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Metodologias Ativas na Educação: uma revisão integrativa de pesquisas recentes

Clebis Domingos dos Santos Sombra[1]

Sandra Karina Mendes do Vale[2]

 

DOI: 10.5281/zenodo.18889316

 

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RESUMO:

As metodologias ativas têm ganhado destaque no cenário educacional contemporâneo, propondo uma abordagem centrada no estudante e na construção significativa do conhecimento. Este artigo, derivado de uma dissertação de mestrado fundamentada na Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP), desenvolvida junto a estudantes do CEMEP no âmbito do projeto "Nossa Ecofarma", analisa quinze estudos acadêmicos publicados entre 2020 e 2025, localizados nas plataformas SciELO, ANPEd e BDTD. Através da revisão, buscou-se identificar as estratégias utilizadas, os referenciais teóricos recorrentes e os impactos observados na prática pedagógica. Os estudos revelam forte presença de autores como Bender, Freire, Vygotsky, Piaget, Ausubel, Moran e Dewey, bem como experiências de aplicação das metodologias ativas na educação básica, técnica e superior, com destaque para a ABP, a sala de aula invertida, o PBL[3] e a aprendizagem cooperativa. Conclui-se que as metodologias ativas contribuem significativamente para a superação da pedagogia bancária e para a formação de sujeitos críticos, reflexivos e autônomos.

 

Palavras-chave: Metodologias Ativas. Ensino-aprendizagem. Protagonismo estudantil.

 

ABSTRACT:

Active methodologies have gained prominence in the contemporary educational landscape, proposing a student-centered approach and the meaningful construction of knowledge. This article, derived from a master's dissertation grounded in Project-Based Learning (PBL), developed with students from CEMEP within the scope of the “Nossa Ecofarma” project, analyzes fifteen academic studies published between 2020 and 2025, sourced from the SciELO, ANPEd, and BDTD platforms. Through this review, the study sought to identify the strategies employed, the recurring theoretical frameworks, and the impacts observed in pedagogical practice. The studies reveal a strong presence of authors such as Bender, Freire, Vygotsky, Piaget, Ausubel, Moran, and Dewey, as well as practical applications of active methodologies in basic, technical, and higher education, with emphasis on PBL, flipped classroom, problem-based learning, and cooperative learning. It is concluded that active methodologies significantly contribute to overcoming banking education and to the formation of critical, reflective, and autonomous learners.

 

Keywords: Active methodologies; Teaching-learning; Student protagonism.

 

 

  1. INTRODUÇÃO

 

As metodologias ativas têm se consolidado como um dos principais eixos de inovação pedagógica no cenário educacional contemporâneo, propondo uma ruptura com os modelos tradicionais de ensino baseados na transmissão unilateral de conteúdo. Em oposição à chamada “pedagogia bancária”, criticada por Paulo Freire (1993), essas metodologias deslocam o foco da figura do professor como detentor exclusivo do saber para o estudante como protagonista do processo de aprendizagem. Trata-se, portanto, de um movimento epistemológico e político que reconhece o educando como sujeito histórico, portador de saberes e capaz de construir conhecimento em diálogo com a realidade em que está inserido.

No contexto das profundas transformações sociais, tecnológicas e ambientais que marcam o século XXI, a escola enfrenta o desafio de formar sujeitos críticos, autônomos e comprometidos com a transformação de seu meio. As metodologias ativas apresentam-se, nesse sentido, como caminhos possíveis para promover uma aprendizagem mais significativa, engajada e contextualizada. Apoiam-se em fundamentos teóricos sólidos, como os de Jean Piaget, que valoriza o desenvolvimento do pensamento autônomo; David Ausubel, com sua teoria da aprendizagem significativa; e Lev Vygotsky, cuja concepção de mediação e de Zona de Desenvolvimento Proximal destaca a importância do conhecimento prévio e das interações sociais no processo de aprendizagem.

Além disso, ao integrar o saber tradicional ao conhecimento científico, as metodologias ativas também contribuem para o fortalecimento da identidade cultural dos estudantes, sobretudo em contextos como o amazônico, onde há uma riqueza de saberes populares historicamente marginalizados pelo modelo educacional eurocêntrico e hegemônico. Nessa perspectiva, metodologias como a sala de aula invertida, a aprendizagem baseada em projetos, a investigação científica e a resolução colaborativa de problemas podem atuar como estratégias concretas de resistência e emancipação.

