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Uma experiência de protagonismo estudantil no Ensino Fundamental

Roseli Aparecida da Silva

Dyeine Lorrayne Dias Paixão Ferreira

Cleriston Barbi Queiroz

Simone Ferreira Vittorazi

Gleici Simone Faneli do Nascimento

 

DOI: 10.5281/zenodo.18764653

 

 

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo analisar e refletir sobre a experiência pedagógica do projeto “Jornal de Parede: Vozes e Ideias em Exposição”, desenvolvido com estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental I em uma escola pública municipal de Mirassol d’Oeste – MT. O estudo fundamenta-se nos pressupostos teóricos de Paulo Freire, Célestin Freinet e Jean Piaget, articulados à perspectiva da educação democrática, do protagonismo estudantil e do letramento crítico. O jornal de parede é compreendido como uma prática pedagógica inovadora capaz de favorecer a autonomia, a criticidade, a expressão escrita e o diálogo no ambiente escolar. A metodologia adotada caracteriza-se como qualitativa, de natureza descritiva e interpretativa, configurando-se como relato de experiência pedagógica. Os resultados evidenciam que a implementação do jornal de parede possibilitou o desenvolvimento do senso crítico, da participação ativa, do letramento e da formação cidadã dos estudantes, fortalecendo o processo de ensino-aprendizagem de forma significativa e colaborativa. Conclui-se que práticas pedagógicas dialógicas e participativas contribuem para a construção de uma educação mais democrática, inclusiva e centrada no estudante como sujeito ativo de sua aprendizagem.

 

Palavras-chave: Protagonismo estudantil. Ensino fundamental. Práticas pedagógicas. Educação democrática.

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

A educação contemporânea tem passado por transformações significativas que demandam a ressignificação das práticas pedagógicas, de modo a atender às exigências de uma sociedade cada vez mais plural, dinâmica e participativa. Nesse cenário, torna-se imprescindível que a escola se constitua como um espaço de diálogo, de construção coletiva do conhecimento e de promoção do protagonismo estudantil, favorecendo o desenvolvimento integral dos educandos e sua formação cidadã.

Diante desse contexto, o presente artigo apresenta e analisa a experiência pedagógica do projeto “Jornal de Parede: Vozes e Ideias em Exposição”, desenvolvido no ano letivo de 2024 com estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental I em uma escola pública municipal de Mirassol d’Oeste – MT. A proposta emergiu das curiosidades e inquietações manifestadas pelos próprios alunos acerca do ambiente escolar, das relações interpessoais e das situações cotidianas vivenciadas na instituição.

Inspirada na pedagogia de Célestin Freinet, a iniciativa consistiu na criação de um espaço democrático de expressão, por meio do qual os estudantes puderam registrar opiniões, críticas, elogios e questionamentos organizados nas categorias: “Eu critico”, “Eu proponho”, “Eu quero saber” e “Eu felicito”. Tal organização favoreceu a escuta ativa e a participação efetiva dos alunos nas discussões relacionadas à vida escolar, promovendo uma cultura de diálogo, corresponsabilidade e respeito às diferentes opiniões.

A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de fortalecer práticas pedagógicas que valorizem a participação ativa dos estudantes no processo de ensino-aprendizagem, contribuindo para a formação de sujeitos críticos, reflexivos e autônomos. Ademais, o trabalho dialoga com as orientações da Base Nacional Comum Curricular, que enfatiza o desenvolvimento de competências socioemocionais, do pensamento crítico e da cultura participativa no ambiente escolar.

Nesse sentido, o objetivo geral deste artigo consiste em analisar a contribuição do jornal de parede como estratégia pedagógica para o desenvolvimento do protagonismo estudantil, da autonomia e do letramento crítico. Como objetivos específicos, busca-se: (a) discutir os fundamentos teóricos que sustentam a proposta; (b) descrever a metodologia de implementação do projeto; e (c) refletir sobre os resultados obtidos no processo de aprendizagem e na formação cidadã dos estudantes.

