A formação do caráter na educação contemporânea: desafios e possibilidades para o convívio social
Luzinete da Silva Mussi[1]
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo analisar a formação do caráter na educação contemporânea, examinando seus fundamentos filosóficos e psicológicos e discutindo os desafios e as possibilidades pedagógicas para a promoção do convívio social ético no ambiente escolar. Parte-se da compreensão de que a construção do caráter envolve o desenvolvimento moral, a internalização de valores e o exercício das virtudes, configurando-se como dimensão constitutiva do processo educativo. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica e abordagem teórico-reflexiva, fundamentada em contribuições clássicas e contemporâneas da filosofia e da psicologia do desenvolvimento moral, com destaque para Aristóteles, Jean Piaget, Lawrence Kohlberg, Lev Vygotsky, Paulo Freire e Yves de La Taille. A análise evidencia que, em um contexto social marcado por polarizações ideológicas, intensificação das interações digitais, fragilização dos vínculos interpessoais e crescente intolerância, a escola assume papel central na formação ética dos sujeitos. Destaca-se que a promoção intencional de práticas pedagógicas voltadas ao diálogo, à cooperação, à mediação de conflitos e à reflexão crítica constitui estratégia fundamental para o fortalecimento do caráter e para a consolidação de valores democráticos. Conclui-se que a educação do caráter não pode ser concebida como ação pontual ou complementar, mas como eixo transversal do projeto pedagógico, demandando coerência institucional, formação docente e compromisso coletivo com a construção de uma cultura escolar pautada no respeito, na tolerância e na responsabilidade social.
Palavras-chave: Formação do caráter. Desenvolvimento moral. Convivência escolar. Educação ética. Virtudes. Práticas pedagógicas.
Introdução
A formação do caráter constitui-se como uma das dimensões mais complexas e essenciais do processo educativo, especialmente em um cenário contemporâneo marcado por intensas transformações sociais, culturais e tecnológicas. Em meio a contextos de polarização ideológica, fragilização dos vínculos sociais e crescente intolerância, torna-se urgente refletir sobre o papel da escola não apenas na transmissão de conteúdos acadêmicos, mas na constituição ética e moral dos sujeitos.
Historicamente, a discussão sobre caráter está vinculada às concepções filosóficas clássicas. Para Aristóteles, o caráter é construído pela prática reiterada das virtudes, sendo resultado de hábitos formados ao longo da vida. A educação, nesse sentido, não se limita à instrução intelectual, mas envolve a formação de disposições internas que orientam as ações humanas em direção ao bem comum. Essa compreensão permanece atual quando se pensa na necessidade de formar indivíduos capazes de agir com responsabilidade, justiça e respeito nas relações sociais.
No campo da Psicologia do Desenvolvimento, as contribuições de Jean Piaget e Lawrence Kohlberg ampliaram o entendimento sobre a construção da moralidade. Piaget destacou que a moral se desenvolve a partir das interações sociais e da superação do egocentrismo infantil, culminando na autonomia moral. Kohlberg, por sua vez, propôs estágios de desenvolvimento moral que evidenciam uma progressão da obediência heterônoma para princípios éticos universais baseados na justiça.
Já na perspectiva sociocultural, Lev Vygotsky enfatiza que o desenvolvimento humano ocorre nas interações mediadas socialmente. Assim, valores como respeito, tolerância e empatia não são inatos, mas internalizados por meio das relações vivenciadas nos diferentes espaços sociais — dentre eles, a escola assume papel central. Complementando essa abordagem, Paulo Freire defende uma educação dialógica e humanizadora, baseada no respeito à dignidade do outro e na construção coletiva do conhecimento.
Nesse contexto, a formação do caráter não pode ser compreendida como um conteúdo isolado ou uma disciplina específica, mas como um eixo transversal que permeia as práticas pedagógicas, as relações interpessoais e a cultura institucional da escola. O convívio social, a escuta ativa, o respeito às diferenças e a capacidade de dialogar diante de conflitos tornam-se aprendizagens tão fundamentais quanto aquelas de natureza cognitiva.
