A IMPORTÂNCIA DO RESGATE DE MITOS E LENDAS REGIONAIS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Patrícia Dauhali Clemente Guimarães Pereira[1]
RESUMO:
O presente artigo tem como principal objetivo trazer a discussão sobre o lugar que os mitos e lendas regionais, seja oral ou escrito, ocupam na educação infantil. Propõe uma reflexão sobre o ensino relacionado as origens da cultura, com foco nos mitos e lendas regionais, problematizando a respeito da diversidade cultural do nosso país e a garantia do acesso e apropriação de seu próprio patrimônio cultural. A criança é cidadã desse século e para inseri-la nesse novo mundo precisa ser leitora de muitas linguagens, ser crítica e consciente, e para isso precisa revisitar a história, aproximar o passado do presente e compreender toda a produção humana para se descobrir sujeito da História e das transformações. Valorizar as expressões da cultura regional de todo um povo é privilegiar a diversidade.
Palavras-chave: Educação Infantil. Cultura regional. Literatura.
RESUMEN:
En este artículo se pretende llevar la discusión sobre el lugar que los mitos y leyendas regionales, ya sean orales o escritas, ocupan en la educación infantil. Ofrece un análisis de la enseñanza relacionada con los orígenes de la cultura, centrándose en los mitos y leyendas regionales, cuestionando acerca de la diversidad cultural de nuestro país y la garantía de acceso y la propiedad de su propia herencia cultural. El niño es un ciudadano de este siglo y para insertarlo en el nuevo mundo tiene que ser lector de muchos idiomas, ser crítico y consciente, y esto tiene que revisar la historia, acercándose al pasado desde el presente y comprender toda la producción humana de descubrir el sujeto de la historia y la transformaciones. Valorar las expresiones de la cultura regional de un pueblo es poner de relieve la diversidad.
Palabras-clave: Educación infantil. La cultura regional. La literatura.
INTRODUÇÃO
Este artigo acerca das lendas e mitos regionais tem como objetivo incentivar os docentes a leitura e ampliação dos conhecimentos sobre a cultura literária de seu Estado dentro de sua realidade. Partindo do princípio de que o espaço ocupado pelos mitos e lendas regionais na educação infantil é bem pequeno, quase inexistente, devido à ausência de práticas de recepção artística, neste caso, as literárias.
Os mitos e lendas representam uma realidade que somente aquele povo sabia entender, guardar e respeitar, mas com o passar do tempo não conseguiu subsistir e para a época, esses mitos e lendas eram como que, lúdico, didático, uma forma de expressar a realidade de todo um povo. Valorizar as lendas e mitos regionais enobrece o educando em relação ao conhecimento de seu povo, enriquecendo a cultura e não a deixando no esquecimento.
Segundo (Reis 1994:15), “Desde o final do século XVIII o conto popular mereceu a atenção daqueles que se propunham a estudar as manifestações folclóricas, manifestações espontâneas do povo, isentas do verniz da erudição". Com isso percebe-se que o conto contempla toda uma variedade espontânea, fazendo parte da cultura de um povo, e recompondo a memória de muitas épocas.
No que se refere às diferenças não se pode deixar de lado a valorização e o respeito às culturas de diferentes regiões. Se atentarmos a nossa volta, nos damos conta que são muitos e variados os valores e concepções de mundo diferentes numa sociedade complexa e diferenciada. Na atualidade sabe-se que a diversidade se desenvolve em processos através do tempo e em diferentes agrupamentos humanos diferenciando-os uns dos outros.
Através da cultura popular o incentivo à leitura e seu progresso será concretizado de forma prazerosa e construtiva, pois a criança irá fazer parte da história. Assim percebe-se a importância desta literatura que é um campo vasto de conhecimento onde a mesma terá opções de inúmeros textos, em que a cultura popular é riquíssima.
A IMPORTÂNCIA DO RESGATE DE MITOS E LENDAS REGIONAIS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Na antiguidade a contação oral de histórias era vista sob um olhar inferior à escrita, apesar disso os povos se reuniam ao redor da fogueira e contavam suas lendas e contos, disseminando a sua cultura e os seus costumes; reunir-se para ouvir histórias era uma atividade dos simplórios, isto explica porque durante tanto tempo esta prática foi rejeitada pela sociedade. Essas lendas e contos eram histórias do imaginário popular pertencentes à memória coletiva, destinadas a ouvintes, adultos e crianças que não sabiam ler.