A metodologia adotada caracteriza-se como qualitativa, de cunho descritivo e interpretativo, configurando-se como um relato de experiência pedagógica. A análise fundamenta-se em referenciais teóricos da educação crítica e participativa, destacando as contribuições de Paulo Freire, Célestin Freinet, Jean Piaget e estudos contemporâneos sobre letramento crítico e educação democrática.

 

 

2 Educação dialógica e protagonismo estudantil: fundamentos freireanos

 

A compreensão do jornal de parede como estratégia pedagógica exige, inicialmente, a análise do conceito de educação dialógica, amplamente desenvolvido por Paulo Freire. Para o autor, a educação não pode ser concebida como um processo unilateral de transmissão de conteúdos, mas sim como uma prática social baseada no diálogo, na problematização da realidade e na construção coletiva do conhecimento.

Freire critica a denominada “educação bancária”, caracterizada pela simples deposição de conteúdos nos estudantes, defendendo, em contraposição, uma educação libertadora e participativa. Nessa perspectiva, educador e educando assumem papéis ativos na construção do conhecimento, mediados pelo mundo e pelas experiências sociais vividas.

A educação dialógica pressupõe uma relação horizontal entre os sujeitos envolvidos no processo educativo, valorizando a escuta, a comunicação e a reflexão crítica sobre a realidade. Tal concepção rompe com modelos tradicionais de ensino e reconhece o estudante como sujeito histórico, capaz de interpretar e transformar o contexto em que vive.

Nesse sentido, o jornal de parede constitui-se como um espaço pedagógico de expressão e escuta, no qual os estudantes assumem o papel de protagonistas da aprendizagem. Ao registrar críticas, propostas, dúvidas e elogios, os alunos exercitam a leitura e a escrita como práticas sociais significativas, vinculadas à realidade escolar. Essa prática materializa o princípio freireano de que a educação deve partir do contexto do educando e promover a conscientização crítica sobre sua realidade.

Outro aspecto central na pedagogia freireana refere-se à relação entre leitura da palavra e leitura do mundo. A alfabetização, para Freire, não se limita ao domínio do código escrito, mas envolve a compreensão crítica da realidade social. Assim, ao escreverem sobre o cotidiano escolar, os alunos exercitam essa leitura ampliada do mundo, utilizando a linguagem como instrumento de reflexão e intervenção social.

Portanto, o jornal de parede fundamenta-se na concepção freireana de educação como prática de liberdade, na qual o diálogo, a reflexão crítica e a participação ativa dos estudantes constituem elementos centrais para o desenvolvimento do protagonismo estudantil e da formação cidadã.

 

2.1 O jornal escolar na perspectiva de Célestin Freinet

 

A proposta do jornal de parede dialoga diretamente com os princípios pedagógicos de Célestin Freinet, educador francês que defendeu a escola como espaço de expressão livre, cooperação e produção coletiva do conhecimento. Para Freinet, a escrita deve estar vinculada à vida real dos estudantes, possibilitando que eles se expressem de forma autêntica e significativa.

O jornal escolar, segundo Freinet, constitui-se como um instrumento pedagógico que permite aos alunos produzir textos livres, compartilhar experiências e participar ativamente da vida escolar. Diferentemente das redações tradicionais, frequentemente descontextualizadas, o jornal escolar valoriza a autoria dos estudantes e a relevância social dos textos produzidos.

Nesse contexto, o jornal de parede pode ser compreendido como uma adaptação contemporânea das propostas freinetianas, mantendo o princípio da livre expressão e da participação coletiva. Ao escreverem suas opiniões sobre o cotidiano escolar, os alunos desenvolvem habilidades linguísticas, cognitivas e socioemocionais, além de fortalecerem o senso de pertencimento à comunidade escolar.

A pedagogia de Freinet enfatiza ainda a cooperação entre os estudantes. O jornal escolar não é apenas um espaço de expressão individual, mas um instrumento de construção coletiva do conhecimento. As rodas de conversa realizadas após a leitura das produções reforçam esse caráter colaborativo, permitindo que os alunos dialoguem, argumentem e reflitam sobre diferentes pontos de vista.