Este artigo, portanto, tem como objetivo analisar o que autores de diferentes bases científicas no Brasil têm produzido recentemente sobre metodologias ativas, especialmente no que se refere à superação de práticas escolares mecanizadas, à valorização do conhecimento real dos estudantes e à construção de um ensino crítico e significativo. A partir de uma revisão integrativa, selecionamos 15 pesquisas publicadas entre os anos de 2020 e 2025 nas plataformas SciELO, ANPEd e BDTD, buscando compreender como esses trabalhos dialogam — direta ou indiretamente — com os pressupostos de Piaget, Ausubel, Vygotsky e Freire.

A presente análise parte da hipótese de que, embora as metodologias ativas tenham sido amplamente difundidas nos discursos educacionais, sua aplicação prática ainda encontra desafios importantes, como a falta de formação docente adequada, a permanência de currículos engessados e o distanciamento entre teoria e prática. Por isso, conhecer e discutir as produções acadêmicas mais recentes sobre o tema é uma tarefa urgente para a construção de uma escola mais justa, dialógica e transformadora.

Diante desse contexto, o presente artigo apresenta uma revisão integrativa de quinze estudos publicados entre 2020 e 2025, selecionados nas plataformas SciELO, ANPEd e BDTD, os quais abordam diferentes formas de implementação das metodologias ativas no ambiente educacional brasileiro. A seleção se justifica pela intenção de identificar experiências que dialogam com os fundamentos da dissertação que originou este trabalho, centrada na Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) e aplicada no projeto “Nossa Ecofarma”, desenvolvido com estudantes da rede pública paraense. A análise dos estudos permitiu não apenas mapear as principais estratégias utilizadas, como também reconhecer os referenciais teóricos mais recorrentes, entre os quais se destacam Freire, Vygotsky, Piaget, Ausubel, Dewey, Bender e Moran. Essa aproximação visa fortalecer a discussão sobre os impactos das metodologias ativas na formação de sujeitos críticos, autônomos e participativos, superando práticas tradicionais ainda presentes na escola contemporânea.

 

 

  1. METODOLOGIA

 

Este artigo é fruto de uma revisão integrativa da literatura, uma abordagem metodológica que permite reunir, analisar e sintetizar estudos empíricos e teóricos sobre um determinado tema, de forma sistemática e organizada. Segundo Mendes et al. (2008), a revisão integrativa é adequada para mapear o estado da arte de uma área do conhecimento, identificar lacunas e tendências, e subsidiar futuras pesquisas. É, portanto, um recurso valioso para estudos que buscam compreender o panorama de produção científica sobre um objeto, como é o caso das metodologias ativas na educação brasileira.

A escolha por essa abordagem justifica-se pela diversidade de interpretações e práticas relacionadas às metodologias ativas, bem como pela necessidade de compreender como os conceitos de protagonismo discente, aprendizagem significativa, mediação pedagógica e diálogo com o saber tradicional têm sido incorporados (ou não) nas produções acadêmicas recentes. Busca-se, com isso, verificar em que medida os princípios de Piaget, Ausubel, Vygotsky e Paulo Freire têm orientado propostas de ensino centradas na construção do conhecimento e na superação da pedagogia bancária.

Foram utilizados como base de dados três repositórios de ampla relevância na área da Educação:

SciELO (Scientific Electronic Library Online): base digital que reúne periódicos científicos revisados por pares da América Latina e Caribe;

ANPEd (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação): principal fórum de publicação acadêmica da área educacional no Brasil;

BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações): repositório mantido pelo IBICT que reúne produções de pós-graduação stricto sensu das principais universidades do país.

Os critérios de inclusão adotados para a seleção dos estudos foram:

  1. Trabalhos publicados entre os anos de 2020 e 2025;
  2. Pesquisas que abordem diretamente o tema metodologias ativas no contexto educacional brasileiro;
  3. Disponibilidade do texto completo nos repositórios indicados;
  4. Clareza metodológica e relação com os fundamentos de pelo menos um dos seguintes autores: Piaget, Ausubel, Vygotsky ou Freire.

Foram excluídos artigos com abordagens excessivamente técnicas sem vínculo pedagógico, duplicações em mais de uma base e textos que, embora mencionem metodologias ativas, não as aprofundem teoricamente ou metodologicamente.

A etapa de análise consistiu em uma leitura exploratória e, posteriormente, analítica dos estudos selecionados, com categorização de elementos como: tipo de metodologia ativa proposta, base teórica adotada, contexto de aplicação e resultados observados. Esses dados foram sistematizados em uma quadro-resumo, apresentada na próxima seção, permitindo uma visão comparativa entre os trabalhos analisados.

