atingir diretamente a estrutura da fala pública. Aqui, o problema já não diz respeito apenas ao que pode ser dito, mas, sobretudo, a quem pode dizer, em quais condições, com qual grau de credibilidade e sob quais limites de aceitabilidade.

Nesse estágio, consolidam-se as chamadas castas morais: posições assimétricas de autorização simbólica em que determinados sujeitos ou grupos passam a ser investidos de legitimidade ampliada para nomear a realidade, interpretar conflitos, denunciar opressões e definir os critérios do aceitável. Em contrapartida, outros passam a ocupar lugares de fala previamente fragilizados, suspeitos ou condicionados.

A consequência direta do processo é a substituição progressiva do debate argumentativo por um regime de credibilidade hierarquizada, no qual a validade da fala depende menos de sua coerência interna e mais da posição moral presumida do enunciador. A escuta pública torna-se, assim, seletiva: certas vozes são recebidas com presunção de legitimidade, enquanto outras precisam, antes mesmo de serem ouvidas, justificar sua própria existência discursiva.

É precisamente nesse ponto que a inclusão excludente se torna mais sofisticada, pois passa a operar não por exclusão formal, mas por desigualdade estrutural de inteligibilidade e reconhecimento. A interdição já não precisa ser absoluta; basta que certos sujeitos sejam continuamente empurrados para zonas de menor credibilidade, menor escuta e maior vulnerabilidade simbólica.

 

4.5.    Quinta etapa: exclusão simbólica sob linguagem inclusiva

A quinta e última etapa consiste na consolidação da exclusão simbólica sob linguagem inclusiva. Aqui, o processo atinge seu grau máximo de eficácia, precisamente porque já não se apresenta como exclusão, mas como forma moralmente legitimada de proteção, reparação, cuidado ou justiça.

Nesse estágio, mecanismos de silenciamento, deslegitimação, estigmatização e marginalização passam a ser operacionalizados sob o vocabulário da sensibilidade ética e do compromisso com o bem comum. A exclusão torna-se mais difícil de ser reconhecida justamente porque passa a se expressar sob formas socialmente valorizadas, revestidas de legitimidade moral e, muitas vezes, institucionalmente respaldadas.

Essa é a lógica paradoxal que sustenta a noção de inclusão excludente: não se trata de uma negação frontal do ideal de inclusão, mas de sua reconfiguração instrumental em chave seletiva. O discurso continua afirmando abertura, pluralismo e reconhecimento; no entanto, na prática, passa a operar filtros morais, critérios assimétricos de aceitabilidade e mecanismos de interdição que reorganizam a exclusão sob novas justificativas.

O resultado é a formação de um espaço público aparentemente sensível à justiça, mas progressivamente menos capaz de acolher dissenso, pluralidade real e confronto argumentativo genuíno. Em vez de ampliar a convivência democrática, a linguagem da inclusão pode, em determinadas condições, converter-se em tecnologia de vigilância simbólica, classificação moral e contenção discursiva.

 

4.6.    Síntese interpretativa do modelo

O modelo analítico aqui proposto permite compreender a inclusão excludente não como um evento isolado ou uma anomalia pontual, mas como um processo relacional e cumulativo, cuja eficácia depende da articulação entre enquadramento narrativo, intensificação moral, culpabilização ampliada, hierarquização da fala e exclusão legitimada.

Mais do que uma sequência fechada, trata-se de um circuito interpretativo útil para a leitura de contextos nos quais a linguagem pública deixa de operar prioritariamente como espaço de mediação e passa a funcionar como mecanismo de classificação ética e controle. Sua principal contribuição reside em tornar visíveis processos que, justamente por se apresentarem sob signos positivos – inclusão, justiça, reconhecimento, cuidado –, tendem a escapar da crítica imediata.

Do ponto de vista analítico, a utilidade do modelo está em oferecer uma ferramenta conceitual capaz de ser aplicada, em pesquisas futuras, a diferentes campos de investigação, como políticas educacionais, discursos midiáticos, práticas institucionais, ambientes digitais e disputas de reconhecimento no espaço público. Sua função, portanto, não é encerrar o debate, mas abrir um campo mais preciso de observação crítica.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O presente estudo teve como objetivo analisar o fenômeno da “inclusão excludente” como um processo discursivo e político capaz de reorganizar a exclusão sob o manto de princípios emancipatórios. A partir do diálogo entre diferentes tradições da sociologia e da filosofia social, foi possível demonstrar que a linguagem, longe de operar apenas como meio de comunicação, constitui um elemento central na produção, legitimação e reprodução de hierarquias simbólicas.

A análise evidenciou que a inclusão, embora permaneça como valor normativo relevante, pode assumir, em determinadas condições, um caráter paradoxal, funcionando como mecanismo de seletividade moral, distribuição desigual de legitimidade e interdição discursiva. Nesse contexto, a noção de castas morais mostrou-se útil para descrever a formação de posições assimétricas de autoridade simbólica, nas quais o valor da fala passa a depender menos da consistência argumentativa e mais da posição moral presumida do enunciador.

Como principal contribuição do estudo, propôs-se um modelo analítico da inclusão excludente estruturado em cinco etapas: seleção parcial da realidade, amplificação moral e emocional, culpabilização coletiva, hierarquização da legitimidade discursiva e exclusão simbólica sob linguagem inclusiva. Esse modelo permite compreender a exclusão não apenas como ausência de inclusão, mas como um processo ativo de reorganização simbólica que opera no interior da própria linguagem do reconhecimento.