Segundo Malba Tahan (1966, p.24) “até os nossos dias, todos os povos civilizados ou não, tem usado a história como veículo de verdades eternas, como meio de conservação de suas tradições, ou da difusão de ideias novas.”
Por muito tempo o contar histórias foi uma atividade oral: as histórias, reais ou inventadas, eram contadas de viva voz. Com o aparecimento da escrita, surgem, ao lado das histórias orais, as histórias escritas – e, com essa, surgiram tanto a história, propriamente dita, como relatos de eventos que se acredita terem de fato acontecidos, como a literatura, ou seja, relatos de eventos imaginários (ficção). A literatura nasce dos contos populares por isso a contação de histórias é a origem da literatura.
A criança e o adulto, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, todos, enfim, ouvem com prazer as histórias – uma vez que essas histórias sejam interessantes, tenham vida e possam cativar a atenção. “A história narrada, lida, filmada ou dramatizada, circula em todos os meridianos, vive em todos os climas, não existe povo algum que não se orgulhe de suas histórias, de suas lendas e seus contos característicos” (TAHAN, 1966, p.16).
O trabalho com a literatura regional através dos mitos e lendas é uma estratégica pedagógica que pode favorecer de maneira significativa a prática docente na educação infantil. A escuta de histórias estimula a imaginação, educa, instrui, desenvolve habilidades cognitivas, dinamiza o processo de leitura e escrita, além de ser uma atividade interativa que potencializa a linguagem infantil.
Em meio ao prazer, à maravilha e ao divertimento que as narrativas criam, vários tipos de aprendizagem acontecem. A escuta de histórias, pela criança, favorece a narração e processos de alfabetização e letramento: habilidades metacognitivas, consciência metalinguística e desenvolvimento de comportamentos alfabetizados e meta-alfabetizados, competências referentes ao saber explicar, descrever, atribuir nomes e utilizar verbos cognitivos (penso, acho, imagino, etc.), habilidades de reconhecimento de letras, relação entre fonema e grafema, construção textual, conhecimentos sintáticos, semânticos e ampliação do léxico.
(...) A questão do ensino da literatura ou da leitura literária envolve, portanto, esse exercício de reconhecimento das singularidades e das propriedades compositivas que matizam um tipo particular de escrita. Com isso, é possível afastar uma série de equívocos que costumam estar presentes na escola em relação aos textos literários, ou seja, tratá-los como expedientes para servir ao ensino das boas maneiras, dos hábitos de higiene, dos deveres do cidadão, dos tópicos gramaticais, das receitas desgastadas do ‘prazer do texto’, postos de forma descontextualizada, tais procedimentos pouco ou nada contribuem para a formação de leitores capazes de reconhecer as sutilezas, as particularidades, os sentidos, a extensão e a profundidade das condições literárias (PCN, 1997: 37 – 38).
Dessa forma confirma-se mais uma vez que os textos literários devem ser abordados de forma contextualizada, o que certamente terá um sentido mais significativo à criança que está inserida num processo de desenvolvimento e aprendizagem.
A iniciação literária desde a infância com a literatura regional pode ser uma grande alavanca na aquisição da leitura para além da simples decodificação do código linguístico. Conforme afirma Bamberger (1995) “a leitura é um dos meios mais eficazes de desenvolvimento sistemático da linguagem e da personalidade. Trabalhar com a linguagem é trabalhar com o homem”.
Além disso, a literatura oral na sala de aula pode ser trabalhada de várias formas como na interdisciplinaridade,
... é através duma história que se podem descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e ser, outra ética, outra ótica. É ficar sabendo história, geografia, filosofia, sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula (ABRAMOVICH, 1995, p.17).
Aprender sobre povos e suas culturas, sobre História e Geografia, são possíveis na medida em que essas histórias acontecem em tempo e espaço diversificados, tornando-se um instrumental criativo de exploração a ser usado pelo educador. Inclusive, segundo Busatto (2003), “esse caminho didático permitirá ao aluno valorizar a identidade cultural e a respeitar a multiplicidade de culturas e a diversidade inerente a elas”.
Ou ainda citando Malba Tahan (1966) “as narrativas de casos e contos podem ser aproveitadas em todas as atividades. Através dessas narrativas podem ser ministradas aulas de Linguagem, Matemática, Educação Física, com o máximo de interesse e maior eficiência”.
Podemos verificar que essas assimilações possíveis, permeadas de encanto e ludicidade, tornam o ato de aprender mais interativo, instigante e estimulante porque falam ao interior de cada criança, propiciando um fazer educativo pleno de significação e envolvimento.