 

 

  1. RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

A análise dos 15 estudos selecionados revelou uma diversidade de contextos e abordagens na aplicação das metodologias ativas na educação brasileira entre os anos de 2020 e 2025. Para fins de organização e clareza expositiva, os trabalhos foram sistematizados em três quadros distintos, de acordo com suas plataformas de origem: SciELO, ANPEd e BDTD. Essa divisão permite não apenas evidenciar a procedência das produções acadêmicas analisadas, mas também destacar as especificidades metodológicas e teóricas de cada conjunto.

Segue o quadro 1, contendo estudos selecionados na plataforma SciELO:

 

Quadro 1 – SciELO: Estudos selecionados sobre Metodologias Ativas

Autor(es) e Ano

Título do Estudo

Metodologia Ativa Abordada

Aporte Teórico

1

Neves, M. C.; Sasaki, D. G. G. (2025)

Aprendizagem Baseada em Projetos na área de Ciências do ensino fundamental: uma revisão sistemática

Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP)

Bender; Vygotsky​

2

Crestani, C. E.; Machado, M. B. (2023)

Aprendizagem baseada em projetos na educação profissional e tecnológica como proposta ao ensino remoto forçado

Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP)

Bender; Loyens; Seery; Muniz Jr.; Akili

3

Oliveira, S. L.; Siqueira, A. F.; Romão, E. C. (2020)

Aprendizagem baseada em projetos no Ensino Médio: estudo comparativo entre métodos de ensino

Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP)

Bender; Larmer; Krajcik & Blumenfeld; Gardner; D'Ambrósio

4

Studart, N. (2022)

A gamificação como design instrucional

 Gamificação

Kapp; Malone; Keller; Csikszentmihalyi; Ryan & Deci.

5

 Salas-Rueda, R. A. (2021)

Impacto da sala de aula invertida no processo de ensino-aprendizagem nos mapas de Karnaugh

 Sala de Aula Invertida

 Guy & Marquis; Tanner & Scott; Schwartz; Zainuddin

Fonte: Elaboração do autor. (Sombra, Clebis, 2025)

 

Os artigos selecionados da plataforma SciELO refletem uma diversidade metodológica e teórica significativa. Observa-se a predominância da ABP, além de propostas relevantes envolvendo gamificação e sala de aula invertida. Os autores Bender, Vygotsky, Kapp, Zainuddin, entre outros, são amplamente utilizados como fundamento teórico, demonstrando o esforço dos pesquisadores em alinhar suas propostas com correntes que valorizam o protagonismo discente, a mediação pedagógica e a aprendizagem significativa.

A escolha por priorizar estudos que abordam a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) está diretamente relacionada ao escopo da dissertação que originou o presente artigo. Trata-se de uma investigação inspirada no projeto "Nossa Ecofarma", desenvolvido com estudantes do CEMEP (Centro de Mídia da Educação Paraense), que aplicaram metodologias ativas no campo da Educação Ambiental. O produto da experiência foi o e-book Nossa Ecofarma, apresentado na Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém, no ano de 2024, e utilizado como material educativo no ano letivo de 2025. Assim, os estudos analisados nesta revisão contribuem para aprofundar a reflexão sobre práticas pedagógicas similares e reafirmam a pertinência da metodologia adotada.

Segue o quadro 2, contendo estudos selecionados na plataforma ANPEd: 

 

Quadro 2 – ANPEd: Estudos selecionados sobre Metodologias Ativas

Autor(es) e Ano

Título do Estudo

Metodologia Ativa Abordada

Aporte Teórico

1

Figuerêdo, E. G. (2020)

Formação docente: uso de metodologias ativas no ensino médio

Metodologias Ativas (ênfase em problematização e protagonismo)

Morán; Freire; Berbel; Reeve; Schön​

2

Oliveira, S. S. A. (2020)

Protagonismo discente: uma prática desafiadora e inovadora na educação básica de um colégio no Recôncavo Baiano

Protagonismo Discente; Sala de Aula Invertida

Freire; Libâneo; Moran; Becker; Perrenoud

3

Heinig, O. L. O. M.; Schlichting, T. S. (2021)

Movimentos de leitura e escrita no trabalho com projetos de letramento: o caso do MIEGI

Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP)

Kleiman; Oliveira et al.; Gee; Street; Lima et al.