Entretanto, a escola contemporânea enfrenta desafios significativos na promoção dessa formação ética. A influência das redes sociais, a cultura da imediaticidade, a disseminação de discursos de ódio e a fragilidade das habilidades socioemocionais exigem uma abordagem pedagógica intencional, sistemática e fundamentada teoricamente. Não se trata de moralizar ou impor valores, mas de criar condições para o desenvolvimento da autonomia, do pensamento crítico e da responsabilidade social.
Diante desse panorama, o presente estudo propõe-se a analisar os desafios e as possibilidades da formação do caráter no contexto educacional contemporâneo, destacando o papel do convívio social como espaço privilegiado de aprendizagem ética. Busca-se compreender de que modo práticas pedagógicas intencionais podem contribuir para a construção de sujeitos capazes de respeitar a opinião do outro, conviver com as diferenças e atuar de forma ética na sociedade.
Objetivos
Objetivo Geral
Analisar a formação do caráter no contexto da educação contemporânea, à luz de referenciais filosóficos e psicológicos, discutindo seus fundamentos teóricos, desafios atuais e implicações pedagógicas para a promoção do convívio social ético no ambiente escolar.
Objetivos Específicos
Examinar os conceitos de caráter, moral e virtudes sob a perspectiva de diferentes matrizes teóricas.
Analisar as contribuições de Aristóteles, Jean Piaget, Lawrence Kohlberg, Lev Vygotsky, Paulo Freire e Yves de La Taille no que se refere ao desenvolvimento moral e à formação ética.
Identificar desafios contemporâneos que incidem sobre a construção do caráter no espaço escolar.
Discutir o papel da escola enquanto instância formativa na consolidação de valores democráticos e práticas de convivência respeitosa.
Apontar possibilidades pedagógicas que favoreçam a formação moral e o fortalecimento das virtudes no contexto educacional.
Fundamentação Teórica
Caráter, moral e virtudes: bases conceituais
A compreensão do conceito de caráter remete, inicialmente, à tradição filosófica clássica. Para Aristóteles, o caráter (ethos) forma-se pela repetição de atos virtuosos, sendo a virtude resultado do hábito orientado pela razão. Em sua obra Ética a Nicômaco, o filósofo sustenta que ninguém nasce virtuoso; torna-se virtuoso pela prática constante de ações justas, moderadas e prudentes. Essa perspectiva destaca que a educação moral exige intencionalidade e continuidade, pois depende da formação de disposições internas estáveis que orientam o agir humano.
A noção de virtude aristotélica dialoga com a ideia de equilíbrio — o “justo meio” — no qual o indivíduo aprende a agir com ponderação entre excessos e faltas. Aplicada ao contexto escolar, essa concepção implica compreender que valores como respeito, tolerância e responsabilidade não se desenvolvem de forma espontânea, mas por meio de experiências repetidas de convivência ética e reflexão sobre as próprias ações.
No campo da psicologia moral, Jean Piaget inaugura uma abordagem construtivista ao afirmar que a moralidade evolui a partir das interações sociais. Em seus estudos, Piaget identifica a passagem da heteronomia — fase em que a criança obedece regras impostas por autoridades — para a autonomia moral, caracterizada pela compreensão das normas como construções coletivas baseadas na cooperação e na reciprocidade. Assim, o convívio social assume papel central na formação do caráter, pois é no diálogo e na negociação de regras que o sujeito aprende a considerar o ponto de vista do outro.
Complementando essa perspectiva, Lawrence Kohlberg propõe estágios do desenvolvimento moral que evidenciam uma progressão da obediência por medo de punição até princípios éticos fundamentados na justiça universal. Para Kohlberg, o desenvolvimento moral é impulsionado por conflitos cognitivos que desafiam o indivíduo a reavaliar seus juízos e ampliar sua compreensão ética. Nesse sentido, ambientes escolares que promovem debates, dilemas morais e argumentação favorecem o amadurecimento do julgamento moral.