Do ponto de vista teórico, o estudo contribui para o aprofundamento das discussões sobre discurso, poder e moralidade, ao articular categorias clássicas – como violência simbólica, interpelação ideológica e produção de outsiders – a uma proposta interpretativa própria. Do ponto de vista analítico, oferece uma ferramenta que pode ser aplicada à investigação de fenômenos contemporâneos em diferentes campos, como políticas educacionais, discursos midiáticos, dinâmicas institucionais e interações em ambientes digitais.

Por fim, reconhece-se que este trabalho não esgota a complexidade do tema, mas abre possibilidades para investigações futuras, especialmente no que diz respeito à aplicação empírica do modelo proposto. Nesse sentido, sugere-se o desenvolvimento de pesquisas que explorem, em contextos específicos, como a linguagem da inclusão pode ser mobilizada na produção de exclusões legitimadas, contribuindo para uma compreensão mais crítica das dinâmicas contemporâneas de reconhecimento e pertencimento.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ALMEIDA, F; VAZ, A. [2025]. Educação crítica e modernidade líquida: Bauman leitor de Adorno. Disponível em:

http://educa.fcc.org.br/pdf/praxeduc/v20/1809-4309-praxis-20-e24664.pdf. Acesso em: 28 mar. 2026.

 

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado: notas sobre os aparelhos ideológicos do Estado (AIE). Tradução de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. 10. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

 

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: anti-semitismo, imperialismo, totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

 

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia de Bolso, 2013.

 

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

 

BOURDIEU, Pierre. Contrafogos: táticas para enfrentar a invasão neo-liberal. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

 

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.

 

CEARÁ, M. [2018]. A crítica de Herbert Marcuse à racionalidade técnica na sociedade industrial avançada. Disponível em:

 https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/24521/3/CríticaHerbertMarcuse.pdf. Acesso em: 29 mar. 2026.

 

DUHAU; BRANDÃO. [2017]. Ele no pescoço: A violência simbólica de Pierre Bourdieu e o uso de coleira por parte das mulheres durante o carnaval. Disponível em:

https://www.unieuro.edu.br/sitenovo/revistas/revista_hegemonia_22/Rodrigo%20Duhau%20e%20Iolanda%20Bezerra%20(5).pdf. Acesso em: 27 mar. 2026.

 

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

 

FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança. In: FERENCZI, Sándor. Escritos psicanalíticos escolhidos. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

 

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 24ª ed. São Paulo: Loyola, 2014.

 

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. 42ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 50ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

 

FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. Tradução de Francisco Settineri. Porto Alegre: Artmed, 2006.

 

GARCIA, R. [2025]. Educação inclusiva como consenso político nas disputas do campo da educação especial. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ccedes/a/VgXQMtT5D9zrGj9rnrkVzzJ/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 25 mar. 2026.

 

GARRÉ, B; VIEIRA, A. [2021]. Mobilizando ferramentas conceituais da análise do discurso em Michel Foucault. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/ctp/v21n1/1984-7114-ctp-21-01-00025.pdf. Acesso em: 26 mar. 2026.

 

KETZER, E. [2020]. O Método de Michel Foucault e a linguagem da psicanálise. Disponível em:

 https://www.scielo.br/j/psoc/a/wxPnnDRwyCTfhPTWtkVLjRS/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 26 mar. 2026.

 

OLIVEIRA, A. [2023]. Querer ter razão: vontade e intelecto na Dialética erística de Schopenhauer. Disponível em:

https://revistas.usp.br/filosofiaalema/pt_BR/article/view/196848/200943. Acesso em: 29 mar. 2026.

 

PAGNI, Pedro. A emergência do discurso da inclusão escolar na biopolítica: uma problematização em busca de um olhar mais radical. Revista Brasileira de Educação, v. 22, n. 71, 2017. Disponível em: doi.org. Acesso em: 25 mar. 2026.

 

HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Tradução de Luiz Repa. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2009.

 

SILVA, S. [2024]. A violência escolar simbólica na visão de Pierre Bourdieu. Disponível em: https://ojs.studiespublicacoes.com.br/ojs/index.php/cadped/article/view/4489/3141. Acesso em: 27 mar. 2026.

 

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de ter razão: 38 estratagemas. Tradução de Milton Camargo Mota. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

 

TRUJILLO; LEMOS; REIS JÚNIOR; OLIVEIRA. [2021]. Subjetividade e espaço: análises com Michel Foucault. Disponível em:

 https://pepsic.bvsalud.org/pdf/ppp/v16n1/10.pdf. Acesso em: 26 mar. 2026.

 

VIEIRA, M.; MESQUITA, N. [2026]. O (a)bordar da perspectiva baumaniana pelas mãos da Educação Ambiental crítica na formação de professores de Química. Disponível em:

https://www.scielo.br/j/qn/a/6qSYYZMCybtXcnRrn9SWkjH/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 28 mar. 2026.

 



[1] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Educação da Faculdade Interamericana de Ciências Sociais – FICS.

[2] baseiam-se na visão de mundo dualista estabelecida pelo profeta Mani (séc. III), que divide a realidade em duas forças opostas e inconciliáveis: o bem (luz) e o mal (trevas/matéria). Simplifica conflitos complexos, rotulando lados como “bom” ou “mau”, “certo” ou “errado”, sem nuances.

Breadcrumbs