4

Silva, M. A. P. F.; Oliveira, G. F. (2022)

Iniciação científica na educação básica: da pedagogia de projetos didáticos à pedagogia de projetos científicos

Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP)

Dewey; Kilpatrick; Freire; Hernández; Bacich & Moran; Boaventura

5

Campos, G. D. M.; Maciel, C. (2022)

Abordagem STEAM e Educação Matemática Realística: uma articulação propositiva para o ensino

Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP)

Bacich & Holanda; Khine & Areepattamannil; Trevisan & Buriasco; Bigode; Freire

Fonte: Elaboração do autor. (Sombra, Clebis, 2025)

 

Os estudos selecionados da plataforma ANPEd demonstram forte articulação entre prática docente, inovação pedagógica e crítica à educação tradicional. Observa-se um compromisso com metodologias ativas que tanto visam ao engajamento do estudante, quanto propõem rupturas com estruturas hierárquicas e transmissivas do conhecimento. Nessa direção, destacam-se abordagens como a Aprendizagem Baseada em Projetos, os projetos de letramento, a pedagogia de projetos científicos e a articulação entre STEAM e Educação Matemática Realística, todas fundamentadas em referenciais sólidos como Paulo Freire, John Dewey, Angela Kleiman, Bacich e Moran.

O protagonismo discente aparece como eixo central em praticamente todos os trabalhos, sendo compreendido não apenas como técnica de ensino, mas como princípio político-pedagógico.

Os autores analisados enfatizam a importância da mediação docente, da contextualização do saber e da formação de sujeitos críticos, autônomos e criadores. Os aportes teóricos escolhidos evidenciam um olhar que vai além da aplicabilidade, sustentando práticas que valorizam o diálogo, a problematização e a construção coletiva do conhecimento. Tais estudos reforçam, portanto, a relevância das metodologias ativas como estratégias capazes de contribuir para uma escola mais democrática, reflexiva e transformadora.

Segue o quadro 3, contendo estudos selecionados na plataforma BDTD: 

 

Quadro 3 – BDTD: Estudos selecionados sobre Metodologias Ativas

Autor(es) e Ano

Título do Estudo

Metodologia Ativa Abordada

Aporte Teórico

1

Santos, E. S. (2021)

Metodologias ativas na formação de estudantes de Pedagogia para a construção do conhecimento Matemático no Ensino Fundamental Anos Iniciais

Metodologias Ativas:  Estações de Aprendizagem; Tutoria; Pesquisa-Ação

Piaget; Freire; Moran; Becker; Smole

2

Fernandes, G. P. (2022)

Aprendizagem baseada em estratégias metodológicas ativas

ABEMA (Aprendizagem Baseada em Estratégias Metodológicas Ativas); Pesquisa-Ação

Freire; Piaget; Vygotsky; Rogers; Ausubel; Moran

3

Machado, J. M. M. (2024)

Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) para o ensino de Ciências no Ensino Médio

Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP)

Piaget; Freire; Dewey; Moran; Berbel; Ausubel

4

Silva, P. A. C. (2020)

Proposta de uma sequência didática com estratégias para a promoção da saúde no Ensino Médio

Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP)

Freire; Dewey; Bruner; Zabala; Moreira; Simão

5

Francelino, M. J. M. (2022)

Análise das percepções discentes e docentes sobre a contribuição da metodologia PBL na formação de engenheiros civis

Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP)

Dewey; Freire; Bruner; Zabala; Bardin

Fonte: Elaboração do autor. (Sombra, Clebis, 2025)

 

Os trabalhos selecionados da plataforma BDTD demonstram um nível elevado de profundidade teórica e aplicação prática das metodologias ativas, em especial no contexto da pós-graduação stricto sensu. A maioria das pesquisas analisadas são dissertações e teses que aplicam metodologias como a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP), a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABPj), estações de aprendizagem, aprendizagem cooperativa e estratégias integradas com sequências didáticas, todas ancoradas em fundamentos teóricos consistentes.

Destaca-se, nesses estudos, a valorização do protagonismo discente e da mediação docente como fatores-chave para a construção significativa do conhecimento. Referenciais como Piaget, Freire, Vygotsky, Ausubel, Dewey e Moran foram recorrentemente utilizados, com ênfase em aspectos como a problematização da realidade, a contextualização dos saberes e a superação da pedagogia bancária.

Ao propor metodologias integradas com tecnologias, sequências didáticas e projetos aplicados, os trabalhos da BDTD evidenciam que as metodologias ativas não apenas são viáveis, mas desejáveis para a promoção de uma educação emancipatória, crítica e conectada à realidade social dos estudantes. Além disso, fortalecem a visão de que tais práticas, quando aplicadas com intencionalidade e fundamentação, são potentes instrumentos de transformação curricular e formação cidadã.