 

2.2 Protagonismo estudantil e educação democrática

 

O conceito de protagonismo estudantil tem sido amplamente discutido no campo educacional, sendo compreendido como a participação ativa dos estudantes na construção do conhecimento e na tomada de decisões relacionadas ao ambiente escolar. O protagonismo implica reconhecer o aluno como sujeito histórico e social, capaz de agir, refletir e intervir em sua realidade.

Práticas pedagógicas que valorizam a participação dos estudantes contribuem para a construção de uma educação democrática, baseada no diálogo, na cooperação e no respeito à diversidade de opiniões. O jornal de parede constitui-se como uma dessas práticas, ao oferecer um espaço para que os alunos expressem suas ideias e sejam ouvidos pela comunidade escolar.

O protagonismo estudantil envolve dimensões individuais e coletivas, uma vez que as ações dos estudantes se articulam com os interesses e necessidades do grupo social ao qual pertencem. Dessa forma, o aluno passa a compreender o alcance social de suas produções e a reconhecer-se como agente de transformação no contexto escolar.

A promoção do protagonismo está diretamente relacionada ao desenvolvimento da autonomia, entendida como a capacidade de tomar decisões, assumir responsabilidades e participar ativamente da vida social. Nesse sentido, práticas que estimulam a participação ativa contribuem para a formação de sujeitos críticos, responsáveis e conscientes de seu papel na sociedade.

 

2.3 Letramento crítico e formação cidadã

 

O conceito de letramento crítico refere-se à capacidade de utilizar a leitura e a escrita para compreender, analisar e transformar a realidade social. Diferentemente do letramento tradicional, que se limita ao domínio técnico da linguagem, o letramento crítico envolve a interpretação reflexiva dos textos e a participação ativa dos sujeitos na construção de significados.

O jornal de parede contribui significativamente para o desenvolvimento do letramento crítico, pois possibilita aos alunos escrever sobre temas relevantes de seu cotidiano escolar, exercitando a argumentação, a reflexão e a consciência social. Ao registrar críticas, propostas e dúvidas, os estudantes utilizam a linguagem como instrumento de análise e intervenção na realidade.

Essa prática relaciona-se diretamente à formação cidadã, pois estimula a reflexão sobre valores éticos, direitos, deveres e convivência social. Ao discutir questões relacionadas ao comportamento, às regras escolares e às necessidades da comunidade, os alunos desenvolvem competências socioemocionais e ampliam sua compreensão sobre o funcionamento da vida em sociedade.

 

2.4 O papel do professor como mediador do conhecimento

 

A implementação do jornal de parede evidencia a importância do professor como mediador do processo educativo. Na perspectiva da educação crítica e participativa, o docente deixa de ser o detentor exclusivo do conhecimento para assumir o papel de facilitador, orientador e incentivador da aprendizagem.

Essa mediação envolve a escuta ativa, o respeito às opiniões dos alunos e a valorização de suas produções, elementos fundamentais para o desenvolvimento do protagonismo estudantil. Ao organizar as rodas de conversa e promover o diálogo, o professor contribui para a construção de um ambiente escolar mais democrático e participativo.

 

 

3 METODOLOGIA

 

A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza descritiva e interpretativa, configurando-se como um relato de experiência pedagógica desenvolvido no ano letivo de 2024. O projeto foi implementado com estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental I em uma escola pública municipal situada no município de Mirassol d’Oeste – MT.

A execução do projeto ocorreu entre os meses de abril e outubro, envolvendo diferentes etapas: sensibilização inicial, produção textual, leitura coletiva e realização de rodas de conversa semanais. Inicialmente, promoveu-se uma roda de conversa para apresentação da proposta, ressaltando a importância da comunicação, do respeito às opiniões e do exercício da cidadania no ambiente escolar.