Sob a ótica sociocultural, Lev Vygotsky enfatiza que o desenvolvimento humano ocorre nas interações mediadas culturalmente. Valores, normas e atitudes são internalizados por meio da participação em práticas sociais compartilhadas. A formação do caráter, portanto, não é apenas um processo individual, mas essencialmente relacional. A escola, enquanto espaço de convivência coletiva, configura-se como um ambiente privilegiado para a internalização de princípios éticos.
No contexto brasileiro, Paulo Freire contribui significativamente ao defender uma educação pautada no diálogo, no respeito à dignidade humana e na construção coletiva do saber. Para Freire, a formação ética está intrinsecamente ligada à conscientização crítica e à prática da liberdade responsável. Educar para o caráter implica, assim, formar sujeitos capazes de posicionar-se no mundo com autonomia, solidariedade e compromisso social.
Convívio social como espaço formador
O convívio social constitui-se como elemento estruturante da formação moral. É na interação cotidiana — nos conflitos, nas divergências de opinião, nas cooperações e negociações — que o estudante aprende a lidar com frustrações, a desenvolver empatia e a respeitar limites. A experiência da alteridade, isto é, o reconhecimento do outro como sujeito de direitos e perspectivas próprias, é condição indispensável para a construção do caráter.
A escola contemporânea, ao reunir sujeitos com diferentes histórias, culturas e visões de mundo, torna-se um microcosmo social onde valores democráticos podem ser vivenciados concretamente. O respeito à diversidade, a escuta ativa e a tolerância não se ensinam apenas por meio de discursos normativos, mas pela prática cotidiana de relações baseadas na reciprocidade.
A perspectiva da educação socioemocional reforça essa compreensão ao destacar competências como empatia, autorregulação, responsabilidade e cooperação. Contudo, é fundamental que tais competências não sejam tratadas de maneira instrumental ou descontextualizada, mas integradas a uma formação ética ampla que considere o sujeito em sua totalidade.
Educação contemporânea e desafios éticos
Na contemporaneidade, marcada pela rapidez das informações e pela intensificação das interações digitais, observa-se um cenário de fragilização dos vínculos interpessoais e aumento da intolerância. A cultura da imediaticidade e da exposição constante pode dificultar o desenvolvimento da escuta, da paciência e da argumentação respeitosa.
Diante disso, a formação do caráter exige uma abordagem pedagógica intencional. Não se trata de impor valores, mas de criar espaços estruturados de diálogo, reflexão crítica e participação democrática. Projetos interdisciplinares, assembleias de classe, mediação de conflitos e práticas restaurativas constituem estratégias que fortalecem a aprendizagem ética.
A formação do caráter, portanto, não pode ser dissociada do projeto político-pedagógico da escola. Ela requer coerência entre discurso e prática, entre normas institucionais e vivências concretas. Quando a escola assume essa responsabilidade de maneira sistemática, contribui para a formação de sujeitos capazes de conviver com as diferenças, respeitar opiniões divergentes e atuar de forma ética na sociedade.
Desafios Contemporâneos para a Formação do Caráter
A formação do caráter na educação contemporânea insere-se em um contexto social complexo, marcado por transformações tecnológicas, culturais e políticas que impactam diretamente as relações humanas. Se, por um lado, a ampliação do acesso à informação e às múltiplas formas de comunicação potencializa o intercâmbio de ideias, por outro, evidencia tensões relacionadas à intolerância, à polarização e à fragilidade do diálogo respeitoso.
Cultura digital e imediaticidade
A consolidação das redes sociais como espaço central de interação tem redefinido as formas de convivência e expressão. Ambientes virtuais frequentemente favorecem respostas rápidas, posicionamentos superficiais e discursos impulsivos, reduzindo o espaço para reflexão e argumentação fundamentada. A exposição constante e a busca por validação social podem influenciar comportamentos pautados mais pela aprovação do grupo do que por princípios éticos internalizados.
Nesse cenário, a escola enfrenta o desafio de promover a formação de sujeitos capazes de exercer o pensamento crítico e a responsabilidade digital. Educar para o caráter implica também desenvolver competências relacionadas ao uso ético das tecnologias, ao respeito nas interações online e à capacidade de discernir informações confiáveis. A formação moral, portanto, precisa dialogar com a realidade digital vivenciada pelos estudantes.