A seguir, serão apresentados os principais aspectos identificados quanto à aplicação das metodologias ativas nos estudos analisados.

 

3.1.    Aplicação das Metodologias Ativas

Os estudos demonstraram que as metodologias ativas, como a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP), a sala de aula invertida e a gamificação, têm sido implementadas com o objetivo de promover maior engajamento dos estudantes e desenvolver habilidades como pensamento crítico, autonomia e colaboração. Por exemplo, um estudo identificou que a utilização da ABP no ensino técnico contribuiu significativamente para a resolução de problemas reais e o desenvolvimento de competências profissionais.

Os estudos analisados revelam diferentes modos de aplicação das metodologias ativas no contexto educacional brasileiro. Em sua dissertação, Santos (2021), por exemplo, apresenta uma proposta de formação de pedagogos utilizando estações de aprendizagem e tutoria em duplas, com base em Piaget e Freire, no ensino da Matemática para os anos iniciais do Ensino Fundamental.

Já Oliveira (2020), em trabalho apresentado na ANPEd, descreve uma experiência com alunos do 4º ano do ensino fundamental baseada na sala de aula invertida, desenvolvendo o protagonismo discente por meio de oficinas temáticas, autoavaliação e atividades lúdicas. Essas práticas demonstram que, mesmo em etapas iniciais da escolarização, é possível criar ambientes de aprendizagem significativos, participativos e baseados na autonomia dos estudantes.

 

3.2.    Fundamentação Teórica

A fundamentação teórica dos estudos analisados frequentemente se apoia nos princípios de Piaget, Ausubel, Vygotsky e Freire. Piaget é referenciado em relação ao desenvolvimento cognitivo e à importância do aprendizado ativo. Ausubel é citado por sua teoria da aprendizagem significativa, enfatizando a conexão entre novos conhecimentos e os saberes prévios dos estudantes. Vygotsky é mencionado quanto à mediação e à Zona de Desenvolvimento Proximal, destacando a interação social no processo de aprendizagem. Freire é lembrado por sua crítica à pedagogia bancária e pela defesa de uma educação dialógica e emancipadora.

Essa fundamentação teórica não se limita à citação conceitual, mas é efetivamente aplicada na construção das experiências pedagógicas relatadas nos trabalhos. Na tese de Fernandes (2022), por exemplo, Piaget, Freire e Vygotsky são articulados para fundamentar uma proposta formativa centrada na pesquisa-ação e nas estratégias metodológicas ativas, buscando promover a autonomia intelectual dos estudantes.

No trabalho de Silva (2020), Freire é mobilizado para criticar a abordagem tradicional, enquanto Bruner, Zabala e Ausubel subsidiam a organização de uma sequência didática que valoriza a descoberta, a experiência prévia e a significação do conteúdo. Esses exemplos demonstram que os referenciais teóricos clássicos não apenas embasam, mas orientam diretamente a elaboração de práticas inovadoras e críticas no campo da educação.

 

3.3.    Desafios na Implementação

Apesar dos benefícios apontados, os estudos também destacam desafios na implementação das metodologias ativas. Entre eles, a resistência de alguns docentes em abandonar práticas tradicionais, a necessidade de formação continuada para o uso eficaz dessas metodologias e limitações estruturais nas instituições de ensino. Além disso, a adaptação dos estudantes a um papel mais ativo no processo de aprendizagem requer tempo e apoio adequado.

Esses desafios são evidenciados em diversos estudos analisados. Na dissertação de Santos (2021), observou-se que, embora as estações de aprendizagem tenham favorecido a construção do conhecimento matemático, muitos futuros docentes ainda demonstraram insegurança ao se afastar do modelo expositivo tradicional.

De modo semelhante, Francelino (2022) identificou, em sua tese sobre o PBL na Engenharia Civil, que parte dos docentes resistia à mudança por desconhecimento da metodologia e por receio de perder o “controle da sala”. Além disso, Machado (2024) relata que a falta de infraestrutura tecnológica adequada e a sobrecarga de conteúdos dificultaram a continuidade das atividades investigativas propostas. Esses exemplos confirmam que a adoção das metodologias ativas requer não apenas mudança de postura, mas também investimento institucional e apoio formativo contínuo.

