Projeto de pesquisa: formação docente utilizando o método Trauma-informada: regulação emocional e comportamento escolar
Leticia Carvalho Silva Marques
Sâmela Siqueira Oliveira
Introdução
A educação inclusiva busca atender às necessidades de todos os alunos, garantindo
uma aprendizagem de qualidade e reafirmando o direito de cada criança de ser respeitada em suas singularidades e de aprender em um ambiente que favoreça seu desenvolvimento integral. MENDES (2020, p. 15-16) afirma:
Toda pessoa tem o direito de acesso à educação de qualidade na escola regular e de atendimento especializado complementar, de acordo com suas especificidades. Toda pessoa aprende, sejam quais forem as particularidades intelectuais, sensoriais e físicas do estudante, partimos da premissa de que todos têm potencial de aprender e ensinar. O processo de aprendizagem de cada pessoa é singular, pois as necessidades educacionais e o desenvolvimento de cada estudante são únicos. O convívio no ambiente escolar comum beneficia todos, e a experiência de interação entre pessoas diferentes é fundamental para o pleno desenvolvimento de qualquer pessoa. A educação inclusiva diz respeito a todos, uma vez que a diversidade é uma característica inerente a qualquer ser humano.
Apesar de ser um tema discutido há anos e regulamentado por legislações vigentes, ainda existem lacunas sobre como os profissionais da educação, principalmente da rede pública de ensino, devem lidar com os aspectos emocionais de seus alunos. É importante compreender o impacto das emoções no comportamento em sala de aula e, consequentemente, na aprendizagem. Para que uma criança aprenda de forma efetiva, é essencial que esteja em um ambiente onde se sinta segura, acolhida e confortável, onde possa ser ouvida e valorizada. Assim, os profissionais da educação devem criar espaços que promovam acolhimento e bem-estar, compreendendo as emoções dos alunos, e a partir dessa compreensão adaptar as práticas pedagógicas aos desafios emocionais e comportamentais que surgem no cotidiano escolar.
Justificativa
Estudos indicam que a formação docente em competências emocionais é fundamental para o desenvolvimento de ambientes escolares inclusivos e seguros. Atualmente os professores da rede pública têm enfrentado uma série de dificuldades relacionadas ao aumento de alunos com problemas emocionais e comportamentais, como ansiedade, depressão e crises de agressividade. Tais situações, quando não são compreendidas a partir de uma perspectiva ampliada, podem gerar exclusão, punições desproporcionais ou até reforçar estigma e por isso construir um ambiente de ensino equilibrado, harmonioso e favorável à aprendizagem é um grande desafio que exige do professor conhecimentos e competências emocionais e metodológicas.
A formação docente em competências socioemocionais é, portanto, indispensável. Um professor preparado consegue enxergar o sofrimento por trás de um comportamento, compreender seus impactos na aprendizagem e intervir de modo mais sensível e pedagógico. Nesse contexto, a abordagem trauma-informada tem ganhado destaque por propor uma mudança de paradigma: em vez de perguntar “o que há de errado com essa criança?”, busca-se compreender “o que aconteceu com ela?” (YADAV, MCNAMARA E GUNTURU 2024). Quando aplicadas ao ambiente escolar, essas práticas permitem que o professor reconheça que muitos comportamentos considerados desafiadores são, na verdade, expressões de dor emocional. Assim, em vez de reagir com punição, o educador pode responder com estratégias que promovam acolhimento, autorregulação e aprendizagem. Essa mudança de olhar não apenas contribui para a redução de incidentes disciplinares, mas também fortalece a autoestima e a participação ativa dos alunos.
Objetivo
Objetivo Geral:
Investigar o impacto da formação docente trauma-informada na regulação emocional e no comportamento escolar de alunos com necessidades especiais.
Objetivos Específicos:
Analisar a eficácia de protocolos de sala trauma-informada na melhoria do ambiente escolar
Avaliar a impressão e opinião de docentes e gestores sobre a implementação de práticas inclusivas e trauma-informadas.
Implementar ajustes no ambiente que sejam de baixo custo econômico que favoreçam a autorregulação emocional dos alunos.
Referencial Teórico
A formação docente em competências emocionais é um tema relativamente novo na área da educação tendo em vista que a ideia de inteligência emocional só começou a se popularizar globalmente a partir da década de 90 e teve como um de seus principais divulgadores o livro Inteligência Emocional (1995), de Daniel Goleman. No Brasil, essa perspectiva foi consolidada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que incluiu as competências socioemocionais em suas dez competências gerais (BRASIL, 2018). Isso significa que habilidades como empatia, autocontrole, cooperação e respeito à diversidade devem ser trabalhadas de forma transversal em toda a educação básica.
No campo da inclusão, autores como Dantas (2023) reforçam que o processo educativo de estudantes com deficiência não pode desconsiderar suas necessidades emocionais principalmente pelo fato de que a emoções dos alunos são um fator muito importante que colabora para o desenvolvimento de uma autoimagem positiva, fortalece sua autoestima e promove a participação ativa e prazerosa na escola. Para (ROSA, 2017 apud DANTAS, 2023, pág 8 ) “A inclusão efetiva requer a consideração não apenas das necessidades acadêmicas, mas também das necessidades emocionais e sociais dos estudantes com deficiência.”
A criança com deficiência naturalmente em seu cotidiano já é exposta a um ambiente de muitos desafios sejam eles relacionados a acessibilidade e segurança quanto às relações sociais e emocionais fazendo com que se sintam em constante sobrecargas emocionais e maior incidência de situações traumáticas que afetam direta ou indiretamente seu aprendizado.