Polarização e intolerância
Outro desafio significativo refere-se à intensificação das polarizações ideológicas e à dificuldade de convivência com perspectivas divergentes. O espaço público tem sido marcado por disputas simbólicas que, muitas vezes, inviabilizam o diálogo construtivo. Tal cenário repercute no ambiente escolar, onde conflitos de opinião podem se transformar em atitudes de exclusão ou desrespeito.
A formação do caráter demanda o fortalecimento da capacidade de escuta e da disposição para compreender o outro. A perspectiva dialógica defendida por Paulo Freire mostra-se particularmente relevante nesse contexto, ao enfatizar o diálogo como prática de reconhecimento da dignidade humana. Aprender a discordar com respeito é uma competência ética essencial para a vida democrática.
Fragilização dos vínculos e individualismo
A contemporaneidade também é marcada por uma crescente valorização do individualismo e da competitividade, elementos que podem enfraquecer a cooperação e a solidariedade. A lógica do desempenho e da produtividade, quando transposta de maneira acrítica para o ambiente escolar, pode reduzir as relações educativas a resultados mensuráveis, negligenciando dimensões formativas mais amplas.
Sob a ótica do desenvolvimento moral, como apontado por Jean Piaget, a cooperação é condição fundamental para a construção da autonomia. Quando o ambiente privilegia apenas a competição, limita-se a oportunidade de experiências que promovam a reciprocidade e o respeito mútuo. Assim, a escola precisa equilibrar exigências acadêmicas com práticas que estimulem a colaboração e o senso de pertencimento.
Crise de referências éticas
Outro aspecto relevante diz respeito à multiplicidade de valores presentes na sociedade contemporânea. A diversidade cultural amplia horizontes, mas também pode gerar insegurança quanto a referenciais éticos compartilhados. Nesse contexto plural, a formação do caráter não pode basear-se em imposições normativas rígidas, mas deve fundamentar-se em princípios universais como dignidade, justiça e respeito.
A proposta de desenvolvimento moral apresentada por Lawrence Kohlberg reforça a importância de princípios éticos que transcendam interesses individuais e se orientem pelo bem comum. A escola, enquanto espaço público de formação, tem a responsabilidade de promover discussões fundamentadas que auxiliem os estudantes a construir critérios próprios para orientar suas decisões.
A necessidade de intencionalidade pedagógica
Diante desses desafios, torna-se evidente que a formação do caráter não pode ocorrer de maneira espontânea ou incidental. Ela exige planejamento, coerência institucional e compromisso coletivo. A promoção de assembleias de classe, projetos de mediação de conflitos, práticas restaurativas e espaços estruturados de debate constituem estratégias que favorecem a vivência concreta dos valores discutidos teoricamente.
Mais do que transmitir normas, a escola deve criar experiências formativas nas quais os estudantes possam exercitar a empatia, a argumentação respeitosa e a responsabilidade social. A coerência entre discurso e prática é condição essencial para que os valores proclamados se convertam em aprendizagens significativas.
Possibilidades Pedagógicas para a Formação do Caráter
Se os desafios contemporâneos revelam tensões éticas no convívio social, as possibilidades pedagógicas apontam caminhos concretos para que a escola atue como espaço privilegiado de formação moral. A construção do caráter não ocorre por meio de discursos normativos isolados, mas por experiências intencionais, relações significativas e práticas educativas coerentes com os valores que se deseja cultivar.
A escola como comunidade ética de aprendizagem
A formação do caráter exige que a instituição escolar se organize como uma comunidade pautada pelo respeito mútuo, pela escuta e pela corresponsabilidade. Mais do que ensinar valores, a escola deve vivenciá-los em sua cultura organizacional.
A perspectiva dialógica defendida por Paulo Freire reforça que a educação é um ato ético e político, fundamentado no reconhecimento da dignidade do outro. Assim, promover rodas de conversa, assembleias de classe e espaços de escuta ativa contribui para que os estudantes aprendam, na prática, a argumentar, a respeitar divergências e a construir consensos possíveis.