 

3.4.    Impactos Observados

Os impactos positivos da adoção das metodologias ativas incluem o aumento da motivação dos estudantes, melhoria no desempenho acadêmico e desenvolvimento de competências socioemocionais. Estudos relataram que os estudantes se tornam mais participativos, críticos e capazes de aplicar o conhecimento em situações práticas. Além disso, a aprendizagem se torna mais significativa, pois os conteúdos são contextualizados e relacionados à realidade dos alunos.

Tais impactos foram amplamente descritos nos trabalhos revisados. No estudo de Oliveira (2020), os estudantes do ensino fundamental demonstraram maior autonomia e interesse ao participar de atividades invertidas e oficinas práticas, relatando que "aprender ficou mais divertido e fácil de entender".

Da mesma forma, a tese de Francelino (2022) mostrou que os graduandos em Engenharia Civil, após participarem de uma experiência com o PBL, desenvolveram maior capacidade de resolução de problemas, trabalho em equipe e raciocínio crítico.

Já na dissertação de Silva (2020), os alunos do Ensino Médio, ao vivenciarem uma sequência didática voltada à promoção da saúde, mostraram avanços tanto no conteúdo quanto na postura cidadã diante do tema da vacinação. Esses resultados reforçam que, quando bem planejadas e mediadas, as metodologias ativas promovem não apenas a aprendizagem de conteúdos, mas a formação integral do estudante.

A análise dos estudos evidencia que as metodologias ativas representam uma alternativa eficaz às práticas pedagógicas tradicionais, alinhando-se às demandas contemporâneas da educação. No entanto, sua implementação requer mudanças estruturais, formação docente adequada e uma cultura institucional que valorize a participação ativa dos estudantes. A integração dos princípios de Piaget, Ausubel, Vygotsky e Freire nas práticas pedagógicas pode contribuir para uma educação mais crítica, significativa e transformadora.

Uma experiência concreta que confirma esses impactos foi vivenciada no projeto “Nossa Ecofarma”, desenvolvido com estudantes do Centro de Mídia da Educação Paraense, CEMEP, do Município de Óbidos, no Pará, no ano de 2024. A partir da abordagem da Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP), os alunos foram incentivados a investigar, mapear e sistematizar saberes tradicionais e científicos relacionados ao uso sustentável de plantas medicinais e práticas agroecológicas.

O produto – o e-book Nossa Ecofarma – não apenas consolidou os aprendizados, mas continua sendo utilizado como recurso didático por turmas posteriores. Os estudantes relataram maior envolvimento nas aulas, orgulho pelo material produzido e uma percepção mais clara sobre a utilidade social do conhecimento escolar. Essa vivência confirma que metodologias ativas bem conduzidas têm o poder de transformar a relação dos jovens com o saber, com a escola e com o território em que vivem.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A presente análise evidenciou que as metodologias ativas vêm sendo cada vez mais exploradas na educação brasileira, principalmente a partir de 2020, em resposta à necessidade de reinvenção das práticas pedagógicas frente às transformações sociais, tecnológicas e curriculares. A revisão integrativa de quinze estudos revelou uma diversidade de estratégias, tais como a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP), o PBL, a sala de aula invertida, a aprendizagem cooperativa e o uso de sequências didáticas, todas voltadas ao fortalecimento do protagonismo discente.

A presença recorrente de autores como Freire, Piaget, Vygotsky, Ausubel, Dewey, Bender e Moran reafirma o compromisso dessas propostas com a superação da pedagogia tradicional, ainda marcante em muitos contextos educacionais. Os estudos analisados não apenas oferecem um panorama da aplicação prática dessas metodologias, como também reforçam sua relevância para a formação de sujeitos críticos, reflexivos e engajados.

Ao alinhar essas produções com a experiência vivenciada no projeto “Nossa Ecofarma”, no contexto da dissertação de origem, compreende-se que tais abordagens são viáveis, pertinentes e necessárias para uma escola que deseje dialogar com as demandas do século XXI, promovendo sentido, autoria e transformação no processo de ensinar e aprender.

 

 

REFERÊNCIAS

 

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[1] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Educação da Faculdade Interamericana de Ciências Sociais – FICS.

[2] Professora orientadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Educação da FICS.

[3] Cabe destacar que ABP e PBL, embora comumente associadas, possuem estruturas distintas. A ABP se ancora na elaboração de projetos com entregas concretas e contextos interdisciplinares, enquanto o PBL está centrado na resolução de problemas complexos, que demandam diagnóstico, argumentação e decisão crítica.

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