Posteriormente, foi confeccionado um painel de tecido contendo quatro bolsos, identificados pelas expressões: “Eu critico”, “Eu proponho”, “Eu quero saber” e “Eu felicito”. Durante a semana, os estudantes registravam suas contribuições em pequenos papéis, depositando-os no bolso correspondente. As produções eram autorais e assinadas, estimulando o senso de responsabilidade e a autoria dos estudantes.

Semanalmente, realizavam-se rodas de conversa nas quais as frases eram lidas e discutidas coletivamente com a mediação da professora, da coordenação pedagógica e da gestão escolar. Esse momento constituiu-se como espaço de diálogo, reflexão e esclarecimento de dúvidas, fortalecendo a participação ativa dos alunos na construção do ambiente escolar.

Os dados analisados foram constituídos pelas produções escritas dos estudantes, pelas observações realizadas durante as rodas de conversa e pelas reflexões pedagógicas dos professores envolvidos no projeto. A análise ocorreu de forma interpretativa, buscando compreender as contribuições do jornal de parede para o desenvolvimento do protagonismo estudantil, da autonomia e do pensamento crítico.

 

 

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Os resultados obtidos evidenciam que o jornal de parede contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento do protagonismo estudantil e para a construção de um ambiente escolar mais participativo e democrático. Observou-se maior interesse dos estudantes pelas atividades propostas, com participação ativa na produção escrita e nas discussões coletivas.

Ao longo do projeto, verificaram-se avanços na capacidade de argumentação, na organização das ideias e na expressão oral e escrita dos alunos. As categorias “Eu critico” e “Eu proponho” possibilitaram reflexões sobre comportamentos, regras e necessidades da escola, favorecendo o exercício do pensamento crítico e da responsabilidade social.

A categoria “Eu quero saber” mostrou-se relevante para o desenvolvimento da curiosidade investigativa, estimulando os alunos a formular perguntas e buscar respostas por meio do diálogo com professores e gestores escolares. Por sua vez, a categoria “Eu felicito” contribuiu para a valorização das atitudes positivas, fortalecendo vínculos afetivos e a cultura do respeito mútuo.

Outro resultado expressivo foi a proposição, por parte dos estudantes, da instalação de um bicicletário na escola, demonstrando engajamento na melhoria do espaço escolar e preocupação com a sustentabilidade. A acolhida da sugestão pela gestão escolar reforçou a importância de ouvir e valorizar a voz dos estudantes.

Os achados corroboram as concepções de Freire e Freinet, ao demonstrar que práticas pedagógicas baseadas no diálogo e na participação ativa contribuem para o desenvolvimento integral dos alunos. O jornal de parede mostrou-se, portanto, um recurso pedagógico eficaz para integrar leitura, escrita, oralidade e formação cidadã em uma perspectiva interdisciplinar.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Conclui-se que o projeto “Jornal de Parede: Vozes e Ideias em Exposição” constituíram-se como uma prática pedagógica significativa, capaz de promover o protagonismo estudantil, a autonomia e o desenvolvimento do pensamento crítico. A experiência evidenciou que, quando os alunos são estimulados a expressar suas ideias e participar das decisões relacionadas ao ambiente escolar, tornam-se sujeitos mais engajados, responsáveis e conscientes de seu papel social.

O jornal de parede revelou-se um instrumento pedagógico inovador, alinhado às concepções de educação democrática e participativa, contribuindo para a construção de aprendizagens significativas e para a formação cidadã dos estudantes. Destaca-se, ainda, o papel do professor como mediador do processo educativo, incentivando o diálogo, a reflexão e a participação ativa dos alunos.

Diante dos resultados alcançados, recomenda-se a ampliação de práticas pedagógicas semelhantes em diferentes contextos educacionais, visando fortalecer uma educação crítica, inclusiva e transformadora, na qual os estudantes assumam o papel de protagonistas de sua própria aprendizagem e agentes de mudança em seu meio social.

 

 

REFERÊNCIAS

 

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