Quando o ambiente escolar legitima a participação estudantil nas decisões cotidianas, favorece-se o desenvolvimento da autonomia moral e da responsabilidade coletiva.
Aprendizagem cooperativa e desenvolvimento moral
Estratégias pedagógicas baseadas na cooperação constituem instrumentos eficazes para o fortalecimento de virtudes como solidariedade, empatia e justiça. O trabalho em grupo, quando estruturado intencionalmente, permite que os estudantes enfrentem conflitos, negociem ideias e compartilhem responsabilidades.
Sob a ótica de Jean Piaget, a moral autônoma se constrói na interação entre iguais, por meio da cooperação e do respeito recíproco. Já Lev Vygotsky destaca que o desenvolvimento ocorre nas relações sociais mediadas. Assim, metodologias cooperativas favorecem não apenas o avanço cognitivo, mas também o amadurecimento ético.
Projetos colaborativos, tutoria entre pares e atividades interdisciplinares são exemplos de práticas que fortalecem o senso de pertencimento e a responsabilidade compartilhada.
Educação para o diálogo e mediação de conflitos
Conflitos são inevitáveis em qualquer ambiente coletivo. No entanto, podem ser convertidos em oportunidades formativas quando mediados adequadamente. A implementação de práticas restaurativas e programas de mediação escolar possibilita que os estudantes aprendam a assumir responsabilidades, reconhecer erros e reparar danos.
A teoria do desenvolvimento moral proposta por Lawrence Kohlberg enfatiza que a reflexão sobre dilemas éticos favorece níveis mais avançados de julgamento moral. Nesse sentido, debates orientados, análise de situações-problema e estudo de casos constituem ferramentas potentes para estimular o pensamento ético crítico.
A educação para o diálogo não significa ausência de limites, mas construção de critérios compartilhados que orientem a convivência democrática.
Integração curricular e transversalidade dos valores
A formação do caráter não deve restringir-se a projetos pontuais ou datas comemorativas. Ela precisa atravessar todas as áreas do currículo. Literatura, História, Ciências e até mesmo a Matemática podem problematizar questões relacionadas à ética, justiça, responsabilidade e cooperação.
A transversalidade dos valores fortalece a coerência formativa e evita que a educação moral seja percebida como conteúdo secundário. Quando o estudante vivencia princípios éticos em diferentes contextos disciplinares, amplia sua capacidade de generalização e internalização.
O papel do professor como referência ética
Nenhuma proposta pedagógica terá efetividade se não houver coerência entre discurso e prática. O professor constitui uma referência significativa no processo de formação do caráter. Sua postura diante dos conflitos, sua forma de escuta, sua imparcialidade e sua capacidade de reconhecer equívocos modelam comportamentos.
A autoridade docente, quando exercida com justiça e sensibilidade, fortalece a construção de ambientes seguros e respeitosos. A intencionalidade ética do educador manifesta-se tanto no planejamento das atividades quanto nas interações cotidianas.
Parceria escola-família
A formação do caráter ultrapassa os limites da instituição escolar. A articulação entre escola e família amplia a coerência das orientações e favorece a construção de valores compartilhados. Reuniões formativas, projetos comunitários e espaços de diálogo com responsáveis contribuem para alinhar expectativas e fortalecer a rede de apoio ao estudante.
Considerações desta seção
As possibilidades pedagógicas para a formação do caráter demonstram que a escola possui instrumentos concretos para promover o convívio respeitoso e a cultura da tolerância. Contudo, tais práticas exigem intencionalidade, planejamento coletivo e compromisso institucional.
A educação do caráter não é um complemento do currículo: é parte constitutiva da própria finalidade da educação.
Metodologia
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, de caráter bibliográfico e abordagem teórico-reflexiva. Optou-se por essa metodologia por compreender que a temática da formação do caráter na educação contemporânea demanda uma análise conceitual aprofundada, fundamentada em referenciais clássicos e contemporâneos da filosofia moral, da psicologia do desenvolvimento e da pedagogia.