Os indivíduos com deficiências, vistos como “doentes” e incapazes, sempre estiveram em situação de maior desvantagem, ocupando, no imaginário coletivo, a posição de alvos da caridade popular e da assistência social, e não de sujeitos de direitos sociais, entre os quais se inclui o direito à educação. Ainda hoje, constata-se a dificuldade de aceitação do diferente no seio familiar e social, principalmente do portador de deficiências múltiplas e graves, que na escolarização apresenta dificuldades acentuadas de aprendizagem (BRASIL, 2001, p. 7).
As práticas trauma-informadas surgem como resposta a esse cenário. Introduzidas inicialmente na área da saúde por Harris e Fallot (2001), elas foram definidas como um conjunto de princípios que visam criar ambientes seguros, previsíveis e sensíveis às experiências de adversidade. YADAV, MCNAMARA E GUNTURU (2024) destacam:
Os elementos comuns da terapia informada sobre traumas incluem: Psicoeducação: Fornecer informações sobre reações de estresse, lidar com lembranças de traumas e gerenciar o sofrimento. Regulação emocional e habilidades de enfrentamento. Exposição imaginária. Processamento cognitivo, reestruturação e criação de significado.Visando emoções como trauma, culpa, vergonha, raiva, pesar ou tristeza.
“Essas terapias são aplicadas em contextos de saúde comportamental para criar um ambiente seguro e acolhedor que promova a cura e a resiliência, ao mesmo tempo que integra a conscientização sobre o trauma em todas as facetas do tratamento.” (YADAV, MCNAMARA, GUNTURU,2024). Quando aplicadas ao ambiente escolar, essas práticas permitem que o professor reconheça que muitos comportamentos considerados desafiadores são, na verdade, expressões de dor emocional. Assim, em vez de reagir com punição, o educador pode responder com estratégias que promovam acolhimento, autorregulação e aprendizagem. Essa mudança de olhar não apenas contribui para a redução de incidentes disciplinares, mas também fortalece a autoestima e a participação ativa dos alunos.
Metodologia
Tipo de Pesquisa: Qualitativa, com abordagem exploratória.
Público Alvo: Docentes e gestores de escolas públicas que atendem alunos com necessidades educacionais especiais.
Instrumentos
Observações de Clima de Sala: Observação e registros sobre interações e ambiente escolar.
Entrevistas: Coleta de dados através de perguntas objetivas a professores e gestores sobre práticas pedagógicas e emocionais.
Avaliação do estado emocional de docentes e alunos antes e depois da aplicação do protocolo no ambiente escolar.
Procedimentos
1- Revisão de literatura sobre educação inclusiva, regulação emocional e práticas trauma-informadas.
2- Capacitação dos docentes em regulação emocional e protocolos trauma-informados.
3- Implementação de ajustes ambientais de baixo custo (ex.: cantos de autorregulação, linguagem acolhedora, rotinas previsíveis).
4- Aplicação do protocolo trauma-informado em sala de aula.
5- Monitoramento contínuo e coleta de dados ao longo do semestre.
Recurso Educacional
O Recurso educacional que será utilizado será o desenvolvimento de um protocolo de ação em sala de aula, voltado para docentes da rede pública, que consistirá em um guia prático e interativo que irá auxiliar os professores a implementarem estratégias de regulação emocional e práticas pedagógicas inclusivas em sala de aula. O protocolo incluirá:
1- Orientações sobre identificação de sinais emocionais e comportamentais de alunos com necessidades especiais;
2- Estratégias de intervenção breve e de baixo custo, como ajustes no ambiente físico, organização da rotina e estímulos sensoriais;
3- Atividades de regulação emocional que possam ser aplicadas em sala de aula, individualmente ou em grupo;
4- Dicas para criar um ambiente seguro e acolhedor, promovendo empatia, respeito e valorização das singularidades de cada aluno;
5- Checklist de acompanhamento para que os docentes registrem observações sobre o clima da sala e evolução emocional dos alunos;
6- Materiais de apoio, como cartilhas, infográficos e vídeos curtos explicativos sobre práticas trauma-informadas.
O desenvolvimento desse recurso visa capacitar os professores a lidarem com situações emocionais complexas e assim promoverem um ambiente escolar mais inclusivo, seguro e acolhedor e com isso reduzir incidentes comportamentais e aumentar o tempo de aprendizagem ativa;
O recurso será disponibilizado em formato digital e poderá ser impresso pelos docentes, para ser consultado durante a prática pedagógica e utilizado em formações continuadas. Será estruturado de maneira prática e acessível, permitindo que educadores com diferentes níveis de experiência consigam aplicar as estratégias de forma imediata em sala de aula.
Conclusão
A implementação de formação docente trauma-informada, aliada à compreensão das emoções e à promoção da autorregulação, é fundamental para criar ambientes escolares seguros e acolhedores. Este projeto visa ajudar na preparação de professores que possam efetivamente apoiar as necessidades emocionais e comportamentais de crianças com deficiência, promovendo uma educação inclusiva e de qualidade.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.
BRASIL. Parecer CNE/CEB nº 17/2001. Ministério da Educação. Brasília, 2001. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CEB017_2001.pdf. Acesso em: 29 set. 2025.
DANTAS, S. A. S. M. Educação emocional como ferramenta para inclusão. Disponível em:
https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/29234/1/SASMD27112023.pdf. Acesso em: 28 set. 2025.
MENDES, Rodrigo Hübner (org.). Educação inclusiva na prática: experiências que ilustram como podemos acolher todos e perseguir altas expectativas para cada um. São Paulo: Fundação Santillana, 2020.
YADAV G, MCNAMARA S, GUNTURU S. Terapia Informada sobre Trauma. [Atualizado em 16 de agosto de 2024]. Em: StatPearls [Internet]. Ilha do Tesouro (FL): StatPearls Publishing; jan. de 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK604200/#. Acesso em: 28 set. 2025.