Outra fonte de aprendizagem pode ser apontada nos contos. Nos enredos de suas histórias, aparecem situações ligadas a valores universais como a liberdade, a verdade, a justiça, a amizade, a solidariedade, etc. Levando a criança a refletir sobre o convívio em sociedade.
Atualmente as frentes tecnológicas, os estímulos socioculturais, visuais, auditivos, sensório motores e táteis fez com que as crianças ampliassem a sua visão de mundo e a sua capacidade neuronal, a sua inteligência. As crianças do nosso século XXI, seja estas moradoras da favela de grandes cidades ou dos condomínios fechados da classe média alta, se encontram envolvidas num imaginário construído pelas tecnologias, produções culturais que chegam a elas mediados pelo computador e Internet. São sugeridas as crianças histórias com enredos variados. Narrativas completas com sons e imagens, que se tornaram um desafio para a escola, uma vez que representam um grande atrativo e influenciam o comportamento das crianças.
Logo, a história para a criança da educação infantil de hoje deve ser contada de forma interativa, dinâmica como o mundo em que ela vive, portanto nada melhor do que se utilizar da sua cultura, do que é vivido por ela para motivá-la a lançar imagens no ar, ancorados no seu imaginário e pela sua própria história de vivências para construir personagens, situações e ações.
O epistemólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), já dizia que quando a criança entra em contato com experiências novas ouvindo ou vendo coisas que para ela são novidades, acaba inserindo esses conteúdos as estruturas cognitivas que possuía anteriormente, construindo significados e assim aumentando o seu conhecimento, somando o novo ao que já vivenciou.
A escola tem uma grande responsabilidade nesse processo, o sistema educativo deve ajudar quem cresce em determinada cultura a se identificar, a partir das narrativas regionais é possível construir uma identidade e encontrar-se dentro da própria cultura, a escola deveria promover e divulgar mitos e lendas regionais que mostrem à realidade pluricultural regional resgatando a sua história, a sua tradição, favorecendo deste modo a construção da identidade infantil. Há gerações isto vem sendo negado onde se legitimam apenas os contos de origem europeia.
Esse artigo pode trazer possibilidades de reflexão sobre a importância de preservar a história dos alunos, trazendo suas informações para dentro da sala de aula e transformar esses subsídios em rico material interdisciplinar sociolinguístico.
Todas as atividades concernentes ao resgate de nossa identidade cultural são fundamentais para que possamos conservar nossa história. Cunha (1985) afirma que o conhecimento da cultura adquirida dará oportunidade de valorizar e aceitar sua história, integrando-se a ela como parte do meio. Trabalhar os mitos e lendas regionais em sala de aula é contribuir para que nossas crianças percebam a importância de se buscar o retrato vivo de emoções, sentimentos próprios de sua comunidade, de sua gente.
CONCLUSÃO:
As histórias infantis têm papel essencial na formação do sujeito, tornando-o crítico e capaz de tomar decisões. O momento dedicado a contar histórias é de grande valia para a criança, pois por meio desses contos será formado um banco de dados de imagem e de vocábulos que serão utilizados em situações interativas vividas por ela. Através das histórias contadas as crianças formam sua identidade buscando reconhecer-se nos personagens ali citados.
Essas histórias funcionam como uma chave que abre portas para um mundo imaginário ilimitado. Imaginem então, embarcar em histórias que ao invés de castelos e reis teremos florestas, rios e índios. Onde a fauna e a flora são conhecidas, as estradas são reais e o céu é quase sempre azul? Viajar pelo nosso estado, conhecer as nossas raízes e entender quão maravilhoso é a nossa cultura.
Na realidade da sala de aula os docentes acabam trabalhando textos literários de autores internacionais, o que muitas vezes foge a realidade da criança e deixa de lado a valorização e preservação da cultura regional que é um conteúdo literário riquíssimo para o conhecimento.
A cultura é o resultado dos modos como os diversos grupos humanos foram resolvendo os seus problemas ao longo da história, é criação. O homem não só a recebe dos seus antepassados como também cria elementos que a renovam. A cultura é um fator de humanização, é um sistema de símbolos compartilhados com que se interpreta a realidade e que conferem sentido à vida dos seres humanos. É importante para o desenvolvimento das crianças que elas consigam conhecer as origens de suas raízes para que dessa forma elas possam reconhecer-se nos heróis e princesas da nossa cultura e melhor se identifiquem com os nossos referenciais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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[1] Professora efetiva da Secretaria de Estado de Educação/SEDUC e mestranda do PROFLETRAS/UNEMAT-Sinop.