A pesquisa bibliográfica foi realizada a partir do levantamento e análise de obras e artigos científicos que abordam os conceitos de caráter, moral, virtudes, desenvolvimento moral e convivência social no contexto educacional. Foram selecionados autores reconhecidos na área, tais como Aristóteles, Jean Piaget, Lawrence Kohlberg, Lev Vygotsky, Paulo Freire e Yves de La Taille, cujas contribuições oferecem bases teóricas consistentes para a compreensão da formação moral e da construção das virtudes no ambiente escolar.
Os critérios de seleção das obras consideraram: a) relevância acadêmica dos autores na área da educação moral; b) atualidade das discussões (priorizando publicações dos últimos anos, sem desconsiderar referenciais clássicos fundamentais); c) pertinência direta com o objeto de estudo.
A análise dos dados foi realizada por meio da leitura interpretativa e crítica do material selecionado, buscando identificar convergências, divergências e contribuições teóricas que permitissem compreender os desafios contemporâneos e as possibilidades pedagógicas para a formação do caráter. O procedimento analítico consistiu na organização temática das categorias centrais — caráter, moral, virtudes, convivência social, tolerância e respeito — articulando-as com o contexto educacional atual.
Por tratar-se de uma pesquisa exclusivamente bibliográfica, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, uma vez que não envolveu coleta de dados com seres humanos.
Assim, a metodologia adotada permitiu fundamentar teoricamente as reflexões apresentadas, garantindo rigor científico e coerência com os objetivos propostos.
Conclusão
A análise desenvolvida ao longo deste estudo permite afirmar que a formação do caráter constitui dimensão estruturante do processo educativo, especialmente no contexto contemporâneo, marcado por transformações socioculturais intensas e por desafios éticos complexos. Longe de representar um complemento secundário à formação acadêmica, a construção do caráter integra a própria finalidade da educação, ao articular desenvolvimento moral, internalização de valores e exercício das virtudes no convívio social.
A partir do diálogo estabelecido com referenciais filosóficos e psicológicos, evidenciou-se que o caráter não é atributo inato, mas construção progressiva, mediada pelas interações sociais, pela reflexão crítica e pela vivência reiterada de práticas éticas. As contribuições de Aristóteles, Jean Piaget e Lawrence Kohlberg, entre outros autores analisados, convergem na compreensão de que a moralidade se desenvolve em contextos de cooperação, diálogo e enfrentamento de conflitos, elementos que encontram na escola um espaço privilegiado de realização.
Entretanto, os desafios impostos pela cultura digital, pela polarização ideológica e pela fragilização dos vínculos interpessoais exigem que a formação do caráter seja assumida de maneira intencional e sistemática pelas instituições educativas. A neutralidade pedagógica, nesse âmbito, revela-se insuficiente diante das demandas sociais contemporâneas. Faz-se necessária a construção de ambientes escolares que promovam experiências concretas de participação democrática, mediação de conflitos, escuta ativa e responsabilidade coletiva.
As possibilidades pedagógicas discutidas demonstram que a educação do caráter não se restringe a intervenções pontuais, mas demanda coerência entre discurso e prática, integração curricular e compromisso institucional. O professor, enquanto mediador e referência ética, desempenha papel decisivo nesse processo, assim como a articulação entre escola e família.
Conclui-se, portanto, que a formação do caráter deve ser compreendida como eixo transversal do projeto pedagógico, exigindo planejamento, fundamentação teórica e engajamento coletivo. Ao assumir essa perspectiva, a escola contribui não apenas para a aprendizagem de conteúdos, mas para a constituição de sujeitos capazes de conviver com a diversidade, respeitar opiniões divergentes e atuar de forma ética e responsável na sociedade. Assim, reafirma-se que educar para o caráter é, em última instância, educar para a vida em comunidade e para a consolidação de uma cultura democrática.
Referências
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VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
[1] Diretora do Instituto Saber de Ciências Integradas. Pedagoga. Licenciada em Educação Física. Psicopedagoga Clínica e Institucional. Especialista em Educação Especial e Inclusiva e Neuropsicopedagogia Institucional e Clínica, especialista em Autismo, em Sociologia e Filosofia e em Gestão Educacional. Mestra em Ciências da Educação. Atua na Área Educacional desde 1976.

